TIAGO QUEIROZ|ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ|ESTADÃO

Mostra destaca processo experimental de Lenora de Barros

Artista exibe antologia de suas obras na Oficina Cultural Oswald de Andrade de São Paulo

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2016 | 16h00

Na semana passada, Lenora de Barros “calou a boca” do silêncio – e em alto e bom som. Explicando – na Oficina Cultural Oswald de Andrade, a artista, ao lado de convidados, realizou a performance Pregação, que consistiu em martelar uma montanha de pregos sobre as oito letras que, impressas, formavam a palavra silêncio em um painel instalado no local. Uma peça sobre “dizer e não dizer”, “coisa que vem da minha admiração pelo (John) Cage”, explica Lenora, citando “I have nothing to say/ and I am saying it”, do compositor norte-americano – autor de 4’33’’, cuja partitura indica que o músico não deve executar nenhuma nota durante quatro minutos e 33 segundos –, Pregação será refeita pela paulistana neste domingo, 8, na Auckland Art Gallery, na Nova Zelândia.

Do outro lado do hemisfério, Lenora de Barros participa da exposição Space To Dream, a primeira grande coletiva de arte latino-americana na Australásia, na qual também estão representados outros criadores brasileiros como Lygia Clark, Ernesto Neto e Rosângela Rennó. Entretanto, antes de viajar para Auckland, a artista inaugurou em São Paulo, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, Issoéossodisso, uma panorâmica que destaca trabalhos importantes de sua trajetória ao reunir criações de desde a videoperformance Homenagem a George Segal, de 1984.

A mostra seria apresentada no Paço das Artes, mas a instituição, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e sem uma sede própria, teve de sair este ano do edifício que a abrigava na Cidade Universitária (leia mais abaixo). Com curadoria de Priscila Arantes, diretora do Paço, Issoéossodisso foi realocada para a Oficina Cultural Oswald de Andrade, onde ficará em cartaz até 30 de julho.

“As obras de Lenora de Barros sempre se desdobram, gerando ecos em outras obras. Um texto escrito transforma-se em um vídeo. Uma performance se desdobra em uma videoperformance. Uma mesma imagem, uma boca entreaberta, um olhar assustado, aparece em diferentes trabalhos que se inter-relacionam”, descreve a curadora. O título da exposição, mesmo nome da videoperformance inédita que a artista criou para a atual individual, remete ao mote curatorial da antologia, o de sublinhar o “contínuo processo de transformação de uma coisa em outra” na produção da criadora.

Issoéossodisso, como conta Lenora de Barros, é uma frase que ela transformou, lá no passado, em “uma palavra só” quando recebeu a bolsa Vitae para criar um livro. “Na verdade, tinha esquecido disso”, diz a artista, que retomou a sentença para agora, anos depois, realizar o novo vídeo. Nele, Lenora está sentada em uma cadeira elevada e, do alto, ela vai desmembrando um pequeno esqueleto e deixando os pedaços caírem no chão. A ação, para exemplificar ainda mais seu sistema de criação, também é a retomada de uma performance apresentada em 1994 em um congresso da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Dobra e desdobra, ir e vir – ou o “constante devir”, define Priscila Arantes –, na obra de Lenora de Barros tem ainda como um dos mais importantes mananciais as criações (já históricas) que a artista realizou na coluna ...Umas, publicada aos sábados, entre 1993 e 1996, no extinto Jornal da Tarde. Dessa experiência artística em um veículo de comunicação surgiu o embrião, por exemplo, da série Procuro-Me (2001-2003), uma das mais emblemáticas da artista e um dos eixos centrais da exposição.

Mas o desenrolar da poética de Lenora de Barros vai amealhando outras questões. “Transitando por diferentes linguagens e mídias, suas experimentações nascem, muitas vezes, em diálogo com a materialidade da palavra no âmbito das questões colocadas pela poesia concreta, mas flertam também com a arte conceitual, a arte pop e o neoconcretismo”, resume Priscila Arantes.

Se na performance Pregação, a artista trata, como em outros trabalhos, da impossibilidade da fala, há também a reflexão sobre “ver e não ver” em diversas passagens de sua trajetória – e logo na entrada da exposição, a (divertida) imagem Fogo no Olho recebe os visitantes. Sendo assim, melhor seria frisar que “corporificar a linguagem”, como ela mesma sintetiza, é, afinal, um dos atos mais marcantes da produção artística de Lenora de Barros. 

O Paço sem sede

“Existe uma possibilidade de o Paço ir para a Praça Victor Civita”, conta Priscila Arantes, diretora da instituição. Segundo ela, o Estado de São Paulo e a Prefeitura negociam a alternativa já que o Paço não tem ainda sede própria

LENORA DE BARROS

Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363, Bom Retiro, tel. 3222-2662. 2ª a 6ª, 9h30/21h30; sáb., 13h30/20h30. Grátis. Até 30/7 

 

Mais conteúdo sobre:
Artes VisuaisLenora de Barros

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.