WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Mostra de Amilcar de Castro no Rio expõe ideias simples, básicas e brilhantes

Exposição tem 56 obras produzidas dos anos 1960 até pouco antes de o escultor mineiro morrer

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2014 | 19h07

RIO - Cortar e dobrar chapas de aço como se fossem folhas de papel. Talhar blocos de madeira e mármore sem que a densidade impeça a precisão. Pintar telas com vassouras ao sabor da motivação do momento, dispensando o rigor da geometria perfeita. Aos olhos do crítico Paulo Sergio Duarte, Amilcar de Castro (1920-2002) teve poucas ideias em sua trajetória artística de cinco décadas. Poucas e boas. 

“São ideias simples e básicas. Há artistas que numa mesma exposição têm mais de 20 ideias diferentes, mas resta saber se elas prestam. Fui à Bienal (de Arte de São Paulo) este ano e aquilo não acrescenta nada, era de uma burrice extrema”, afirma Duarte, ao mostrar as obras escolhidas por ele para a retrospectiva de Amilcar em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio até o dia 8 de fevereiro.

São 56 obras produzidas dos anos 1960 até pouco antes de o escultor mineiro morrer. Pelos pilotis e os jardins do prédio, estão espalhadas as quatro esculturas maiores, de aço corten, que pesam até cinco toneladas e dialogam com a modernidade da construção de Affonso Reidy (de 1948) e o paisagismo de Burle Marx. 

São obras só comportadas por espaços abertos, sem limitações de espaço e peso – o que ajuda a explicar o fato de a última grande mostra de Amilcar no Rio datar de 2002 (houve outras significativas em Minas Gerais e na Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, que o homenageou em 2005, sob a curadoria também de Duarte). 

No salão monumental do MAM, além de materiais mais raros em sua trajetória, como mármore, granito, madeira e vidro, e de vitrines que contam sua passagem pela imprensa brasileira como diagramador (seu trabalho de reformulação do Jornal do Brasil, iniciado em 1956, é o ponto alto), foi alocada uma estante com 140 esculturas pequenas de aço corten. Todas têm pelo menos um lado medindo 23 centímetros. Em alguns casos, são miniaturas de obras já existentes; noutros, serviram como um estudo para que depois surgisse uma de grandes dimensões.

O espectador não iniciado fica à procura da solda nas chapas – o que é bastante raro no trabalho de Amilcar, difícil de ser identificado. “O esforço faz parte do pensamento da obra. O modo de produção está embutido na recepção estética e a intensidade poética acompanha o rigor que o artista persegue. Isso é especialmente moderno, para não dizer contemporâneo. É o que os artistas contemporâneos mais fazem: exibir o método”, avalia o curador. 

Três telas – “desenhos”, como Amilcar chamava (“pintura”, para ele, é uma denominação que deve ser reservada aos mestres do gênero) – aparecem como contraponto à precisão das esculturas: são livres e contêm vestígios das cerdas das vassouras que usava. “Eu faço o que eu sinto”, dizia Amilcar. Outras duas são geométricas, de linhas retas.

No documentário que leva seu nome, lançado em 2003, ele fala de sua dinâmica de trabalho, herdada do construtivismo. Poética e razão de mãos dadas: “Não há inspiração, não acredito nisso. Se você quer fazer uma escultura, procura o material e faz. É alegria, não é só trabalho. No desenho, se acho bom, eu faço; se acho ruim, jogo fora”.

As peças vieram em parte do Instituto Amilcar de Castro, em Nova Lima, a 20 minutos do centro de Belo Horizonte, onde era seu ateliê. Algumas são do acervo do MAM e outras, trazidas da galeria carioca Silvia Cintra, que o representa. 

Um neto de Amilcar, Leonardo de Castro, filho de Ana Maria, presidente do instituto (mantido com a venda de obras), veio de Minas para acompanhar pessoalmente a montagem das mais intrincadas. 

No texto que apresenta a exposição, Paulo Sergio Duarte coloca o surgimento de Amilcar como um dos “elevados momentos da arte da segunda metade do século 20” no mundo. Seu nome se destaca se visualizada a produção escultórica europeia, norte-americana e japonesa dos anos 1950, pontua, por ele propiciar uma “nova experiência do espaço”, para além da mera questão da tridimensionalidade.

No século 21, a obra passa por momento de alta no mercado de arte – as visitas de potenciais compradores ao instituto são frequentes –, mas, embora o nome de Amilcar seja referência quando se fala de escultura brasileira, ainda é preciso divulgá-lo para os mais jovens, acredita o curador. “Não conhecem nada, só vídeo, foto e selfies. Tudo o que está aqui é novidade.”

QUEM É - Amilcar de Castro

Mineiro (1920-2002), estudou com Guignard e Franz Weissmann. No Rio, a partir dos anos 1950, trabalhou como destacado diagramador na imprensa. Em 1959, assinou o Manifesto Neoconcreto e expôs com o grupo. Tornou-se o principal nome da escultura no País. 

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