Reprodução
Reprodução

Mostra de Cristiano Mascaro tem como tema a arquitetura em todas as suas minúcias

'A Estratégia do Olhar – Detalhando a Arquitetura' é aberta nesta terça, 24

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO

24 de novembro de 2015 | 03h00

Muitos já o definiram como um flâneur da cidade, mas o olhar aguçado do Cristiano Mascaro é muito mais do que isso. Talvez melhor seria defini-lo como um andarilho que percorre ruas e calçadas buscando algo que, de alguma forma, não planejou, mas sabe que vai encontrar. Uma luz que ilumina, um espaço que se transforma, um detalhe que assombra: “Para mim, fotografia é aquilo que é construído por meio do olhar”, engendrado no meio do verde do jardim de sua casa na Granja Viana. E embora paradoxal é na quietude da mata que ele escolhe, seleciona e constrói sua visão de cidade e também da arquitetura: “A cidade não tem unidade, ao contrário da paisagem. Um passo e tudo muda”, explica, enquanto apresenta as fotografias que compõem sua mais recente mostra, A Estratégia do Olhar – Detalhando a Arquitetura, que será aberta nesta terça, 24, na Pequena Galeria 18.

Arquiteto de formação, não se esquece do encanto que uma foto de Cartier-Bresson causou nele, há mais de 50 anos, ao folhear o livro Images à la Sauvette”, na biblioteca da FAU, como também não esquece de seu professor João Xavier, que o apresentou ao reconhecido fotógrafo suíço-americano Robert Frank: “Sempre me lembro da generosidade do mestre que me apresentou a revista Camera e me mostrou um trabalho que Robert Frank fez fotografando as pessoas e as cidades de dentro de um ônibus”.

As imagens de Cristiano Mascaro interpretando e retratando metrópoles são conhecidas por vários livros publicados e pelas numerosas exposições que ele já realizou. Mas, desta vez, o convite feito pelo curador Mario Cohen, proprietário da Pequena Galeria o desafiou. Não mais as cidades, mas detalhes da arquitetura. Agora, o foco seria o pequeno. “Para selecionar imagens para esta exposição, mergulhei no meu arquivo e me dei conta que sempre explorei os aspectos gráficos e plásticos da arquitetura”, explica o artista paulista.

No fim, foram 22 os registros selecionados entre os realizados nos últimos anos, de 1996 a 2015. “Imagens que já nasceram assim. Ainda guardo o ‘vício’ da época da fotografia analógica de não mexer na imagem, embora reconheça hoje o valor de uma pós-produção.” O curador da mostra acrescenta: “Estamos acostumados a ver as imagens do Cristiano retratando grandes obras, grandes espaços urbanos e reproduzidas em grandes dimensões. Desta vez, selecionam fotos de detalhes arquitetônicos e as reproduzimos em pequenas dimensões. O detalhe revela o todo, o detalhe visto pelos olhos do artista deixa de ser um pormenor e passa a ser o todo”, revela.

Cristiano Mascaro sempre teve na literatura a inspiração de seus trabalhos. “Sempre fui fascinado pela literatura e a vida dos escritores, pela maneira como eles conseguem representar a vida, seja de forma ficcional ou realista, e acho que essa forma de pensamento é semelhante à de produzir uma fotografia”, diz ainda. “Para mim, a crônica é muito próxima da fotografia”, reforça Mascaro.

Assim como um escritor, ele vai escrevendo suas percepções dos lugares que visita e que retrata: “O fascinante da fotografia é perceber que ninguém olhou para algo daquele jeito”, e se apropria de algumas observações de seus autores preferidos, como Antonio Candido, que, num dos textos de seu livro Recortes, se refere ao ato de escrever como o de “desfazer e refazer a realidade”. É desta forma que Cristiano pensa a fotografia, uma realização intuitiva. Ou como escreve outro de seus autores preferidos, Ernesto Sábato, no livro O Escritor e Seus Fantasmas: “As dificuldades são mais úteis do que as facilidades”. E é por isso que Cristiano Mascaro sempre consegue ver algo de novo no já visto, com a delicadeza e o preciosismo de quem tece uma narrativa pessoal.

Um Rio desconhecido, que não está em cartão-postal

Tudo começou com um encontro que o fotógrafo Cristiano Mascaro e o designer Victor Burton tiveram há 15 anos, apresentados pelo colecionador Pedro Correa do Lago que, na época, convidou ambos para produzirem o livro O Patrimônio Construído, fotografando as 100 edificações mais importantes do Brasil. Desde aquele momento, a dupla Mascaro e Burton desenvolveu vários projetos sempre com o viés da arquitetura, ou seguindo suas pegadas, registrando fazendas de café, engenhos de açúcar e o ciclo da borracha.

Foi então que o Burton convidou Cristiano Mascaro para que ele retratasse o Rio, talvez uma das cidades mais fotografadas no mundo. Mas o que Burton queria especificamente era o olhar de Cristiano que saísse um pouco da já conhecida "cidade maravilhosa". Foi assim que nasceu o livro Rio Revelado, com design de Victor Burton e um saboroso texto de Pedro Afonso Vasquez.

Durante um ano, Cristiano Mascaro visitou o Rio cinco vezes, ficando 15 dias a cada vez, em busca de uma cidade que ele próprio desconhecia. "Já havia fotografado o Rio várias vezes, mas nunca com um objetivo tão definido. Eu o definiria como ‘um livro de achados’", comenta também.

Foi assim que o artista encontrou a Ponte dos Jesuítas, construída em 1752, para ligar a Fazenda de Santa Cruz ao Rio de Janeiro, ou o hangar do Zepellin, de dimensões gigantescas, construído em 1934 para abrigar os dirigíveis alemães, ou sua visão da Vila Operária, criada em 1906 durante a gestão do prefeito Pereira Passos, ou a Confeitaria Manon, na Rua do Ouvidor, criada em 1942. Também revisou lugares que já havia retratado anteriormente, como o Real Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional ou a Estação Leopoldina, entre outros.

À sua maneira, um Rio que, para Mascaro, ainda guarda o importante papel que teve na história brasileira como capital do Império e capital da República. "Andei pelo Rio predisposto a encontrar surpresas relevantes". E é essa a sensação que temos ao folhear as páginas do livro. Um Rio que, para muitos, é desconhecido e se revela pelas fotografias de Mascaro.

 

RIO REVELADO

Pequena Galeria 18. R. Joaquim Antunes, 187. Abertura mostra ‘A Estratégia do Olhar’ e lançamento do livro ‘Rio Revelado’. Dia 24, 19 h

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.