Mostra abre espaço para estudantes

Dança em Pauta expõe falta de circuito universitário ao abrigar grupo do Rio

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2005 | 00h00

No Brasil, a presença da dança no ensino superior começou a se expandir nos últimos 25 anos, pois o primeiro curso de graduação, criado na Universidade Federal da Bahia, em 1956, reinou solitário por mais de duas décadas. Tal fato pode ter colaborado, mas não justifica a inexistência, ainda nos dias de hoje, de um circuito universitário de dança - o espaço adequado para as trocas e o avanço dos entendimentos empregados pelas diferentes faculdades sobre o corpo e a dança que ele pratica, e que se espelham nos grupos que delas nascem.Alguns motivos justificam a urgência da criação desse circuito. Sua existência enriqueceria o cumprimento dos papéis para os quais são destinados os cursos superiores de dança - um pedagógico, e outro educacional - e evitaria o que acaba de ocorrer na programação da quinta edição do Dança em Pauta, o festival do Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB que se realiza anualmente em São Paulo. Na ausência de um espaço apropriado para grupos da sua natureza, a Companhia de Dança da Cidade lá se apresentou, no último fim de semana. E, assim, adentrou a um nicho ao qual não pertence. Graças a essa ação do Dança em Pauta, uma questão tão relevante pôde ser bem exposta.Nascida em setembro de 2003 no curso de dança da Escola de Comunicação e Artes do Centro Universitário da UniverCidade, no Rio de Janeiro, a Companhia de Dança da Cidade possui todas as vantagens advindas da situação de ser abrigada em uma universidade: dispõe de local para ensaio, de professores, diretores, e bolsas de estudo para seus participantes. Essa condição privilegiada a diferencia dos grupos profissionais que, de modo geral, pagam caro para dispor de infra-estrutura equivalente e, nem sempre, conseguem garantir ajuda de custo regular a seus participantes.Além dessa circunstância - a mesma para qualquer outra, de mesma natureza -, vale destacar a importância do perfil que a Companhia de Dança da Cidade adotou. Não poderia ser mais feliz a opção em dançar o repertório moderno e contemporâneo que não mais é encenado por quem o criou. O mercado viciou-se em novidades nos tempos líquidos em que vivemos (conceito do sociólogo Bauman para identificar que somos pautados pela produção de bens logo tornados obsoletos), Ou seja, somente um grupo que não dependa diretamente do mercado para a sua existência poderia se dedicar a uma proposta dessas.Quando materializa tal proposta, a Universidade avança pedagógica e educacionalmente. Para encenar cada obra, leva os alunos a se inteirarem sobre o contexto da sua criação e, forçosamente, a procurar entender as restrições presentes em qualquer processo de remontagem. Assim, torna permanente a necessidade de acompanhar as pesquisas sobre as formas de transmissão de conhecimento e a historicidade dos corpos - o que só pode ser atendido no ambiente acadêmico.Basta atentar para o fato de o seu espetáculo já vir em forma de aula para perceber que uma companhia como a da UniverCidade merece um ambiente adequado para o seu desenvolvimento. Um dos seus dois diretores artísticos, Roberto Pereira (a outra é Marise Reis), fala sobre cada obra ao microfone antes de ser apresentada, tornando mais didática ainda a proposta do grupo.O trabalho é cuidadoso, os 11 estudantes demonstram plena dedicação ao que fazem e, com toda a certeza, muito se beneficiarão da formação que estão tendo. Caso existisse um circuito universitário, muitos outros estudantes também poderiam se enriquecer com essa experiência, o que potencializaria a pertinência da ação na qual a companhia está engajada.O circuito universitário poderia, quem sabe, estender-se também para certos Encontros e Mostras não competitivos que reúnem escolas de dança pelo País e cumprem muito mal o papel pólos distribuidores de informação. Mostrar um pouco da dança produzida no século 20, aqui no Brasil, para quem está estudando, seria um marco pedagógico de enorme alcance educacional.

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