Morre Zé Vicente, grande provocador dos palcos

Dramaturgo mineiro de 62 anos foi o autor, entre muitas outras, da peça Santidade, proibida pela ditadura militar e que ficou quase 30 anos inédita

O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2024 | 00h00

Morreu no sábado em São Paulo, aos 62 anos, o dramaturgo José Vicente. Ele morreu dormindo, de parada cardíaca, e foi encontrado pela manhã na cama, em sua casa, pela irmã Maria Antônia. Seu corpo foi sepultado ontem no Morumbi.Zé Vicente, como era mais conhecido, escreveu clássicos da dramaturgia, como O Assalto e Hoje É Dia de Rock. Santidade, que teve uma remontagem em cartaz até 10 de junho com José Celso Martinez Corrêa e Marcelo Drummond, foi proibida pela ditadura em 1968, e passou quase 30 anos inédita, até ser montada por Fauzi Arap em 1997.O texto foi comparado aos melhores de Eugene O''''Neill e Tennessee Williams. ''''Era o Zé Vicente acertando as contas com Deus, com sua religiosidade maldita de ex-seminarista. E ele fazia isso de forma brilhantemente poética'''', lembra o autor, escritor e diretor Mário Bortolotto, que fez o papel de Arthur na montagem. ''''Lembro do dia que eu o conheci e fiquei tentando decifrar de onde vinha aquela explosão toda que eu tinha que dar conta num monólogo de cinco páginas no meio da peça, onde eu cuspia imprecações e poesia como uma rajada de metralhadora.''''José Vicente de Paula, mineiro de Alpinópolis, foi seminarista em Guaxupé, dos 12 aos 19 anos. Vendeu doces na rua, foi bancário e professor de História. Depois, trocou Minas por São Paulo, e formou-se em Filosofia pela USP, estreando como dramaturgo em 1969 com O Assalto.''''Revisitada após uma série de montagens, no segundo semestre de 1969, que obrigaram a crítica a rever seus critérios, a peça não perdeu nada da beleza e do impacto primitivos. Ela continua de pé com a sua intratabilidade, a aspereza de um estilo literário que se compraz nos desvãos e nas sondagens incômodas - essa violência, tão típica de hoje, que explode em rebeldia existencial, não afeiçoada a nenhuma disciplina, após a compressão de todos os condicionamentos sociais'''', escreveu Sábato Magaldi sobre O Assalto, em 1970, no Jornal da Tarde.Depois de O Assalto, vieram Os Convalescentes (montada em Paris com Gilda Grilo e Norma Bengell, com apresentação de Simone de Beauvoir), Hoje É Dia de Rock (1971, que lhe valeu o Prêmio Molière), Última Peça (1972), Ensaio Selvagem (1973), História Geral das Índias (1974). Em seguida, o autor foi viver na Europa com a intenção de não voltar mais ao Brasil. Mas voltou nos anos 80, apresentando três novas peças: Diário Íntimo, Rock''''n''''Roll e Fim de Século.Anatol Rosenfeld, escrevendo sobre a proibição de Santidade no Suplemento Literário do Estado, em 6 de abril de 1968, foi contundente e corajoso: ''''Para quem não tiver uma noção muito superficial da religião, se evidencia que a peça é expressão de uma profunda e torturada experiência religiosa, e nesse nexo mesmo, a blasfêmia tem mais significado religioso que os sinais automáticos e exteriores de uma piedade rasa que, segunda a palavra de Kierkegaard, transforma mesmo o Deus verdadeiro em ídolo, da mesma forma como o medo da verdade transforma a moral em hipocrisia.''''''''Ele é um autor eterno. Santidade foi escrita há 40 anos e pode ser considerada futurista - fala da sacralização da sexualidade, certifica o amor sexual. Sua linguagem é tão forte quanto a dos evangelizadores'''', disse José Celso Martinez Corrêa. ''''É um dos melhores autores do mundo, pode ser comparado à Jean Genet. O último texto que li escrito por ele chama-se Zé Vicente Virtuoso, cujo protagonista é ele mesmo. Achei admirável, mas muito subversivo, talvez não entendam a ironia fina que há por trás. Pretendo montar''''.''''É uma pena que certos acidentes da vida o tenham afastado prematuramente dos palcos. Ele não era autor da década de 60 ou 70 - seus textos já são clássicos do teatro brasileiro'''', disse Fauzi Arap.''''Tive a sorte de conhecer o Zé. Vai com Deus, Brother. Você tá na estrada que todos nós vamos trafegar um dia com nossos automóveis arrebentados em alguma colisão maluca com aquela que chamamos de Sra. Inevitável. Sempre vou lembrar dia que conheci Zé Vicente'''', disse Bortolotto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.