Mostra do Recife abre espaço para reflexão e formação

Debates contribuem para apurar o olhar do espectador para peças difíceis como O Pupilo Quer Ser Tutor, de Peter Handke

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2007 | 00h00

Na abertura do Festival Recife de Teatro Nacional, sexta-feira, os realizadores anteciparam planos para o evento tornar-se internacional. O desejo de avançar é natural e saudável numa mostra que se sedimenta nesta sua 10ª edição tanto pela qualidade dos espetáculos quanto pela programação paralela. Mas vale pensar se a internacionalização seria o melhor rumo.Há muitos festivais internacionais no País, porém apenas duas cidades abrigam os nacionais de grande porte: Recife e Curitiba. Por muitas razões, Recife tem vocação para ser mostra anual de importância para o desenvolvimento da cena brasileira. Por transcorrer no fim do ano, pode funcionar como espécie de balanço anual. Por sua localização, pode tornar-se espaço de repercussão da cena nordestina para os demais Estados do País. Tal papel poderia resultar num interessante, e desejado, deslocamento do chamado ''''eixo'''' (Rio-São Paulo), tema de um dos debates do evento.Ressalte-se que a mostra de Curitiba se inspira num modelo europeu semelhante ao das feiras de arte: vitrine para negócios. ''''Na Europa há muitos festivais que são ponto de encontro de produtores e agentes'''', diz Juliana Gontijo, atriz do grupo As Graças, de São Paulo, presente no evento com duas ótimas peças - o infantil Poemas para Brincar, espetáculo de bonecos criado a partir de poesias de José Paulo Paes, e Noite de Reis, de Shakespeare, divertida e crítica encenação feita para a rua, dirigida por Marco Antonio Rodrigues.''''O melhor dos festivais é esse tempo e espaço para os encontros'''', afirma a atriz e diretora Denise Weinberg que ministra uma das oficinas da 10ª edição - Interpretação Realista para a Cena Contemporânea. O público alvo, jovens atores, também marca presença numa das salas da ampla Livraria Cultura do Recife, palco de encontros diários entre dramaturgos e acadêmicos. Entre os autores participantes estão o amazonense Francisco Carlos, o pernambucano Newton Moreno, o cearense Marcos Barbosa, a mineira Grace Passô e o carioca Roberto Alvim. Entre os acadêmicos, Luis Fernando Ramos, da Universidade de São Paulo, Fran Teixeira, da Universidade Federal do Ceará, e Luís Augusto Reis, da Universidade Federal de Pernambuco. A cada dia, dois dramaturgos têm um de seus textos lido por atores locais, comentado pelo acadêmico convidado e debatido com a platéia. Tudo aberto ao público e grátis.Tais eventos têm importância até para apurar o olhar para espetáculos de fruição mais difícil, como O Pupilo Quer Ser Tutor, texto de Peter Handke dirigido por Francisco Medeiros com os atores Nazareno Pereira (tutor) e Leon de Paula (pupilo), de Santa Catarina. Por coincidência, a importância das rubricas (indicações do autor) foi tema do debate que envolveu Luis Fernando Ramos, Francisco Carlos e Roberto Alvim. ''''Há diferentes tipos de indicações. Encenar um Beckett sem respeitar as rubricas está errado, elas fazem parte da escrita da peça, da poética da cena'''', defendeu Roberto Alvim.O raciocínio vale para essa peça de Peter Handke. A carga poética brota das ações e da tensão que os atores conseguem estabelecer no palco - bastante potente nessa encenação. Trata-se de uma peça sem palavras. A escrita do autor, nesse caso, está nas indicações. Dois trabalhadores numa cabana rústica, muitos silêncios, poucas e precisas ações vão desvendando aos poucos as relações de poder entre dois homens, e suas implicações emocionais. A não ser pelos climas induzidos pela trilha sonora, talvez até excessiva de início, nada é dado de bandeja para o espectador, obrigado a fazer um exercício de olhar para ''''perceber'''' o que se passa, para ''''ler'''' a cena. Tudo sutil, estilizado, marcado, teatral. ''''É importante ter um espetáculo assim no festival'''', diz o curador Kil Abreu.A repórter viajou a convite da organização do festival

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.