Monteiro Lobato volta a atrair o público

Após 40 anos, obra do escritor começa a ser remodelada e os três primeiros títulos já são os mais vendidos da Globo

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2022 | 00h00

Para quem só conhece a turma do Sítio do Picapau Amarelo pela TV, é uma notícia e tanto: depois de 40 anos parada no tempo, a obra de Monteiro Lobato está ao alcance das novas gerações - atualizada e colorida. Lançamento da Editora Globo na bienal, os três primeiros títulos que passaram pelo processo de remodelação, Reinações de Narizinho (em dois volumes), Viagem ao Céu e Dom Quixote das Criança (quadrinizada) são os campeões de vendas do estande. Até quinta-feira, a saída era de 4 mil exemplares. A editora espera que amanhã a marca chegue a 5 ou 6 mil. O autor já é um dos mais vendidos da feira.A obra estava com a Brasiliense desde 1945 (três anos antes da morte de Lobato), quando foi firmado um contrato vitalício. Da década de 60 para cá, não passou por correções ortográficas ou revisões. As atuais edições, com tiragem inicial de 20 mil exemplares cada título, trazem o conteúdo do texto de Lobato intacto. Na apresentação, são mais atraentes aos olhos dos pequenos, acostumados a estímulos visuais muito mais vibrantes do que os meninos e meninas do século passado.As capas são coloridíssimas e as ilustrações, de Paulo Borges, caprichadas. No estande, têm lugar de destaque e vêm capturando o olhar não só das crianças (curiosamente, somente uma minoria reconhece o Pedrinho, a Narizinho e a Emília da TV), mas também de pais e avós, leitores na infância do mais popular autor infanto-juvenil da literatura brasileira de todos os tempos.''''Os adultos mostram para as crianças e contam que leram quando eram pequenos'''', disse a vendedora Cinthya Barbosa. A marca dos milhares de livros vendidos é ainda mais surpreendente pelo fato de não ter havido divulgação prévia: as pessoas chegam ao estande, descobrem a novidade e levam na hora. Levando-se em consideração que as vendas começaram no sábado passado, são quase 500 exemplares por dia.Encantado diante da estante repleta de Lobato, César Vinicius Ferreira, de 11 anos, contou que achou a edição mais chamativa do que a que tem em casa. ''''Já li quase tudo e agora quero comprar o Dom Quixote. No livro é bem mais legal do que na TV porque dá para ler e voltar e ler de novo. Na TV, passou, passou.'''' Outras crianças disseram que já tiveram contato com as personagens do Sítio na escola (Lobato ainda é muito adotado em todo o País), mas nunca pararam para ler uma história inteira.Lúcia Machado, diretora da unidade de negócios infantis da Globo, explicou que os livros são o resultado de um trabalho de dois anos. A editora sonhava em reeditar Lobato, mas tinha dois desafios a superar: convencer a família a transferir os direitos de publicação e adaptá-lo de forma respeitosa, mantendo seu espírito.Os estudos começaram quando a pendenga judicial (iniciada na década de 90) estava longe de terminar. Em outras palavras: foi um tiro no escuro. ''''Fomos fazendo e mostrando para os herdeiros, que adoraram'''', conta Lúcia. ''''Não ganhamos a obra e sim o conceito de Lobato. Queremos levantar a bandeira da brasilidade, da criança'''', disse Lúcia.O contrato com a Brasiliense era vitalício. A luta na Justiça culminou com um acordo formal e, em seguida, os direitos foram passados à Globo. Até o fim do ano que vem, chegam às livrarias mais 52 títulos. Na bienal, além dos livros, também estão à venda almanaques e outros produtos baseados na turma do Sítio. Para os adultos, outro título dessa nova safra, Urupês (de 1918), em que Lobato apresenta o célebre personagem Jeca Tatu.

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