Luigi Ghirri/CCBB
Luigi Ghirri/CCBB

Morandi ganha exposição ambiciosa no CCBB

Mostra será aberta no dia 22 com 34 obras do pintor italiano, que esteve em várias bienais de São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2021 | 05h00

O pintor Giorgio Morandi morreu justamente no dia em que a Bienal de Veneza, em 1964, abriu suas portas para a arte pop norte-americana, então já agregando nomes como Warhol, Lichtenstein e Rauschenberg. Isso mereceu um comentário de seu grande amigo e historiador de arte Roberto Longhi (1890-1970), que, ao falar de sua morte num programa televisivo, comentou que era simbólica essa coincidência. Contra o estardalhaço e a autopromoção da pop americana, Morandi oferecia como antídoto o silêncio e um convite à contemplação, tudo o que o mundo passou a ignorar com a ascensão da cultura pop. Quem lembra Longhi é o curador Gianfranco Maraniello, ex-diretor do Museu Morandi, em Bolonha, instituição que emprestou a maioria das obras da exposição O Legado de Morandi, que será aberta no dia 22, no Centro Cultural Banco do Brasil.

“Longhi intuiu que a arte pop, na Bienal de Veneza de 1964, anunciava um nova era e que a morte de Morandi significava o fim de um fazer ético, de um olhar comprometido com a arte e sua história”, comenta Maraniello, por videoconferência, da Itália. De fato, na mencionada entrevista de Longhi, ele afirmou que uma “nêmesis caprichosa fez coincidir a morte de Morandi com a ascensão da arte pop” para que a estatura do pintor italiano crescesse ainda mais nos anos seguintes.

Isso fica bastante nítido na exposição do CCBB, que reúne 34 obras suas e 23 de artistas devedores do legado de Morandi. Maraniello, curador da mostra ao lado de Alberto Salvadori, assim justifica a inclusão de nomes como o alemão Josef Albers (1888-1976), o australiano Lawrence Carroll (1954-2019), o italiano Luigi Ghirri (1943-1992), o norte-americano Wayne Thiebaud (1920), o italiano Franco Vimercati (1940-2001) e a inglesa Rachel Whiteread (1963). Nem todos reverentes ao mestre, evoque-se. É o caso do americano Thiebaud, estreitamente ligado ao movimento pop, que, cartunista de formação, resolveu colocar um pouco de humor na mistura morandiana de objetos do cotidiano. Os curadores selecionaram dele uma tela e desenhos que fazem uma paródia do pintor italiano, substituindo um conhecido vaso de flores de Morandi por uma taça de sundae americana.

Longhi estava certo. Tudo virou produto depois da morte de Morandi. Thiebaud e seus sorvetes, Warhol e suas celebridades, enfim, os exemplos são inúmeros. E o Museu Morandi, que recebeu Thiebaud como doação, ainda teve de pagar as taxas alfandegárias e os impostos, conta, rindo, o curador Maraniello, gastando todas as suas economias.

Há, claro, releituras respeitosas e fiéis ao universo particular de Morandi, feito do culto a objetos banais que lhe eram caros – comprados de segunda mão – e paisagens de sua terra natal. No primeiro caso, Rachel Whiteread decompõe o franciscano ateliê de Morandi, que pode ser visto no térreo nas fotos gigantescas de Luigi Ghirri. Já Lawrence Carroll é representado por belas fotos de paisagens que emulam as da Via Fondazza (casa da família Morandi), em especial as feitas nos anos 1950 pelo italiano.

Evidente que as paisagens do pintor são, como observou Longhi, frutos de uma obsessão proustiana em busca da pureza (da pintura) perdida. Já os objetos, segundo o historiador, refletem a “lentidão intencional de seu proceder e o afeto que tinha por eles”. São garrafas, caixas, vasinhos e lamparinas enfileirados com a sensibilidade de um pintor versado em história da arte, cuja lista de preferidos incluía Giotto, Masaccio (exaustivamente estudados por ele), Bellini, Ticiano, Chardin, Corot e, principalmente, Cézanne.

A mostra do CCBB traz uma pintura de Morandi premiada na Bienal de São Paulo em 1957, onde foi contemplado com uma sala especial. Nela se revela não a busca de um estilo, mas de um elemento essencial que conduza o espectador a um estado de identificação com a experiência existencial do pintor.

Essa chave para o mundo particular de Morandi, no qual o espaço e a superfície interagem, é dada desde os primeiros trabalhos, dos anos 1910, marcados pela contemplação de Cézanne pelo olhar de Soffici, o toscano que lhe chamou a atenção para as naturezas-mortas do pintor (assim como Chardin e Corot). Algumas naturezas-mortas desse artífice – tanto na mostra do CCCB como na Bienal de São Paulo, que expõe seis telas de Morandi – revelam a afinidade eletiva do italiano com a arte do pós-impressionista francês.

Morandi pintou algo em torno de 1.000 telas, atravessando meio século da mais vertiginosa escalada das vanguardas internacionais – sem se deixar seduzir por nenhuma delas (os metafísicos foram exceção) e, ao mesmo tempo, aproveitando uma e outra lição dessas experiências (como professor, tudo lhe interessava, mas sua porta era estreita). Em 1943, durante a guerra, Morandi se refugiou na pequena província de Grizzana, na Emilia-Romagna, onde passou um ano pintando paisagens da região (algumas delas, na mostra do CCBB).

Mas, é claro, são as naturezas-mortas que dominam a exposição. Morandi incorpora o conselho de Soffici que, ao falar de Cézanne, chama sua atenção para o jeito solene com que o francês arranjava os objetos sobre a mesa. Disso dependia uma disposição para ver não a aparência externa dos jarros ou lamparinas, mas a intenção do pintor. Ao contrário dos cubistas, ele não precisou decompor objetos para chegar à forma original. Em Morandi, o silêncio das coisas cumpre essa função.

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