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Mostra 'Arquivo Ex-Machina' revisita o passado de um continente sob o signo da violência

Exposição de fotografia no Itaú Cultural

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2016 | 04h00

Numa das temporadas de Game of Thrones, lorde Tyrion Lannister, em julgamento pelo assassinato de seu sobrinho, o rei Joffrey, diz em sua defesa: “Sou culpado por um crime ainda mais monstruoso, o de ser anão”. Seus algozes contestam: “Não, você não está sendo julgado por ser anão”. Lannister fica com a última palavra: “Oh, sim, tenho sido julgado como anão minha vida inteira”. A exemplo de lorde Tyrion, esse parece ter sido o destino de um indígena boliviano anão que, no começo do século passado, foi retratado, de forma paródica, com um cetro e o globo terrestre a seus pés, numa redução caricatural que a Europa fazia das pessoas de pequena estatura da América Latina.

As fotos do anão boliviano pertencem a uma série feita pelo engenheiro Muñoz Reyes no início de 1900, recuperadas pelo pesquisador Javier Nuñez De Arco, que há 45 anos dedica-se à restauração de arquivos antigos e fundou o primeiro museu fotográfico das Bolívia. É graças a pessoas como ele que o Itaú Cultural conseguiu organizar a mostra Arquivo Ex Machina, que tem como curadores Iatã Canabrava e o catalão Claudi Carreras. Até 7 de agosto, o instituto exibe dez conjuntos de imagens de arquivos como esse, que registram a diversidade étnica massacrada pelo eurocentrismo, as revoltas populares sufocadas pela repressão política e a violência policial na América Latina.

Parte do 4.º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo, Arquivo Ex Machina é assim chamada por ser uma mostra de múltiplos enfoques que, a exemplo do teatro grego, precisa que um deus apareça em cena para resolver o ‘imbróglio’, o impasse da América Latina. Os dez conjuntos de imagens apontam em direções diferentes, mas só poderiam mesmo pertencer a um continente confuso em busca de sua identidade, a ponto de recorrer a um fotógrafo português, João Pina, para desenterrar seu passado – o que inclui a identificação de vítimas das ditaduras que se multiplicam por aqui.

Pina, que teve familiares perseguidos pelo salazarismo, ficou comovido ao conhecer a história do plano secreto que uniu seis países latino-americanos (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai) em torno da tenebrosa Operação Condor (1975) para aniquilar a oposição política durante a ditadura. Em suas pesquisas, o fotógrafo topou com a informação de que um avião usado para atirar presos políticos em alto-mar virou sucata e era exibido orgulhosamente num ferro-velho. É uma de suas imagens mais fortes, ao lado do piso de um lugar de tortura reconhecido por uma vítima da ditadura.

O curador Iatã Canabrava divide a mostra entre três tipos de autores: os pesquisadores, os que interferem nos arquivos pesquisados e, finalmente, os autores que inventam um arquivo. Entre os primeiros ele destaca o peruano Jorge Villacorta, descobridor de um aventureiro japonês que, antes da era digital, era fascinado por selfies. Rikio Sugano (1887-1963) gostava de ser fotografado em lugares exóticos. Chegou a reunir 5.700 imagens do Chile e Peru em que ele, e não o lugar, é o foco da atenção.

No segundo caso, entre os que interferem nos arquivos, Canabrava cita o fotógrafo e ativista político argentino Marcelo Brodsky, que, antecipando os 50 anos do histórico mês de maio de 1968, quando serão lembradas as marchas dos contestadores que se manifestaram pela liberdade em todo o mundo, reuniu um conjunto de fotos históricas que cobrem manifestações, de Paris a Washington, passando por Bogotá, Santiago, São Paulo e Rio de Janeiro – ele chega a escrever slogans sobre os manifestantes como “É proibido proibir” e “A imaginação no poder”, usados por estudantes franceses em 1968.

No terceiro núcleo estão os autores que inventam, como o fotógrafo paulista André Penteado, ganhador do prêmio internacional Pierre Verger e autor de um livro publicado no ano passado, Cabanagem, série de imagens que tenta recontar para os contemporâneos o que foi a revolta popular do Pará durante o império, abafada com um sangrento extermínio em massa. Usando o conceito de micro-história, ele percorreu Belém e o interior do Pará em busca de rastros dessa violência da qual pouco ou nada sobrou. Resultado: ele teve de inventar o próprio arquivo.

Já o fotógrafo equatoriano José Domingo Laso Acosta tinha um arquivo na mão e resolveu apagar seus vestígios. No caminho inverso, ele riscava das cenas todos os indígenas que circulavam pelo centro urbano de Quito, nos anos 1920, deixando em suas fotos apenas os brancos. Num livro de 1911, Laso se queixa dos turistas estrangeiros que só fotografavam os índios, “enfeando tudo e dando uma paupérrima ideia da nossa população e da nossa cultura”. A solução que encontrou foi apagar os índios das fotos, ou, quando isso não era possível, vesti-los com roupas femininas pintadas sobre elas. O resultado é uma fantasmagórica viagem por Quito, que faz parte do arquivo resgatado por um descendente de Laso, o pesquisador François “Coco” Laso.

Exemplo extremo de maquiagem na história é a série que “documenta” a Revolução Mexicana (1910-1920). “São raras as imagens dos fotógrafos mexicanos que puderam permanecer na linha de fogo e as que sobraram são imagens posadas desse período revolucionário”, observa o curador Canabrava. Contraponto dos mexicanos é o artista chileno Bernardo Oyarzún, que, de tanto ser parado na rua pela polícia por ter cara de marginal, assumiu o estereótipo: numa série hilariante, ele posa como criminoso suspeito.

ARQUIVO EX-MACHINA. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 2168-1777. 3ª a 6ª, 9h/20h. Sáb., dom. e feriados, 11h/20h. Grátis. Até 7/8.

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