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MoMA adquire obras de pioneiros da fotografia moderna brasileira e olha contemporâneos

Museu incorporou recentemente a seu acervo trabalhos de Gaspar Gasparian, Alair Gomes, Regina Silveira e Rosângela Rennó

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Julho 2015 | 03h00

Em 1949, o fotógrafo brasileiro de origem húngara Thomaz Farkas (1924-2011), um dos pioneiros da moderna fotografia no Brasil, entregou sete imagens suas ao então diretor do Departamento de Fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), o também fotógrafo Edward Steichen (1879-1973). Passaram-se anos até que essas fotos fossem oficialmente incorporadas ao acervo com a cooperação da família Farkas – uma delas foi comprada em 1959, mas as outras seis restantes tiveram de passar pelo crivo dos curadores do museu americano. Em 2016, Farkas vai finalmente figurar no segundo volume da coleção de fotografias, que já conta com vários fotógrafos brasileiros, entre eles o concreto Geraldo de Barros (1923-1988).

Para tornar a coleção brasileira do MoMA ainda mais orgânica, a atual curadora do Departamento de Fotografia do museu, Sarah Hermanson Meister, incluiu recentemente no acervo fotos de outro pioneiro integrante do histórico Foto Cine Clube Bandeirantes, o paulistano Gaspar Gasparian (1899-1966), filho de imigrantes armênios, um inovador não só no campo da fotografia como no setor têxtil (ele criou um lanifício que marcou o setor industrial paulistano nos anos 1940).

Gasparian foi autor de belas paisagens de São Paulo, além de um refinado fotógrafo experimental que enveredou pela abstração. Hoje, além do MoMA, museus internacionais como a Tate de Londres (que tem cinco fotos suas na coleção) disputam sua obra. A curadora Sarah Meister fala com entusiasmo dele e outros brasileiros que ajudou a incorporar ao MoMA – Alair Gomes, Regina Silveira, Rosângela Rennó e Vik Muniz –, fazendo crescer o time de profissionais que já figuravam na coleção do museu – Claudia Andujar, Mário Cravo Neto, Nair Benedicto, Sebastião Salgado e Valdir Cruz.

“Os últimos três anos foram muito importantes para sedimentar a coleção brasileira do MoMA”, diz Sarah Meister por telefone, em entrevista exclusiva ao Estado. E os brasileiros não conversam apenas entre eles. A curadora colocou nas galerias do museu o fotógrafo, designer e pintor Geraldo de Barros ao lado do americano Richard Misrach, um dos pioneiros da fotografia em cores nos anos 1970, hoje comparado aos alemães Thomas Struth e Andreas Gursky pela monumentalidade de suas imagens.

Os fotógrafos brasileiros vão ser contemplados ainda com uma palestra que a curadora vai fazer durante a SP-Arte/Foto, em agosto, como convidada especial dos organizadores do evento. Sarah Meister, responsável pela instalação das galerias de fotografia Edward Steichen no MoMA, que resumem a história da fotografia entre 1840 e 1970, tem dirigido seu olhar aos fotógrafos latino-americanos. Tanto que, no ano passado, levou ao Grand Palais, em Paris, a mostra American Photography, em conjunto com a Paris Photo. “Os europeus ficaram surpresos, pois imaginavam que eu só levaria os americanos do Norte, mas as reações foram positivas”, garante. “É nossa obrigação divulgar outros americanos, também porque o MoMA tem como missão promover o intercâmbio entre os povos, como deixou claro em 1942, ao comprar nove fotos de Manuel Álvarez Bravo.”

A curadora não revela o montante destinado pelo museu americano às aquisições de seu departamento, que tem um comitê formado por 25 profissionais responsáveis por aprovar ou não os trabalhos que devem entrar na coleção. “Não temos exatamente uma única direção, mas o que me chamou a atenção, logo que entrei no MoMA, foi que, desde a época em que Alfred Barr era diretor, sempre se privilegiou a experimentação, a considerar as primeiras entradas no acervo, Eugene Atget e Moholy-Nagy.”

Atget, que já foi chamado o “Balzac da câmera”, talvez seja o fotógrafo de maior presença na coleção do MoMA, que tem mais de 200 mil obras no acervo – e 10 mil artistas representados nele. Seus negativos renderam quatro volumes dedicados ao fotógrafo francês pelo museu, que comprou a coleção Abbott/Levy com seu trabalho em 1968. “Normalmente, não usamos nosso acervo comercialmente”, esclarece a curadora. “Mas a venda dos livros de Atget nos ajudou a comprar fotos que eram fundamentais para o museu.”

O MoMA foi um dos primeiros museus a incluir a fotografia em sua coleção. Em 1938, promoveu uma exposição individual do fotógrafo Walker Evans (1903-1973), um dos mais influentes da fotografia documental, que registrou com grande sensibilidade a miséria dos americanos durante a Grande Depressão americana.

“Acabamos de incorporar ao acervo, em junho, a coleção completa de 619 retratos de August Sander, produzidos num período de 60 anos, com a generosa contribuição de sua família.” Como os familiares de Sander, considerado o maior retratista alemão de todos os tempos, os parentes de fotógrafos brasileiros – como a família Farkas e Gasparian – têm desempenhado um papel exemplar no crescimento do acervo do MoMA. A curadora Sarah Meister tem visitado o Brasil regularmente e conhece as principais coleções de fotografia do País, entre elas a do Instituto Moreira Salles.

Martin Parr é uma das atrações da feira SP -Arte/Foto

Os fotógrafos brasileiros ainda são as estrelas da SP-Arte/Foto, que abre suas portas para o público em 20 de agosto, no JK Iguatemi, reunindo 31 galerias na maior feira de fotografia da América Latina. Entre as atrações internacionais, a Lume Galeria vai trazer o fotógrafo britânico Martin Parr, membro da Magnum e conhecido por sua sarcástica visão da sociedade de consumo, captada sem piedade por suas lentes macro e em cores saturadas, o que torna suas imagens inconfundíveis.

Entre as mostras de brasileiros está programada uma retrospectiva de um documentarista predecessor de Parr, Jean Manzon (1915-1990), um francês que chegou ao Brasil em 1940, fugindo da guerra. O inovador do fotojornalismo brasileiro vai ser homenageado pela Galeria Fass.

A Galeria Millan presta homenagem a duas mulheres fotógrafas, Rochelle Costi e Sofia Borges, a mais jovem participante da 30ª Bienal (2012), onde a curadora do MoMA, Sarah Meister, descobriu a fotografia do carioca Alair Gomes (1921-1992), um engenheiro e professor que, nos anos 1970 e 1980, carregou na sensualidade homoerótica.

Ainda na SP-Arte/Foto, a Dan Galeria mostra Cristian Mascaro e a Luciana Brito destaca a obra do mexicano Hector Zamora. 

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