Mostra de Curitiba e o fraco caráter nacional

Em sua 18.ª edição, evento privilegia as produções do eixo Sul e Sudeste

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2009 | 00h00

Ser cada vez menos nacional talvez seja um dos principais problemas do Festival de Teatro de Curitiba. Da mostra principal desta 18ª edição do evento, que começou quarta e termina domingo, participam um grupo de Fortaleza, um de Natal e um de Minas. As demais produções vêm do Rio ou de São Paulo. Num festival que almeja ser "vitrine da cena brasileira", falta abrir mais os olhos para o que se faz nos quatro cantos do Brasil. Leia blog especial sobre o festival de teatro de CuritibaO grupo cearense Bagaceira apresenta dois espetáculos: o juvenil Tá Namorando! Tá Namorando!, muito bem recomendado, e Lesados, que já circulou pelo País. Clowns de Shakespeare, de Natal, encena Muito Barulho por Nada, e também já percorreu festivais. A produção mineira Histórias de Chocar acaba de cumprir temporada no Sesc Paulista.São muito bem-vindas tais montagens na mostra principal, mas sua participação é fruto de um trabalho de prospecção fora do chamado eixo. "O Festival de Curitiba quer ser um evento festivo, inovador, ousado, que aponta tendências no cenário artístico nacional", declarou o diretor Leandro Knopfholz. A composição da curadoria é reveladora da distância entre intenção e gesto: Tânia Brandão, crítica e pesquisadora do Rio; Celso Cury, produtor de São Paulo; e Lúcia Camargo, do Paraná. Ninguém do Norte, Centro-Oeste e Nordeste.Inspirado no festival de Edimburgo, o Fringe, supostamente, faria o papel de ampliar a programação, já que não há curadoria nessa mostra ?democrática?. Ocorre que não estamos na Europa. A ideia é reunir num mesmo festival jornalistas e críticos que, por sua vez, ???atraíram as produções e tal concentração permitiria detectar tendências ou tomar o pulso da cena. Ocorre que as produções devem arcar com os custos. Num país de dimensões continentais e sem apoio ao teatro, tal exigência torna-se obstáculo muitas vezes intransponível. Basta ver que entre as 290 peças previstas para esta edição quase metade, cerca de 130, são de Curitiba. Do restante, a maioria vem das regiões Sul e Sudeste.Entre as peças conferidas, vale destacar as criações com alguma qualidade. Como Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, do Grupo Minotauro, de Salvador. Apesar da irregularidade do elenco (palavras saem duras e sem nuances numa dificuldade evidente de projetar a voz sem cair no tom da tribuna), uma poética se instaura no palco. Há claro entendimento de que figurinos e cenários devem significar e não serem mero objetos de ilustração. Baús guardam mais que roupas, memórias e culpas, biombos que remetem a ossários abrigam essa família ?ancestral?, a primeira de todas. Esse é o sentido que funda a encenação, mas carrega também o maior problema do espetáculo, o excesso, dos urros à libido, tudo é exacerbado.Caminha por vertente oposta o elenco jovem (entre 13 e 25 anos) de Refugo, de Santo André (SP), texto de Abi Morgam, sobre crianças em campos de refugiados, dirigida por William Costa Lima. Na abertura, garoto mata homem na rua, a cena é congelada, volta-se no tempo e ação leva ao crime outra vez, e tudo recomeça de outro ponto. A cada vez o público tem mais informações para ?ler? a cena. Nesse caso, há excesso de recursos de distanciamento compensada pela clareza da proposta, afastar o sentimentalismo e provocar reflexão sobre abandono e violência juvenil. A repórter viajou a convite da organização do festivalDepoimentosRETRATO FALADO: Luiz Mason tem 44 anos, é professor municipal e comprou 39 ingressos para o festival. Seria só mais um maratonista, não fosse deficiente visual. Escolhe pela internet, usa tecnologia voltada para cegos. Foi sozinho ver Álbum de Família atraído pela temática. "Era o que esperava, retrato de uma família e seus conflitos, gostei bastante." Quanto ao cenário... "Se tenho companhia ou encontro alguém com boa vontade, peço para descrever. Às vezes, fico mesmo sem saber."SOLUÇÕES: Renata Battagli e Francieli Matos, ambas estudantes de artes cênicas de 18 anos, ficaram tão entusiasmadas com Refugo que subiram ao palco para falar com os atores e o diretor. "Eles são bem novos, mas muito rigorosos, levam a sério o que fazem", diz Renata. "A forma como eles resolvem o espaço cênico, as soluções que criam, por exemplo, para o assassinato na rua, tudo é muito bom", acrescenta Francieli.

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