Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Morre o fotógrafo German Lorca, aos 98 anos

German Lorca integrou o Foto Cine Clube Bandeirante e foi pioneiro da fotografia experimental no Brasil

Simonetta Persichetti, Especial para o Estadão

08 de maio de 2021 | 14h37
Atualizado 08 de maio de 2021 | 17h26

Reconhecido como um fotógrafo da escola modernista, German Lorca (1922-2021), na verdade, sempre foi pop. Ao seu olhar atento ao cotidiano e àquilo que o cercava, nada escapava. Ele foi o fotógrafo do flagrante, do acaso, da encenação e da produção publicitária. 

German Lorca morreu neste sábado, 8, às vésperas de completar 99 anos, ainda cheio de planos, com uma trajetória fotográfica que se iniciou 74 anos atrás. Acompanhou o crescimento de São Paulo, cidade onde nasceu e que sempre adorou. Andou pelas suas ruas com seu olhar astuto, registrou suas cenas, seus personagens e também suas sombras.

Iniciou sua carreira fotográfica no fim dos anos 1940, no Foto Cine Clube Bandeirante, que ficou conhecido por trazer a modernidade para a fotografia brasileira, que até a metade dos anos 1940 permanecia presa ao pictorialismo europeu – uma fotografia ainda com forte referência a um academicismo pictórico. Foi no Foto Cine Clube Bandeirante que nomes como Thomaz Farkas, Marcel Giro e Geraldo de Barros iniciaram o experimentalismo, quebrando fronteiras e criando imagens que brincavam o tempo todo com as vanguardas europeias, com o surrealismo, com as técnicas fotográficas. 

Não foi diferente com German Lorca, que traz para a sua fotografia a contraluz, a cidade, a geometria. Em suas imagens, ele brincava com a metáfora, com as solarizações, com espelhos e com reflexos. 

Mas, para além da rua e de suas luzes, foi na publicidade que Lorca também se tornou um experimentador. Brincava com a imagem. Criava uma dúvida, em uma época em que ninguém falava em pós-produção. Mesmo assim, ele conseguia desconcertar o olhar do espectador. Brincadeiras estéticas, jogos de olhares, alusões e citações. 

Criava e se divertia. Aliás, foi sempre essa sua maior característica: o riso largo e o passo apertado, como se tivesse medo de perder algo que precisava ser registrado. 

Sua última exposição ocorreu em 2018 no Itaú Cultural, em São Paulo, com curadoria do Rubens Fernandes Junior e do José Henrique Lorca, filho do German. Foram selecionadas para a mostra 150 imagens, que tentaram dar conta da vivência imagética do fotógrafo. Um trabalho difícil, em razão da miríade de suas possibilidade criativas. (Leia a entrevista concedida por Lorca na época)

Interesse múltiplo. Se falamos da cidade, das ruas, da publicidade, também não podemos esquecer os seus retratos, seus autorretratos, além de sua expressão artística. Difícil segmentá-lo, difícil defini-lo. 

Para Lorca tudo o que se apresentava frente ao seu olhar merecia ser fotografado, merecia ser registrado. Quase um século de fotografia que nos narram sua grande vivência como um cronista dos costumes e dos comportamentos.

Por ironia do destino, German Lorca se foi no dia em que o MoMa de Nova York, cidade que ele fotografou nos anos 1960 e 1980, abriu a mostra Brazilian Modernist Photography and the Foto-Cine Clube Bandeirante 1946-1964, da qual ele é um dos autores. Sua vida e seu olhar permanecem presentes nas suas fotografias. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.