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Morre Ousmane Sow, primeiro artista negro a entrar na Academia de Belas Artes em Paris

Escultor de guerreiros gigantes deixou uma obra expressiva e humanista

Sheila Leirner - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2016 | 20h59

PARIS - Expoente da arte contemporânea, conhecido por suas possantes e monumentais esculturas, o senegalês Ousmane Sow morreu aos 81 anos na quinta, 1.º, deixando uma obra expressiva e humanista. O coração desse africano nascido em Dacar - o primeiro artista negro a entrar na Academia de Belas Artes em Paris no lugar do pintor Andrew Wyeth, e com uma história pessoal digna de romance - não conseguiu estar à altura da imensa vitalidade do seu dono.

A homenagem foi em 2013, no momento em que o mundo celebrava a memória de Nelson Mandela de quem Sow havia feito a estátua 4 anos antes. A luta desse artista pela liberdade, independência dos povos negros e o amor pelo corpo humano, sua cura e alcance simbólico, vinha ainda antes da época em que ele, aos 22 anos, desembarcou em Paris para viver de biscate e, em seguida, entrar numa escola de enfermaria e fisioterapia. Ainda em Dacar, Sow sofreu influência de sua família de combatentes e figuras célebres na história senegalesa, contra a presença colonial francesa.

Após uma década dedicada a tratamentos, decidiu modelar corpos escultóricos com uma mistura secreta de materiais como palha, juta e mais 20 componentes macerados em conjunto. A carreira começou a se delinear, já na Europa, em 1992, na 9.ª Documenta de Kassel; em 1995, na Bienal de Veneza e, em 1999, quando expôs esculturas na Pont des Arts sobre o Sena, em Paris, alcançando a visitação de 3 milhões de pessoas.

Meu primeiro contato com a obra de Sow foi justamente na Documenta. Seu curador Jan Hoet (1936-2014), embora criticado por sua falta de critério, tendo feito daquela exposição uma espécie de colcha de retalhos, queria simplesmente “colocar o homem ao centro, com a sua corporeidade sensual, receptiva, sofredora e oprimida por um mundo numericamente virtualizado”. “De corpo a corpo, em direção ao corpo” era o slogan poético da mostra alemã que atinava perfeitamente com o trabalho do artista africano. 

Influenciado por Leni Riefenstahl, Sow não temeu o heroísmo épico, modelando bustos e músculos de atletas que lembram os titãs do maneirismo italiano. Depois dos Nuba, ele se ligou aos Masai e aos Zulus. Numa época em que artistas e curadores “colam” à realidade social, política ou ecológica do planeta, sem jamais se dar à arte, Ousmane Sow é o exemplo do artista contemporâneo humanista cuja obra fala da realidade cotidiana passada e presente, e sobretudo da arte, evitando que os sinais do mundo de hoje se intrometam.

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