Mosaicos relembra Aracy de Almeida, uma glória nacional

Paulinho da Viola participa do programa da Cultura em homenagem à cantora

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

Aracy de Almeida (1914-1988) é uma das glórias nacionais. Reconhecida como a melhor cantora de samba de todos os tempos, dona de voz afinada e estilo peculiar, ela é a maior referência quando se trata de cantar Noel Rosa (1910-1937). Foi a preferida do genial sambista e tornou-se sua principal intérprete. Nos últimos anos de vida, ficou mais conhecida do grande público pelo jeito desbocado e divertido, com aquela fala carregada de gírias, que despejava na televisão como jurada de programas de auditório. Esses dois aspectos da carreira da grande cantora são lembrados no programa Mosaicos, que a TV Cultura leva ao ar amanhã, às 20 horas.Com direção de Nico Prado e narração de Rolando Boldrin, o musical exibe Aracy em imagens extraídas de outros programas da emissora, como MPB Especial (1972), Vox Populi (1979), o Especial TVE (1977) e outros. Cantando ou lembrando episódios da vida da cantora, Paulinho da Viola é uma espécie de fio condutor do programa ao lado do produtor Fernando Faro. Fica evidente sua satisfação ao ver num monitor de TV o momento em que Aracy, no MPB Especial, repete um verso de A Voz do Morto (Caetano Veloso) que fala dele: "Eu e o Paulinho da Viola, viva o Paulinho da Viola.""Aracy é uma grande lição para todos nós, era uma cantora de grande personalidade", comenta o compositor, lembrando que ela gravou sambas "de grande complexidade harmônica", tanto de Noel, como Tudo Foi Surpresa, de Valzinho, do qual lembra um trecho. Como ele, as cantoras Paula Santoro, Olivia Byington, Juliana Amaral, Cristina Buarque e Letícia Coura (com o grupo Revista do Samba) cantam clássicos do repertório de Aracy. Nas imagens de arquivo, há também depoimentos de cantoras como Elis Regina, Aurora Miranda e Elizeth Cardoso rasgando a seda para ela.Os jornalistas Tárik de Souza e Ruy Castro também tecem comentários sobre Aracy, mas o melhor mesmo sai da boca da própria cantora. "Araca", como era conhecida no metiê, lembra que começou nas escolas de samba, "aprendendo aquela malandragem do Rio de Janeiro". Teve de sair de casa muito jovem para poder cantar, porque os pais protestantes eram contra.Na parte musical, há vários clássicos de Noel, como Feitiço da Vila, O X do Problema e Onde Está a Honestidade, mas o programa também mostra como Aracy tentou ir além de Noel (embora nunca tenha perdido a identidade com ele), cantando Assis Valente, Custódio Mesquita (que a levou para a Rádio Educadora, onde conheceu Noel) e pândegas marchinhas de carnaval.Entre uma irreverência e outra, Aracy lembra da generosidade de Noel, que apostou nela quando ninguém lhe dava crédito, e conta que Ary Barroso implicava com ela por falar palavrão e ter "voz fanhosa", mas acabou lhe dando Camisa Amarela de presente. Indagada como era ter aquela voz nasalada, Aracy, que confessa nunca ter gostado de cantar, sai-se com esta: "Cada um canta por onde pode, meu filho." Típico.

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