Morre Mário Carneiro, poeta intimista da imagem

Sua parceria com Saraceni, Joaquim Pedro, Glauber, Domingos de Oliveira e Joel Pizzini faz parte da história

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2004 | 00h00

Ele foi um grande diretor de fotografia, um poeta da luz, mas todos esses superlativos são poucos para expressar a importância de Mário Carneiro, que morreu domingo à noite, de câncer, no Rio. Tinha 77 anos. Filho de diplomata - seu pai, Paulo Carneiro, foi embaixador do Brasil na ONU -, Mário foi o que se chama de artista multimídia. Arquiteto, poeta, gravador, pintor, fotógrafo e diretor, porque além das imagens que assinou em clássicos que pertencem à história do cinema brasileiro, ele foi também diretor de curtas e do longa Gordos e Magros. No filme de 1976, interpretado por Carlos Kroeber, Tônia Carrero, Nelson Xavier e Maria Sílvia, entram em confronto dois Brasis - o da opulência dos ricos, que são os gordos, e o miséria dos pobres, os magros.Até por haver convivido com o pai no estrangeiro, Mário Carneiro fez seu aprendizado na Cinemateca Francesa, assistindo a obras de grandes diretores que muito o impressionaram. De volta ao Brasil, viu o filme cult de Mário Peixoto, Limite, e a descoberta da fotografia de Edgar Brasil fortaleceu nele o desejo de se tornar cineasta. Começou assinando pequenos filmes amadores nos anos 50. Em 1958, ligado a Paulo César Saraceni, foi fotógrafo, câmera, montador, mixador e co-diretor do curta Arraial do Cabo, considerado um dos marcos definidores do Cinema Novo. A parceria com Saraceni prosseguiu em Porto das Caixas, Capitu, A Casa Assassinada, Natal da Portela e O Viajante.Os críticos até hoje consideram a fotografia de Porto das Caixas um dos marcos da estética da fome, que não era a luz do sertão nos filmes de Glauber Rocha. Há muito mais sombras em Porto das Caixas e a captação da luz natural da cidadezinha interiorana em que vive essa mulher oprimida no casamento - e que vai matar o marido a golpes de machado - revela-se em perfeita sintonia com os aspectos psicológicos da trama. Não apenas no seu trabalho com Saraceni, mas também na parceria com Joaquim Pedro de Andrade - em Couro de Gato e O Padre e a Moça - e Domingos de Oliveira - Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro -, Carneiro impõe um estilo, uma maneira pessoal de fotografar.Ele vira o mestre intimista da fotografia no cinema brasileiro, e um grande artista do preto-e-branco. Com Saraceni, Carneiro descobre a cor, mas ela nunca é carnavalizada em A Casa Assassinada e O Viajante, nem em Natal da Portela, cujo personagem vive intensamente o carnaval. Da experiência visual de Natal da Portela, com a interpretação de Milton Gonçalves, o que o espectador retém é a forma como Saraceni e Carneiro captam as cores da escola de samba, a azul e branco. No mesmo ano de Gordos e Magros, o grande fotógrafo, atendendo a um chamado de Glauber Rocha, invade, de câmera na mão, o enterro do pintor Di Cavalcanti. Dali surgiu um curta mítico, vencedor da Palma de Ouro da categoria no Festival de Cannes de 1977, mas Di de Glauber, considerado irreverente pela família do morto, sofre até hoje um embargo que impede sua exibição. É um dos filmes de Glauber que ficam.Mário Carneiro dirigiu vários documentários, inclusive um sobre Iberê Camargo (Pintura Pintura), em 1983. Mais recentemente, fotografou os filmes de Joel Pizzini Enigma de Um Dia e 500 Almas. O jovem Pizzini sempre teve por Mário o respeito que se deve a um mestre. Chamava-o de ''''poeta da imagem''''. Mário Carneiro foi sepultado ontem à tarde no cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio.

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