Fondazione Piero Manzoni/Divulgação
Fondazione Piero Manzoni/Divulgação

Mostra apresenta a inteligência irônica de Piero Manzoni

MAM faz primeira exposição individual do italiano na América Latina

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2015 | 16h00

Na passagem para a década de 1960, Piero Manzoni estava a ironizar o mito do artista. Desde Corpo d’Aria (1959), um balão com seu sopro, até Merda d’Artista (1961), série de 90 latas com seus excrementos, o italiano “antecipou várias possibilidades que a arte contemporânea foi desenvolvendo ao longo do tempo”, como diz Paulo Venancio Filho, curador da mostra que o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo dedica a um dos mais importantes vanguardistas europeus do pós-guerra.


Se as latinhas “estigmatizaram Manzoni de uma maneira até caricatural”, define Paulo Venancio, a exposição, primeira individual do artista na América Latina, promove a apresentação inédita de um conjunto de 28 obras essenciais para se entender suas proposições. 

Criador conceitual e agitador cultural, fundador da revista Azimuth e integrante do grupo alemão Zero, o italiano, morto em 1963 com apenas 29 anos, vítima de um enfarte, teve uma “posição precursora”, completa o curador, ao trazer para sua produção “a performance do corpo, o objeto, a ideia do artista consciente de seu papel como agente de situações, contextos, ações”.

Nesse sentido, podem ser vistas na (pequena) Sala Paulo Figueiredo do MAM não apenas as já citadas Corpo d’Aria e Merda d’Artista, como ainda Base Mágica/Scultura Vivente (1961), um pedestal para que o espectador possa jocosamente tornar-se “obra de arte”, e os cartuchos da série Linea (1959), cujas etiquetas indicam o conteúdo – uma linha de “dimensão infinita” ou um linha de 4,1 metros. “Há uma inteligência irônica, mas também um lado intelectual e poético, claro”, afirma Paulo Venancio Filho.

Mas Manzoni, de uma “profundidade” pouco conhecida/reconhecida, também foi extremamente experimental em relação aos materiais, característica expressa na sequência de trabalhos de sua famosa série Achrome, desenvolvida entre 1957 e 1963. Nas paredes do espaço expositivo, uma sequência dessas obras são como quadros criados com algodão, isopor, pães, caulim, fibras sintéticas e até com pequenos embrulhos de papel.


De fato, a exposição, feita em parceria com a Fondazione Piero Manzoni, de Milão, tem caráter histórico. Segundo Paulo Venancio Filho, o reconhecimento mais abrangente da produção do artista italiano e de seu papel como articulador, pode ser considerado recente. “Tenho a impressão de que a arte americana foi tomando conta da cena artística a partir da 2.ª Guerra e a produção europeia daquele período ficou obscurecida pela pop, minimal, land art, etc.”, destaca.

“A vanguarda do pós-guerra na Europa, da qual Piero Manzoni foi uma das figuras mais importantes, junto com Yves Klein e, depois, Beuys, não teve grande circulação pelos EUA”, completa o curador, exemplificando que somente em 2009 a galeria Gagosian realizou uma individual de Manzoni em Nova York – também vale destacar a grande mostra que o Guggenheim apresentou no ano passado sobre o grupo Zero.

Para explicar o interesse tardio pelo artista, sua sobrinha, Rosalia Pasqualino di Marineo, curadora da fundação dedicada a Manzoni, explica que apenas nos últimos dez anos o mercado tem se voltado para os italianos. São considerações, mas o que importa, afinal, é que este movimento tenha possibilitado o olhar mais aprofundado para uma das produções “mais originais e influentes do século 20”, define Paulo Venancio.

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