Morre Harold Pinter, artífice da palavra

Dramaturgo britânico, que sempre defendeu abertamente os direitos civis, estava com 78 anos e sofria de câncer no fígado

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Pela sua obra, descobre-se o precipício que há por trás do balbuciar cotidiano. Seus textos entram nos espaços fechados da opressão - foi por essas poucas palavras que a Academia Sueca justificou a escolha do dramaturgo britânico Harold Pinter como ganhador do Nobel de literatura de 2005, decisão que então surpreendeu parte do mundo acadêmico. Afinal, aqueles que acreditam no poder da palavra aplaudiram de pé a decisão. Adoentado, Pinter não foi receber o prêmio. E, na noite de quarta-feira, ele morreu, aos 78 anos, em decorrência de um câncer de fígado diagnosticado em 2002.A notícia foi divulgada ontem, pela sua segunda mulher, a escritora Antonia Fraser. "Ele foi uma grande pessoa e foi um privilégio viver com ele durante 33 anos. Nunca será esquecido", afirmou Antonia em uma breve declaração divulgada pelo jornal The Guardian em seu site. A doença já havia impedido o dramaturgo de ir à posse como doutor "honoris causa" na Central School of Speech and Drama de Londres, neste mês.Um dos raros autores atuais que mantinha um declarado comprometimento político, Pinter dedicou-se nos últimos anos a disparar ácidas críticas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor da administração americana de George W. Bush. Ele chegou a escrever que o então primeiro-ministro britânico Tony Blair era um "criminoso de guerra" e que os Estados Unidos são um país "dirigido por um bando de delinqüentes, seguidores de nazi-fascistas". Irrequieto quando o assunto era direitos humanos, ele se reerguia da fraqueza provocada pela doença, como em 2007, quando se juntou aos mais de 9.200 intelectuais do mundo inteiro que assinaram uma declaração exigindo do governo americano o respeito à soberania de Cuba.Atitudes condizentes com sua trajetória - Pinter foi um dos mais destacados representantes da chamada geração Angry Young Men (Jovens Irados), na qual se enquadravam também John Osborne e Arnold Wesker, autores cuja obra sempre foi marcada pela preocupação com a relação de poder entre o verdugo e a vítima, o torturador e o torturado, o senhor e seu escravo.E, como arma, sempre utilizou a palavra, elegendo o teatro como sua principal trincheira. Nascido em 10 de outubro de 1930, em Londres, Pinter estudou no Real Academia de Arte Dramática. Em 1949, negou-se a prestar o serviço militar. Ao longo de toda sua carreira manteve uma postura de compromisso a favor dos direitos humanos e contra a guerra, que se tornou notável a partir do golpe de Estado que em 1973 derrubou Salvador Allende no Chile. Algumas vezes, suas posturas políticas geraram polêmicas, como quando se uniu ao Comitê de Defesa de Slobodan Milosevic após a intervenção militar da Otan em Kosovo. Seu primeiro trabalho profissional foi na BBC, chamado Focus on Football Polls, enquanto a primeira obra teatral, O Quarto, foi escrita em apenas quatro dias de 1957, quando ainda atuava em teatros ingleses. Ali, já estão presentes alguns dos elementos básicos de sua estética: a ameaça, enquanto impulso da ação cênica, e o quarto, enquanto palco, onde o teatro intimista burguês sofre uma fulminante invasão. A peça está em cartaz em São Paulo (veja ao lado).Pinter pode ser considerado o precursor da geração teatral chamada na Inglaterra de "Renascentista do Teatro". Suas obras foram traduzidas e representadas em vários países. Entre sua ampla produção teatral, destacam-se The Birthday Party (1957) e O Zelador (1959), um de seus maiores sucessos - no Brasil, foi montado por Selton Melo, que ficou quase cinco anos em cartaz. Também se destacam The Dwarfs (1963), The Collection (1962), The Lover (1963), A Volta ao Lar (1965), Silence (1969), Old Times (1971) e Landscape (1969).Trabalhou também como ator e escreveu para o cinema, mesmo considerando Hollywood um maldito lugar extraordinário - foi roteirista de Um Jogo de Vida e Morte, refilmagem de Trama Diabólica, dirigido por Kenneth Branagh.Em 2002, ele revelou que lutava contra um câncer e, em 2005, anunciou que estava deixando sua carreira de escritor teatral para concentrar suas energias na política e, eventualmente, na poesia. "Escrevi 29 peças e considero isso suficiente", disse.

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