Morre no Rio a ''''víbora'''' Joel Silveira

Famoso pelo sarcasmo, repórter cobriu guerra e era famoso pelo texto literário

Roberta Pennafort e Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2016 | 00h00

Joel Silveira, um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro e premiadíssimo autor de mais de 30 livros, morreu ontem de madrugada, no Rio, aos 88 anos, ''''de causas naturais'''', de acordo com a família. Sergipano radicado no Rio havia exatamente sete décadas, ele estava dormindo em seu apartamento em Copacabana, onde morava com a mulher, Iracema. Segundo a filha Elizabeth, ele sofria de câncer de próstata, mas não quis tratar a doença. ''''Meu pai cansou de viver, dizia que preferia morrer e sempre pedia que fosse em casa.'''' A saúde estava bem debilitada desde o início do ano - Silveira já não andava, só quando ajudado pelas duas acompanhantes que o assistiam diariamente, mas se mantinha lúcido. O corpo será cremado hoje à tarde, no Crematório do Caju, no Rio, e não haverá velório, em respeito ao desejo do escritor. Ultimamente, Silveira demonstrava não encontrar mais forças para seguir adiante, relembrou a filha. ''''Cada dia que eu vinha vê-lo, percebia que estava se apagando. Ontem (anteontem), tive a nítida sensação de que ele estava indo embora'''', disse. Joel Silveira deixou dois filhos, dois netos e dois bisnetos. Um dos principais repórteres brasileiros, Silveira deixa uma ficha extensa em relatos jornalísticos com contornos literários. Segundo ele, o estilo foi moldado por uma necessidade. ''''Senti que precisava romancear o texto para me diferenciar do que era escrito na imprensa dos anos 30 e 40'''', contava ele, que acreditava na eficácia de uma boa pesquisa para a produção de uma reportagem confiável. Silveira tornou-se uma estrela do jornalismo nacional nos anos 40 - na reportagem Grã-Finos em São Paulo, publicada no semanário Diretrizes, ele apresentava sua impressão do high-society paulistano em uma narrativa irônica e debochada. Publicada em 1943, a matéria deliciou inclusive o presidente ditador Getúlio Vargas e é a porta de entrada do livro A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista (Companhia das Letras). ''''Foi nessa época que ganhei o apelido de víbora, dado pelo Assis Chateaubriand'''', contou ao Estado, em 2003, quando o livro foi lançado. Silveira, aliás, logo foi contratado pelo dono dos Diários Associados. A mudança de empresa não foi planejada, mas provocada justamente por um texto seu - ao destacar como título uma frase dita por Monteiro Lobato durante uma entrevista (''''O governo deve sair do povo como a fumaça sai da fogueira''''), Silveira despertou, dessa vez, a ira de Getúlio, que mandou fechar Diretrizes. ''''Não me sobrou alternativa senão aceitar o chamado do Chatô'''', comentou ele, que explicava o sarcasmo de seus textos daquela época como uma tentativa de escapar da censura imposta pelo Estado Novo. Sua primeira grande missão foi cobrir a 2ª Guerra Mundial e, antes de embarcar para a Itália como pracinha da Força Expedicionária Brasileira, Silveira ouviu a célebre frase do patrão: ''''O senhor vai para a guerra, mas não me morra, seu Silveira! Repórter é para mandar notícia, não é para morrer. Se o senhor morrer, eu o demito.'''' Na guerra, com a patente de capitão, Joel Silveira aproximou-se dos pracinhas para conseguir mais notícias. ''''Ganhei também a simpatia dos americanos que, curiosamente, conheciam e gostavam da Diretrizes por conta dos perfis que fizemos com Truman e Roosevelt'''', explicava ele, que mais de uma vez chegou ao campo de batalhas. ''''Certo dia, o mais terrível deles, vi a morte de um sargento brasileiro, metralhado pelos alemães. Só conseguimos resgatar seu corpo quatro dias depois.'''' Como tinha franquia telegráfica pela amizade com os soldados, Silveira enviou diversos relatos. ''''Enfrentei os momentos pesados e não fiquei em Roma, como os correspondentes mais velhos, como Ernest Hemingway.'''' Os relatos estão em O Inverno na Guerra, editado pela Objetiva. Dez meses depois, o repórter retornou e foi recrutado para outra guerra: Chateaubriand comprou briga com o conde Francisco Matarazzo Jr., que pediu de volta o prédio que os Associados ocupavam no Viaduto do Chá. O troco veio com a cobertura do casamento da filha do milionário, Filly, a cargo de Silveira, que narrou tanto o faustoso matrimônio como o enlace de um casal de operários, trabalhadores justamente das indústrias Matarazzo. Em 2001, indignado com a candidatura de Zélia Gattai à vaga do marido, Jorge Amado, na Academia Brasileira de Letras, não apenas se lançou candidato como a criticou pesadamente. Para ele, Zélia era ''''uma escritora medíocre'''', feita à custa do marido, e este só vendeu milhões de livros por suas ligações com o Partido Comunista. Na disputa, porém, Zélia teve 32 votos contra 4 de Silveira, em uma das mais rápidas eleições da ABL: durou apenas 20 minutos.

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