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Mostra em Amsterdã reabre debate sobre saúde mental de Van Gogh

Museu em Amsterdã tenta esclarecer dramas do pintor e exibe documento com evidências sobre a orelha mutilada do artista

Nina Siegal, New York Times

17 Julho 2016 | 06h00

Todos sabem que Vincent van Gogh cortou a orelha esquerda. Mas desde esse fatídico ato, de quase 128 anos atrás, há um contínuo debate sobre a gravidade da mutilação, que aconteceu em Arles, em dezembro de 1888. Van Gogh cortou um pedacinho da orelha ou decepou-a inteiramente?

A escritora e historiadora amadora Bernadette Murphy, ao pesquisar o último período da vida do pintor holandês, descobriu um documento que pode ajudar a resolver a questão. Uma carta do doutor Félix Rey, que tratou de Van Gogh no hospital de Arles, tem um desenho da lesão, mostrando que o artista cortou a orelha inteira.

A carta e o desenho serão exibidos pela primeira vez na mostra À Beira da Insanidade, no Museu Van Gogh de Amsterdã, aberta até 25 de setembro. Serão apresentados também outros documentos nunca exibidos, além de evidências sobre a doença mental de Van Gogh.

A exposição inclui ainda 25 pinturas e objetos como um revólver enferrujado que Van Gogh pode ter usado para suicidar-se. Tudo isso para explorar a última etapa da vida do pintor, quando seus problemas aumentaram – do corte da orelha até 29 de julho de 1890, quando aparentemente cometeu suicídio em Auvers-sur-Oise, também na França.

O tema do estado mental do artista sempre fascinou os admiradores de sua arte e até hoje o Museu Van Gogh não havia tratado diretamente do assunto, agora na pauta das exibições.

“Uma série de mostras vai permitir dar mais informações sobre Van Gogh”, disse Nienke Bakker, curadora de quadros do museu e também curadora da nova exposição. Ela disse que a maioria dos visitantes do museu faz três perguntas: “O que aconteceu com sua orelha?” “Que doença ele tinha?” e “Por que ele se matou?”

A mostra coincide com o lançamento do livro Van Gogh’s Ear: The True Story (A orelha de Van Gogh: a verdadeira história), de Bernadette Murphy.

Steven Naifeh, historiador americano e autor de Van Gogh: The Life (Van Gogh: a vida), disse por e-mail após ver o novo documento: “Isso não é novo e não é crível”. Em sua biografia, Naifeh diz que testemunhas que viram Van Gogh depois do dr. Rey, garantiram que a orelha não foi totalmente decepada. Muitas razões já foram dadas para a automutilação de Van Gogh. Paul Gauguin, em seu romance Avant et Aprés (Antes e depois), descreve um desentendimento entre ele e Van Gogh, em Arles, após decidir partir. Gauguin contou que Van Gogh correu atrás dele com uma navalha até que Gauguin o conteve. Van Gogh então teria ido para casa e se mutilado.

Em suas pesquisas, Bernadette Murphy disse ter identificado a mulher à qual Van Gogh deu a orelha. Era Gabrielle, empregada em um bordel.

Segundo Nienke Bakker, o pintor não se lembrava do que acontecera com sua orelha e dizia que suas lembranças das ações durante os vários colapsos nervosos eram vagas.

Muitos tentam descobrir qual a doença mental de Van Gogh. Alguns acham que ele tinha epilepsia, que pode provocar convulsões, comportamento errático e perda de consciência. Outros acreditam que os sintomas sejam do transtorno bipolar. Bernadette Murphy acha que pode ter sido uma combinação dos dois males.

O objetivo da exposição não é ligar a obra ao estado mental do artista, mas deixar claro que Van Gogh lutava para continuar trabalhando, apesar da doença que o debilitava. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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