Morre o compositor Zé Rodrix

Autor de Casa no Campo tinha 61 anos e passou mal na noite de quinta-feira

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Artista de talento múltiplo e inquieto, Zé Rodrix morreu na noite de quinta-feira, aos 61 anos. Mais conhecido como compositor, cantor e músico, ele também atuava como professor, escritor e cozinheiro, além de criar jingles publicitários, entre outras atividades. Segundo uma de suas filhas, a também compositora e cantora Bárbara Rodrix, ele estava bem de saúde. Mas na noite de quinta começou a passar mal e já chegou morto ao Hospital das Clínicas. Até o horário de fechamento deste caderno, a causa da morte não tinha sido esclarecida.   Ouça Casa no CampoRodrix, que entre outras coisas também foi ator e hippie, acabou se tornando um daqueles tipos que ironizou na rumba Hora Extra, de 1978, uma das parcerias com o escritor Paulo Coelho: trabalhava muito. Nos últimos anos cuidou da parte musical da TV e da Rádio Cultura e da TV Rá Tim Bum. Trabalhava com a editora A Girafa, era curador do Clube Cauiubi de Compositores, fazia palestras para estudantes de publicidade, shows-solo e estava de volta à estrada com o antológico Sá, Rodrix & Guarabyra. Inventores do que ficou conhecido como rock rural, eles fizeram uma concorrida e marcante apresentação na Virada Cultural de 2008, tocando na íntegra o primeiro de seus dois álbuns, Passado, Presente & Futuro (1972).Primeira Canção da Estrada, Ama Teu Vizinho (ambas de Sá e Rodrix) e Hoje Ainda É Dia de Rock (que Rodrix compôs e cantava sozinho no LP) foram marcos daquele período e traduzia bem o espírito libertário, estradeiro, paz e amor do rock rural, em que a guitarra dialogava com a viola e teclados. Já em Terra (1973), todas as músicas foram compostas em trio, como destaque para Os Anos 60, Blue Riviera e O Pó da Estrada.Em 1972, Rodrix tinha emplacado um de seus maiores sucessos, a canção Casa no Campo (com Tavito), gravada por Elis Regina (1945-1982). Depois de Terra, partiu para carreira-solo, mantendo em algumas canções o espírito do trio, como em Cadilac 52, Casa de Caracol, Circuito Universitário (com Maxine) e Chamada Geral (com Livi), que dizia: "A Rita Lee me ligou/ Pra que eu pedisse ao Raul/ Que fosse até Salvador/ Chamar o Gilberto Gil/ Porque ela está preocupada com rock?n?roll do Brasil." Era uma espécie de Festa de Arromba saudando os ícones do rock brasileiro tropicalista.Rodrix também passou a explorar sua faceta mais latino-americana, como nas rumbas Hora Extra e Quando Será? e no mambo Soy Latino Americano (outra parceria com Livi), letras bem-humoradas. Esse que foi seu maior hit-solo no período era um louvor ao ócio, à boemia, à descontração: "Não acordo muito cedo/ Mas não fico preocupado/ Muita gente me censura/ E acha que eu estou errado/ Deus ajuda quem madruga/ Mas dormir não é pecado/ O apressado come cru/ E eu como mais descansado/ Soy latino americano e nunca me engano." Até parece que foi feita por um baiano.Em 1978, quando já tinha gravado até bolero, declarou que seus dois primeiros discos foram uma espécie de "espasmos de um cego no meio do tiroteio, não sabia o que queria". Mas nas letras de teor escapista de algumas canções, ele dizia que queria somente livros, discos e amigos numa Casa no Campo, ou viver com uma "pessoinha legal" numa Ilha Deserta, ou desfrutar os serenos momentos de felicidade proporcionados pelas Coisas Pequenas.Antes de formar o trio com Sá & Guarabyra, Rodrix, nascido no Rio, começou a carreira musical com o grupo Momento Quatro, que acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha na célebre performance de Ponteio, no Festival da Record de 1967. Multi-instrumentista - tocava piano, flauta, bateria, acordeom, saxofone e trompete -, foi integrante do Som Imaginário, banda de rock progressivo que acompanhou Milton Nascimento e Gal Costa no início dos anos 1970 e tinha Naná Vasconcelos, Luiz Alves, Tavito e membros do Clube da Esquina, como Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas e Robertinho Silva.Rodrix também passou pela banda paulista de rock Joelho de Porco, assinou diversas trilhas para teatro, cinema (a primeira foi Como Era Gostoso o Meu Francês) e novelas (Corrida do Ouro e O Espigão) e trabalhou na adaptação do musical Rock Horror Show. Recentemente relançou a Trilogia do Templo, um calhamaço de milhares de páginas sobre a maçonaria, da qual se aproximou no início desta década. Não foi pouca coisa o que o homem fez.

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