Mostra do irlandês Francis Bacon reúne desenhos do artista

Obras do pintor tiveram sua autenticidade questionada

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

09 de julho de 2014 | 02h00

A exposição com 35 desenhos do pintor irlandês Francis Bacon (1909-1992), que será aberta dia 16, no Paço das Artes, provocou polêmica por onde passou - e ela se deve não apenas aos traços rudimentares das obras, mas ao processo para provar a autenticidade desses trabalhos, movido contra seu proprietário, o italiano Cristiano Lovatelli Ravarino. Bacon presenteou nada menos que 750 desenhos a Ravarino, entre 1977 e 1992 , durante os 15 anos em que foram amigos íntimos.

A polêmica começou quando a galeria Marlborough, de Nova York, com a qual Bacon tinha um contrato exclusivo, contestou a autenticidade desses desenhos, alegando que o artista não desenhava. A disputa com Ravarino durou oito anos, de 1996 a 2004. O processo terminou com uma sentença favorável ao proprietário das obras - e com validade mundial: esses desenhos não podem mais ser considerados falsos. Peritos examinaram a assinatura do artista, os desenhos e o papel usado por Bacon, concluindo que as obras eram autênticas, segundo Guerini.

Os desenhos revisitam telas famosas de Bacon, como o retrato do papa Inocêncio X de Velázquez, reinterpretado por ele, a sua Crucificação e autorretratos. A pergunta que fica no ar é: por que Bacon, que parou de desenhar nos nos 1960, voltaria à técnica pouco antes de morrer para refazer essas obras? Quem responde na entrevista a seguir é a curadora italiana da mostra, Serena Baccaglini, também responsável pela exposição Tauromaquia, exibida até junho na Faap.

Francis Bacon não tinha o costume de desenhar, mas a mostra brasileira prova o contrário. Por que Bacon não exibiu esses desenhos em vida e como explicar que ele tenha adotado velhas pinturas como referência?

Como escreveu Edward Lucie-Smith, legendário curador que conheceu Bacon e Picasso pessoalmente, Bacon muitas vezes negou, até com veemência, que fizesse uso do desenho, o que é contradito por uma entrevista sua ao crítico David Sylvester, seu mais frequente interlocutor. Nela, Bacon admite que desenhava, mas que colocava de lado esses desenhos quando começava uma nova tela. Desde a solitária morte de Bacon em Madri, em 1992, surgiram evidências que provam que ele não só desenhava, como o fazia de maneira prolífica - e prova disso são os esboços deixados no ateliê de Reece Mews, em Londres. Ao se tornar opressiva sua celebridade, um dos lugares favoritos de Bacon para escapar da entourage londrina era a Itália, onde conheceu um jovem e bonito ítalo-americano, Cristiano Lovatelli Ravarino, vistos juntos com frequência em Bolonha e Cortina d’Ampezzo. As obras que estarão expostas no Paço das Artes, presenteadas a Ravarino, evocam um gesto do passado, em que o idoso Michelangelo ofereceu igualmente ao jovem Tommaso Cavalieri uma série de desenhos. Bacon estava feliz na Itália, livre do confinamento de seu ateliê londrino, e queria tentar um nova mídia, talvez para corrigir erros ou recapitular temas do começo de carreira.

Como a senhora definiria esses desenhos?

Eles não são estudos, mas trabalhos autônomos. Embora pertençam à última década de atividade do artista, seus temas são aqueles associados ao Bacon dos anos 1950, como o papa de Velázquez. Bacon frequentemente expressou sua insatisfação com esses trabalhos da fase inicial, que fizeram crescer sua reputação como artista. O desenhos italianos constituem uma tentativa de fazer melhor, ou de maneira diferente. As caixas de vidro que enclausuravam seus personagens, por exemplo, desaparecem nesses trabalhos.

As obras que emergiram do ateliê de Bacon após sua morte são consideradas “problemáticas” por causa de sua baixa qualidade artística, inclusive os desenhos que eram do vizinho Barry Joule. O que diferencia a série de Joule da série de Ravarino?

A despeito de os desenhos do acervo de Joule serem desapontadores - são feitos sobre fotos ou revistas, como o retrato da governanta de Bacon - há razões poderosas para aceitar que são genuínos. Esses desenhos são totalmente diferentes dos italianos presenteados a Ravarino, que são obras independentes, experimentais.

No fim de sua vida, Bacon fugia de seu ateliê para lugares onde era pouco ou nada conhecido. Em que circunstâncias conheceu Ravarino e por quanto tempo eles foram amantes? Há algum desenho na mostra do Paço que retrate Ravarino?

Bacon conheceu Cristiano Lovatelli Ravarino em 1977, na festa de despedida de Balthus, na Villa Medici, em Roma. O relacionamento durou até a morte do pintor. Eles compartilharam muitas experiências e a beleza dos mestres renascentistas, como Bacon escreve no documento de doação dos desenhos a Ravarino, em 1988, em que agradece a ele e ao Renascimento italiano. Alguns desenhos da exposição parecem ser mesmo retratos de Ravarino e fazem lembrar o colecionador, como ele mesmo diz, "30 quilos atrás".

De acordo com o curador inglês Martin Harrison, não há evidência do uso regular do crayon por Bacon, argumentando que seus meios tendem a ser úmidos, pastosos, como o óleo. Harrison defende que só os desenhos das coleções Spencer e Pollock seriam legítimos. Por que Bacon usou lápis em alguns desenhos que estão na mostra do Paço?

Como disse antes, Bacon estava fora de seu ateliê e queria experimentar novas técnicas e materiais. Ravarino o fez descobrir o papel Fabriano, resistente ao traço forte de Bacon. É possível verificar diretamente nos desenhos esse traço incisivo. De qualquer forma, segundo o livro de Guerini, um estudo de 13 anos de uma grafologista renomada, Dra. Ambra Draghetti, concluiu que as assinaturas nos desenhos são autênticas. Além disso, há um documento de doação, datado de 2 de abril de 1988, em que Bacon agradece a Ravarino. Ele diz: "Deixo todos os meus desenhos para Cristiano Ravarino. Tenho uma dívida com ele e a cultura renascentista italiana. Tenho também a suspeita de que a Galeria Marlborough me enganou e me roubou, criando uma situação embaraçosa. Com amor, Francis Bacon. "Um catálogo raisonné será publicado brevemente, o que deverá certificar a autenticidade dos desenhos de sua coleção. Além disso, a Sotheby’s está avaliando os desenhos para futuros leilões. Alguns pertencentes à coleção de Lynn e Brian Hayhow (Lynn é advogada da rainha Elizabeth da Inglaterra) são, por sinal, muito parecidos com os da coleção de Cristiano Lovatelli Ravarino.

ITALIAN DRAWINGS

Paço das Artes. Av. da Universidade, 1, Cid. Universitária, 3814-4832. 3ª a 6ª, 10 h/ 19h; sáb. e dom., 12h30/ 17 h. Grátis. Até 7/9. Abertura na sexta.

Advogado garante que obras doadas não são falsas

Presidente da Francis Bacon Drawing Foundation, o advogado Umberto Guerini trabalhou mais de 10 anos para provar que os desenhos doados a Cristiano Lovatelli Ravarino eram autênticos. Em entrevista ao Caderno 2, ele apresentou uma lista de amigos e especialistas na obra de Bacon que testemunharam a favor de seu cliente. "Horacio de Sousa Cordero, velho amigo de Francis Bacon, estudou esses desenhos em Buenos Aires e Bolonha, declarando que eram autênticos."

Guerini conseguiu também o testemunho de Carlo Gaggioli, dono de uma vinheria em Bolonha, visitada por Bacon e seus amigos barulhentos em 1982 (o pintor era alcoólatra). Para compensar a algazarra, ele o presenteou com um desenho parecido com os que deu a Ravarino. 

Em 1986, ele deu ao professor Vincenzo Luchese, da Universidade de Veneza, outro desenho idêntico aos de Ravarino, um dia depois de um baile de Carnaval, segundo Guerini.

Outro nome citado é o do colecionador e historiador de arte inglês Dennis Mahon (1910- 2011), que teria ficado impressionado com os desenhos italianos que Guerini mostrou a ele na cafeteria da Tate Britain. Mahon não disse uma palavra na hora, mas posteriormente admitiu em cartas que sabia das viagens de Bacon e dos encontros com seu amigo italiano de Bolonha.

A especialista em grafologia Ambra Draghetti, convocada como conselheira técnica no julgamento contra Cristiano Lovatelli Ravarino, confirmou que as assinaturas de todos os desenhos italianos de Bacon são autênticas e idênticas àquelas que são encontradas nas telas do pintor.

"Então eu me pergunto como o curador Martin Harrison, que nunca viu os desenhos doados a Ravarino, pode falar de obras de arte desconhecidas para ele. Esse é um procedimento aceitável para um acadêmico?", pergunta o advogado, convidando o especialista a visitar Bolonha. "Harrison age como os inquisidores que julgaram Galileu, acreditando mais na Bíblia que nas evidências científicas."

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