Mono vira marco histórico da cena

Performance-instalação, espetáculo não só abandona o formato convencional, como sugere novo jeito de pensar a dança

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2008 | 00h00

Uma única caixa de som amplificando o som da respiração, um único refletor e 31 bonecas de plástico. É nesse espaço que Marcelo Evelin investiga modos de nos fazer pensar sobre a diferença entre o corpo que ambiciona ser/estar em cena e o corpo que se dedica a fazer/mostrar algo. Sua produção mais recente chama-se Mono e estreou no Itaú Cultural, fechando o evento Coletivo Corpo Autônomo. Com ela, passa a questionar a compreensão (que é hegemônica ainda) de que um espetáculo de dança é aquele que só coleciona tarefas realizadas com passos de dança (e quantas mais, melhor).Mono sinaliza uma mudança na sua rota de coreógrafo. Não representa somente o abandono do formato convencional de espetáculo, mas de todo um jeito de pensar a dança. A natureza de suas novas inquietações é que trouxe a necessidade de elas serem apresentadas como uma performance-instalação que pode ser mostrada em formatos variados.Diferenciando-se da versão estreada em Amsterdã, na Holanda, há cerca de duas semanas, somente com Marcelo, a que foi apresentada em São Paulo conta com mais dois solistas: Cipó Alvarenga e Jacob Alves. Cada um deles ocupa um espaço só seu, e, por serem três espaços distintos, se propõem como um percurso. Infelizmente, na montagem paulistana, o ponto de partida desse percurso estava imposto, pois oferecia somente uma via de entrada/saída. Como a percepção constrói as combinações que faz, quando ela é conduzida, a amplitude das suas possibilidades articulatórias se reduz.No caso, a entrada se fazia pelo espaço de Jacob Alves. Um corpo cuja nudez fica vestida pela oleosidade da banha espalhada sobre a placa de metal na qual se deita. Totalmente untado, a princípio parece lutar para se erguer e, nesse embate permanente, emprega todas as suas forças. Ao longo do tempo, em uma espécie de processo de adaptabilidade, vai assumindo esse estado como uma condição e, então, o cansaço faz dele um estado a ser explorado e não um estado do qual escapar. Os movimentos do corpo transmitem calor para a placa que, então, o esquenta mais ainda. O cheiro da banha inunda o ambiente, erguendo-se como uma quarta parede que, de início, afasta os observadores para a condição de voyeurs. Curiosamente, à medida que o olfato se adapta, o desconforto olfativo se desloca e passa a ser o desconforto de consumir o esforço do outro como entretenimento com toda a carga política que uma situação dessas carrega.A brancura do corpo de Cipó Alvarenga fica ainda mais branca debaixo da luz negra que mapeia o seu pedaço. Dependendo do ângulo em que o público se posta, consegue acompanhar uma curiosa construção de zonas de sombra no seu corpo, que o transformam em combinatórias de pedaços de carne clara e de carne escura.Como Jacob, Cipó também tem a gravidade como partner, mas seu assunto parece ser a criação da distância necessária para que o corpo, sem buscar se pôr de pé, se separe do chão. Com as maneiras que encontrou para se manter suspenso, que guardam uma memória das manobras típicas da cultura hip-hop, seu corpo monta séries para uma outra linha do horizonte. São os seus braços que alavancam os movimentos de suspensão, realizando o que os de Jacob não conseguem, pois seu corpo não vence o peso que o puxa para o chão.No espaço de Marcelo, o foco não está mais no corpo do intérprete, pois passou para as relações que esse corpo estabelece com as bonecas. As arquiteturas que vai fazendo com as 31 bonecas redesenham o espaço, o seu corpo, o delas e a relação entre eles. Apesar da forte conotação que as bonecas trazem do mundo infantil, da sexualidade, e da mímese dos comportamentos humanos, parece que elas lá estão para organizar uma paisagem plana, de modo que cada qual nela projete o seu mundo simbólico. É Marcelo quem atribui mobilidade às bonecas e, à medida que as junta ou separa, propõe situações para que seu próprio corpo se coloque como o delas (ou o delas como o seu?), como se as bonecas o acionassem e ele, então, obedecesse. Um jogo de quem-comanda-quem.A parte de Marcelo Evelin de Mono contou com o olhar exterior de Jelichje Reijnders e Vera Sala. Quanto a Jacob Alves e Cipó Alvarenga, ambos pertencem ao Núcleo de Criação do Dirceu. Anote esse nome porque, embora exista há somente dois anos, já se tornou um marco na história da dança que se produz no Brasil. Trata-se de uma plataforma voltada para a pesquisa e desenvolvimento da dança em sua relação com as artes contemporâneas, que funciona no Teatro João Paulo II, que Marcelo dirige desde 2006 no Dirceu, um bairro distante de Teresina, no Piauí.Quem pensar que a distância dos grandes centros produziu raquitismo informacional nos 18 membros desse Núcleo, terá enorme surpresa ao conhecer a consistência da sua produção - como atestam É Assim Que se Escreve Mas Não É Assim Que se Lê, de Layane Holanda, Big Little Bird, outro solo de Jacob Alves, ou o Vídeo 78, do conectivo VivaTosco!, um outro coletivo que se associou ao Núcleo de Criação do Dirceu.Para se pensar o Brasil de hoje, não se pode ignorar a inovação que vem acontecendo nas periferias. É justamente isso que Mono e o Núcleo de Criação do Dirceu vieram a São Paulo nos dizer.

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