Monstros S.A.

Gonçalo Jr. reúne na sua Enciclopédia as monstruosidades criadas pela literatura, cinema, TV e HQs de vários países e não esquece da Cuca, de Monteiro Lobato, para defender nossas cores

Geraldo Galvão Ferraz, O Estadao de S.Paulo

13 Agosto 2008 | 00h00

O escuro é a mãe dos monstros e o desconhecido, o seu pai. Basta olhar, à noite, no quarto onde a luz foi apagada, aquela forma estranha embaixo da cama. Ou aquelas luzinhas vermelhas que espreitam pela abertura da porta do guarda-roupa. Sigmund Freud, que andou remexendo na caixa onde jazem as bagunças da mente humana, já sabia disso, conforme cita Gonçalo Jr. em sua Enciclopédia dos Monstros, um livro em que, como a célebre Pandora, solta as monstruosidades criadas pela literatura, cinema, TV, quadrinhos e até mesmo reserva páginas para monstros reais. Na introdução, Gonçalo Jr. fala de alguns monstros de nosso cotidiano recente, revelados pelas páginas policiais dos jornais e, por extensão, de ditadores genocidas que não faltam por aí. Mas apenas para mostrar que os monstros também estão entre nós, no dia-a-dia e eles podem assumir a forma de um sujeito que vai com a família comer uma pizza ou de um vizinho que passeia sempre com seu cachorrinho peludo pelas ruas do condomínio. Ele não precisa assumir a forma de um zumbi sedento de sangue ou de um maluco de jaleco branco emporcalhado por restos de cérebros. Situado numa coleção de capas berrantes que abriga "enciclopédias" ao gosto pop, ou seja, muitas ilustrações e pouca informação sobre as décadas passadas ou fenômenos como o rock, o livro de Gonçalo Jr. não faz feio e é uma delícia para os fãs . Fruto de um evidente trabalho hercúleo ou hulkiano de pesquisa, abrange praticamente toda e qualquer espécie de monstro que andou pela Terra (ou pelo espaço). Não é um livro para especialistas, pois tem lacunas, pouca análise sobre seus temas, alguns errinhos que uma revisão para nova edição podem liquidar. Mas as virtudes desse volume, que traz em cada página a marca de uma paixão do autor pelo tema, surgem do meio das águas, como o Monstro do Pântano: a investigação sobre monstros dos quadrinhos - o terreno de predileção do autor - é bastante completa, dentro dos limites de uma obra desse tipo, e os capítulos sobre monstros dos quadrinhos brasileiros é, simplesmente, uma excelente mostra de um material nunca dantes coletado. Se a área de monstros históricos da vida real merece apenas um breve apanhado, os bicharocos e heróis das séries japonesas fazem com que lembremos com uma nostalgia divertida de seres como Jiraya ou Ultraman. De repente, o livro passeia com certa ligeireza por destaques como os monstros criados por Stephen King e Edgar Allan Poe. É verdade que, por exemplo, monstros e afins literários demandariam um livro específico, tal sua abundância. Gonçalo Jr. faz um censo razoável, saindo do espectro (sem trocadilho) anglo-saxão com contribuições francesas, japonesas e latino-americanas. A área cinematográfica é bem coberta, com destaque para os usuais suspeitos como Drácula, o Lobisomem, a Múmia, chegando aos personagens infernais como Jason, o Brinquedo Assassino, Alien, o Predador e os serial killers de séries adolescentes. A Cuca, o Chupa-Cabra, o boom de histórias brasileiras de vampiros (geralmente ruins, mas de boa vendagem) de autores geralmente emergentes de blogs, têm interessantes participações e defendem nossas cores pela primeira vez na olimpíada mundial dos monstros. É um trabalho pioneiro da Enciclopédia que tem dois defeitos editoriais que merecem, pelo bem dos leitores, ser sanados: a má reprodução de muitas das imagens em preto-e-branco, que ocultam os monstros numa penumbra (a não ser que isso seja intencional) e a falta de um índice onomástico. Sem dúvida, uma folheada pelas páginas de um livro como a Enciclopédia dos Monstros é sempre divertida e suscita descobertas. Mas para quem deseja encontrar alguma referência específica, torna-se difícil a busca, através de tantos tentáculos e caninos afiados.

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