Janete Longo|Estadão
Janete Longo|Estadão

Morto aos 66, Ivald Granato foi um artista livre que amava provocar

Ivald Granato usou todas as formas de expressão – pintura, desenho, escultura

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S.Paulo

03 Julho 2016 | 20h40

PARIS – Ao contrário de muitos colegas de sua geração, Ivald Granato foi um artista ingênuo que usou todas as formas possíveis de expressão. Pintura, performance, desenho, escultura, gravura, objetos, fotografia, até mesmo cerâmica. O conjunto inteiro de sua arte demonstrava aquela urgência, muito comum entre as crianças, de dizer: “Olhe você também o que estou vendo! Olhe o que estou vivendo!” Enquanto pessoa e artista, ele foi genuíno, inquieto e curioso. Entusiasmava-se, indagava e surpreendia-se como um menino pleno de energia. É isto que torna mais dolorosa ainda a sua perda.

Estive com o artista em várias oportunidades. Conheci o ateliê, visitei exposições, assisti às performances. Participei inclusive de Mitos Vadios, evento que chamávamos de “happening” em 1978, quando Hélio Oiticica – convidado por Granato – desceu de saltos altos de um helicóptero em pleno estacionamento da Rua Augusta. Ainda vivíamos sob a sombra do Ato Institucional nº 5, estabelecido pelo regime militar. A nossa vida continuava regulada pela censura, tínhamos restritos os direitos individuais e a liberdade de expressão. Não longe de lá, no Parque Ibirapuera, discutiam-se as questões da identidade latino-americana na primeira Bienal, que seria dedicada ao continente. Granato, ao contrário, preferia dialogar com a arte internacional.

É na pintura, entretanto, que se pode demarcar melhor a sua personalidade de artista. Esta é sempre portadora de ruídos e confusão. Cercada de extremidades nervosas, desenvolvem-se ali situações narrativas e provocadoras. Seus relatos partem de uma acuidade na captação do real e se configuram por meio de uma mixagem entre esse real e a fantasia.

Nos anos 1980, na galeria Paulo Figueiredo, Granato apresentou uma exposição que foi paradigmática de todo o seu empreendimento artístico. Chamava-se Ceisquer e era simplesmente um conjunto de dezesseis pinturas. Ceisquer constituía um neologismo que poderia ter sido tranquilamente adotado por Chacrinha quando a pergunta à plateia fosse: “Ceisquer abacaxi? Então, tomem!” O que queria evidentemente dizer que Ceisquer podia ser uma questão relativa à arte e às concessões que ela deve fazer para agradar à audiência e entrar no difícil circuito do mercado.

A pintura de Granato era, portanto, e sempre foi, assumidamente comercial. Ironicamente comercial. Irreverentemente comercial. Inteligentemente comercial. A ponto de uma tela gigante em forma de dólar paternalizar toda a exposição, que, por sua vez, era formada por trabalhos de tamanho propositadamente vendável, de temática figurativa, altamente sugestiva, humorada e “consumível” como ela é até hoje. Havia até mesmo uma tela abstrata que se intitulava Quadro no Lugar do Dólar.

Mas lá estavam também reproduções fotográficas reduzidas que, segundo o autor, “podiam ser adquiridas pelos jovens”. Tudo isso, sustentado por subprodutos dos quais faziam parte um alegre catálogo, cartão-postal e adesivos. Enfim, um calculado sucesso.

Contudo, o caráter da pintura de Ivald Granato jamais comprometeu-se. Em trinta anos ela ainda pode ser descrita por três palavras: agressiva, emocional e romântica. Uma pintura também ágil, ansiosa e heroica, que combina a sensibilidade urbana em relação aos espaços artificiais, com uma urgência apaixonada em favorecer a cor, a matéria e o traço. Apesar dos limites desta “concessão consciente” ao comercial, a sua arte sempre conseguiu transcendê-los pela enorme liberdade e capacidade criativa do artista.

Enterro será no cemitério Getsêmani

O artista plástico Ivald Granato morreu no domingo, 3, aos 66 anos, em São Paulo, onde morava há quase quatro décadas. Ele sofreu um enfarte fulminante na madrugada de domingo, enquanto dormia, após passar o dia anterior indisposto. Sua morte foi anunciada pela família em sua página no Facebook. O velório ocorreu no próprio domingo e o enterro será nesta segunda, às 11h, no cemitério Getsêmani, em São Paulo. Granato deixa a mulher Laís, três filhos e oito netos.

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