Morre Valêncio Xavier, que uniu palavra, imagem e humor

O escritor paulistano de O Mez da Grippe, que vivia em Curitiba desde 1954, tinha 75 anos e foi vítima de derrame cerebral

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Numa tese sobre a obra literária do paulistano Valêncio Xavier, que morreu ontem, aos 75 anos, em Curitiba, a autora Maria Salete Borba compara seu método de escritura à obra construída de Marcel Duchamp, em que o inventor do ready-made denuncia por meio de sua criação o "mito do ofício". Valêncio Xavier, o autor de O Mez da Grippe (1981), talvez seja mesmo o autor de uma obra construída "a posteriori", como defende a autora da tese. De qualquer forma, é um escritor que será, no futuro, mais bem avaliado do que foi até sua morte, às 11h30 de ontem, no Hospital São Lucas de Curitiba, vítima de derrame cerebral e parada respiratória. Valêncio Xavier morava desde 1954 na capital paranaense e deixa a mulher, Luci, dois filhos e dois netos. Seu corpo será cremado.Para quem ainda não conhece sua obra, a porta de entrada para essa literatura repleta de humor, mas também de sérias reflexões sobre a sociedade brasileira, é a edição revista e ampliada de O Mez da Grippe e Outras Histórias, lançada há dez anos pela Companhia das Letras, que reúne quatro livros do escritor. É o exemplo mais valenciano da "narrativa híbrida" defendida na citada tese, que destaca o caráter polifônico de sua escritura e o papel da imagem na sua construção. Valêncio foi uma espécie de correspondente tropical do alemão Sebald nesse sentido. Juntava fotografias antigas, recortes de jornais, cartões-postais e ilustrações para contar histórias como a gripe espanhola que derrubou Curitiba há 90 anos (em O Mez da Grippe) ou imagens de seu mundo particular - páginas de seu catecismo e livros pornográficos desenhados - para falar da sua iniciação amorosa e sexual em Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentindo.Assim como atraiu o leitor com imagens facilmente identificáveis e recursos gráficos - Valêncio era jornalista -, o escritor transitou por diversos gêneros (especialmente em Remembranças da Menina de Rua Morta Nua, Companhia das Letras), da autobiografia ao policial, que marcou também seu Crimes à Moda Antiga (Publifolha) com a história de assassinos frios que matam por motivos banais. Foi o testamento do escritor, que também dirigiu filmes (Caro Signore Feline) e foi diretor de televisão.

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