Morre o maestro Raul de Barros, autor de Na Glória

Ele ficou conhecido por criar os bailes de gafieira no Rio, quando colocou grandes orquestras para tocar em salões

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

O trombonista Raul Machado de Barros morreu na tarde da última segunda, aos 93 anos, em decorrência de enfisema pulmonar e insuficiência renal. Autor do clássico Na Glória, ele morava em Maricá, no litoral norte do Rio, desde os anos 1980, quando passou a alternar momentos de ostracismo com aparições episódicas. O corpo do músico foi velado na Casa de Cultura da cidade. A última atuação pública ocorreu no carnaval deste ano, em Maricá. O enterro estava previsto para ser realizado ontem, no cemitério do município.Como atesta o sambista Elton Medeiros, Raul de Barros é o responsável por colocar as médias e grandes orquestras no lugar dos pequenos conjuntos que tocavam em salões. Criavam-se ali, a partir do som limpo, alegre e gingado do trombone de Raul, os bailes de gafieira. E abria-se espaço para orquestras como a Tabajara. Raul de Barros promoveu um salto de qualidade nos arranjos. Do compositor Orlando Silveira ganhou o apelido de Rei da Gafieira. Sua primeira orquestra foi criada na Rádio Nacional, nos 1950. Tendo como professores Ivo Coutinho, que tocava sax-horn, e Eugênio Zanata, que tocava trombone, Raul iniciou a carreira nos anos 1930, apresentando-se em clubes do subúrbio do Rio. Era a época de ouro do rádio. Além da Nacional, passou pela Tupi e pela Globo. Começam na mesma década excursões pelo Uruguai e Argentina. Ele gravou o primeiro disco-solo em 1948, interpretando O Pobre Vive de Teimoso e Malabarista, de Donga. Seria o primeiro de dezenas de discos, lançados nas cinco décadas seguintes. Além de Na Glória, é autor de Felicidade Vem Depois, Copacabana, Ginga do Candango, Melodia Celestial, Parabéns pra Você, Pau no Burro, Pororó, Pororó, Pra Moçada se Acabar, Rock em Samba e Voltarás.Em entrevista ao Jornal do Brasil, publicada em 2002, Raul de Barros reivindicou a co-autoria de Pra Frente Brasil - "Todos Juntos Vamos, Pra Frente Brasil, Salve a Seleção" -, grande sucesso nos anos 1970; ele teria feito a melodia, enquanto Miguel Gustavo criou a letra.Em 1955, Raul foi escolhido o melhor trombonista do País em concurso da revista O Cruzeiro. Em 1966, integrou a delegação brasileira do Festival de Arte Negra de Dacar, Senegal. Com ele foram, entre outros, Clementina de Jesus, Ataulfo Alves, Paulinho da Viola e Elton Medeiros. Foi lá na África que ele tocou com Louis Armstrong. Raul de Barros atuou com músicos fundamentais para o choro e o samba, como Pixinguinha, Radamés Gnattali, Ary Barroso, Canhoto, Meira e Dino Sete Cordas. Em 2004, ele tocou com o instrumentista Rildo Hora no Carioca da Gema, uma das mais famosas casas de samba na Lapa carioca. Ele era casado com a crooner Gilda de Barros, para quem dedicou o choro Gilda e com quem teve Raul Machado de Barros Jr., pesquisador e multiinstrumentista.

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