Morre o pintor Arcangelo Ianelli

Mestre da cor, ele tinha 86 anos e construiu uma carreira marcada pelo zelo, que começou em 1940

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2009 | 00h00

Após quatro meses de internação, morreu ontem, aos 86 anos, no Hospital Albert Einstein, o artista paulistano Arcangelo Ianelli. A causa da morte, ocorrida por volta das 8h30, foi a falência múltipla de órgãos, em decorrência de problemas cardiovasculares e sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há anos. Seu corpo seria velado desde as 15 horas de ontem na Pinacoteca do Estado e sepultado, às 11 horas de hoje, no Cemitério Getsemani, no Morumbi. Veja galeria de suas obrasMestre da cor, capaz de realizar proezas com o pincel que confundem e seduzem nossos sentidos, o artista desenvolveu sólida carreira, que se manteve coerente e inovadora ao longo de seis décadas e encerrou-se em grande estilo com uma bela retrospectiva em 2002, na Pinacoteca do Estado. A partir de então, apenas realizou de destaque, em 2004, mostra individual no Museu de Arte Brasileira (MAB) da Faap: Ianelli - Caminhos da Figuração.Em 2002, no dia da abertura de sua retrospectiva na Pinacoteca, Ianelli foi internado pela primeira vez. A mostra reunia seleção de 100 desenhos, pinturas e esculturas - o artista não foi à concorrida festa de abertura, nem viu o sucesso de público e crítica do evento, ganhador do prêmio de melhor retrospectiva pela Associação Paulista dos Críticos de Artes.Essa exposição enfatizou de maneira precisa, quase didática, suas diversas fases. Foram vários momentos, desde as primeiras figurações, ainda no clima da paisagem de cavalete desenvolvida pela segunda geração de modernistas paulistas, como Volpi, Bonadei e Rebolo (a quem Ianelli via como mestres e companheiros), até as abstrações líricas do final da vida ou as experiências escultóricas iniciadas há 26 anos, depois que criou um painel em relevo na Avenida Faria Lima, o que o despertou para a arte tridimensional e a possibilidade de trazer para o espaço as superposições de planos e formas que encontramos ao longo de sua produção pictórica. As técnicas e fases podem ser distintas, mas em todas as obras de Ianelli há a presença do esforço de seu autor, de alguém que se dedicou à arte com zelo que destoa da idéia romântica que se faz do artista, erroneamente visto como alguém que se deixa levar mais pelos arroubos do que pela disciplina criativa. Se fizermos um esforço de não dar muita importância a segmentações, perceberemos como é constante o esforço de Ianelli de buscar desafios. As fases não são estanques e também não se encerram bruscamente: dialogam entre si, criando um todo vibrante e coeso. São sempre Ianellis, quer realizadas na década de 40 ou concluídas recentemente. É um prazer descobrir as pinturas figurativas do artista, ocultas por décadas de experimentações geométricas e cromáticas. Sem considerá-las torna-se mais difícil apreciar as enormes telas deste novo milênio com intensidade cromática impressionante, em que tons cada vez mais densos se sucedem, criando verdadeiros campos que sugam a luminosidade e o olhar. Mas sobretudo elas também funcionam como elementos quase narrativos das primeiras duas décadas de carreira."Dizem que em arte você dá dois passos adiante e um atrás para que adquira confiança e se desenvolva no que está fazendo", afirmou o artista em sua última entrevista, concedida ao Estado às vésperas de sua internação, resumindo bem sua trajetória ao mesmo tempo segura e ousada. Ou como escreveu certa vez Sheila Leirner - referindo-se aos trabalhos expostos por ele no Museu de Arte Moderna em 1976 -, sua obra "não é expressiva em conceitos ou técnicas; ela possui, por outro lado, as qualidades do calmo percurso de um verdadeiro artista. Apresenta a síntese rara das conquistas individuais no campo histórico".Ianelli nasceu em 1922, coincidentemente a data oficial de nascimento do modernismo no País, e cedo começou a trabalhar com a pintura. Inicialmente de forma lúdica e prazerosa, como uma espécie de lazer, já que tirava seu sustento da firma de representações que possuía. Ianelli contava como ele e seus companheiros de jornada - principalmente os jovens artesãos de origem italiana, que formariam o núcleo da segunda geração modernista paulista, como Volpi, Bonadei e Mário Zanini - se esforçaram para adquirir de forma autodidata a técnica que imaginavam essencial para tornar-se um bom pintor. Treinavam o olho e a mão para o desenho e a pintura, dividindo o custo de uma modelo ou saindo para pintar ao ar livre. Segundo ele, as evoluções posteriores não foram pensadas. "Fui procurando simplificar a paisagem; quis me desligar um pouco da representação." Um momento importante de ruptura veio com o prêmio de viagem que o levou à Europa, o fez descobrir os clássicos. A geometrização começou a ganhar forma na década de 60, quando começou a transformar a paisagem em composições de quadrados e triângulos. Mas a influência dos ventos modernizantes trazidos pelas primeiras bienais de São Paulo já se faziam sentir em sua obra e na de seus amigos. "Aquilo sacudiu todo mundo; foi uma lavagem de olhos, um despertar para todos", dizia Ianelli, que ao todo figurou em nove edições da mostra. Mas a independência financeira, a capacidade de se sustentar por meio da venda de seus trabalhos veio muito depois. Ianelli conta que, certa vez, um galerista disse que conseguiria vender uma tela sua e saiu com a obra debaixo do braço. Horas depois retornou com a mesma obra e ele perguntou: "O homem desistiu?" E respondeu o marchand: "Não, o homem morreu."Uma característica interessante de Ianelli é o mistério existente em torno de sua técnica de trabalho. Ele próprio realizava suas tintas (há tempos passou a usar, cada vez com maior maestria, a têmpera) e tinha uma rotina absolutamente regular. Após duas pontes de safena passou a andar 40 minutos por dia, mas às 8h30 já estava no ateliê, onde ficava trabalhando até o anoitecer. "A técnica é um meio e não um fim. O que tem de aparecer é a cor, não a tinta", repetia ele, traduzindo em palavras o que podemos sentir com os olhos e a alma diante do lirismo de suas telas. Repercussão"Arcangelo Ianelli é um artista que começou sua carreira na década de 1940 fazendo um percurso que acompanha o trajeto da figuração para a abstração. Sua grande contribuição foi a preocupação cromática em sua séria pesquisa no abstracionismo, algo que faz parte da historiografia da arte brasileira e paulistana."ARACY AMARALHISTORIADORA E CRÍTICA "Quando comecei a pintar, no início da década de 1950, Ianelli era um artista figurativo. Nos tornamos amigos, sempre muito cúmplices. Fui acompanhando sua transformação para o abstracionismo e, nas últimas décadas, seu trabalho é de uma limpeza maravilhosa, com linda utilização de poucas cores."TOMIE OHTAKE ARTISTA"Ianelli era um exemplo ético de artista, que teve uma importância maior nos anos 60 e 70, quando amadureceu o seu trabalho. O que me chama atenção em sua pintura é seu colorido discreto. Há cor, mas ela não é alegre, não é excessiva. Ianelli inventou o jeito de fazer a matéria da cor: usava pincelada pequena com óleo seco para sua expressão."PAULO PASTA PINTOR "Ianelli era um grande artista, correto, despretensioso, digno. Conheci sua pintura nos salões paulistas dos anos 1960 e fizemos algumas exposições juntos, como na Bienal de Cuenca, no Equador, e, agora, em Seul, uma mostra chamada Mestres Latino-Americanos." ANTONIO HENRIQUE AMARALPINTOR"Ele foi o mestre de toda uma geração de pintores. Nos anos 1990 fiz duas exposições dele com telas de grandes dimensões, que pareciam compor uma sinfonia. Além de ter participado de importantes movimentos de arte, foi um pintor generoso com os colegas, um homem extraordinário."NARA ROESLER GALERISTA"Foi um bom amigo, a quem estimava muito, um artista dedicado à carreira, constante, delicado. Sua retrospectiva na Pinacoteca tinha uma atmosfera quase mística, parecia uma catedral. Acho que ele tinha consciência da transcendência de sua pintura."PETER COHNMARCHAND

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