Mojica Marins de corpo inteiro

Final dos anos 50, redação do jornal Última Hora. Jô Soares, então colunista de variedades, chegou em minha mesa: ''''Vamos ver esse Mojica Marins de quem estão falando tanto!'''' Não sei quem falava tanto, mas fomos, Jô e eu éramos loucos para descobrir coisas, vivíamos perambulando por salas esquisitas como o Bandeirantes, o Paratodos, o Broadway, o Apolo, o Oásis, onde havia desde filmes trash tão ruins que se tornavam sedutores até fantasias orientais, com umas mulheres coxudas. Chegamos ao cinema e o filme era A Sina do Aventureiro, um farwest brasileiro. Rimos muito. Ríamos a cada cena. Claro, éramos jovens criados ao ritmo das imagens de John Ford, Howard Hawks, John Sturges, Henry Hathaway. Para nós, somente americanos podiam fazer westerns. Claro que era verdade, o gênero era americano por excelência, há até um livro com esse titulo. Verdade que um dia Sergio Leone mostrou que os italianos também podiam se aventurar pelo velho oeste com desenvoltura. Já era a globalização iniciando, envolvendo o cinema.Mas aquele A Sina do Aventureiro era demais. Ingênuo, primitivo, um amontoado de clichês, de lugares-comuns, beirava o ridículo para nós jovens intelectuais donos de todas as verdades. Porém, os clichês são adoráveis, divertem. Não sabíamos se o Mojica levava a sério ou era um imenso gozador. O pesquisador Rodrigo Pereira definiu aquele filme como o western feijoada ou faroeste caboclo. Mas havia um outro lado. Saíamos do cinema direto para o Clubinho, na Rua Bento Freitas, onde havia o melhor picadinho da cidade e o Jô costumava dizer: ''''Há algo estranho nesse homem, o Mojica, e no seu filme que talvez a gente não esteja alcançando.'''' Demorou um tempo para descobrirmos. Os anos 60 vieram e uma tarde o Jô me telefonou: ''''Tem outro Mojica Marins na praça e acho que vale a pena ver. É filme de terror. Olha só o título: À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Era espantoso. Todo o deboche, todo o sarcasmo, toda a revolta, todos os delírios estavam ali. Não havia limites, sabíamos que uma força nova, a do Zé do Caixão, tinha nascido, estava ali, uma coisa brasileira, macabra, esculhambada. Há uma cena que me marcou e eu quis que o Zé Celso, do Oficina, visse. Fomos juntos. Não havia nada mais chocante para nós dois, educados em famílias católicas com mães catequistas. Como alguém se atrevia a fazer aquilo? Há uma procissão de Semana Santa. O senhor morto é levado e os fiéis estão aos prantos. Atrás de uma janela, olhando o corpo de Jesus passar, Zé do Caixão gargalha, blasfema. Vai mais longe, apanha um imenso pernil e come. Bebe e come. Horror, comer carne na Sexta-Feira Santa, dia de jejum. Segundo, carne de porco. Nada de abstinências, apenas ofensas. Estava ali o cineasta iconoclasta. Um homem contra o preestabelecido, o preconcebido, contra a cultura normal, cotidiana, contra a mediocridade prosaica. Era um filme tosco? Era. Mas será que não havia por trás desse modo de filmar alguma coisa mais? Mojica Marins passou a incomodar, a perturbar, e isso era um sinal de que se tratava de um inconformado. Também, não se esqueçam que vivíamos em uma ditadura que havia censura e todo tipo de caretice, repressão, nada podia, tudo era proibido. O poder tinha medo. Por isso, censurava.Mojica Marins foi por anos um excluído, um rejeitado. Não era levado a sério, mas persistia. Por sua vez, ela igualmente rejeitava o mundo ''''oficial'''' do cinema, o cinemão, os ''''sérios'''', os acadêmicos. Era ironizado, desprezado, vilipendiado, mas vivia seu mundo à parte porque sempre acreditou. Fazia pela paixão, pela loucura (divina loucura). Construiu seu personagem, moldou-se a si mesmo, confundiu um com o outro levado pela fé, pelo sonho. Sua obra é estranha? É. Mas ele responde: ''''Meu mundo é estranho, mas não mais estranho que o seu mundo.'''' Personagem único, ímpar, moldou uma obra polêmica, incompreendida, assustadora, em certo período. No entanto, agora pode ser desvendado o mito. Quem é Zé do Caixão? Quem é Mojica Marins? Como fez o que fez? Por que fez? Que mundo é esse?Há um ser no meio artístico brasileiro que as pessoas precisam conhecer, saber que existe. Eugenio Puppo. Ele vai atrás do insólito, recupera a memória das coisas. Quem é que redescobriu o imenso arquivo de imagens de Primo Carbonari com cenas fundamentais para a história do Brasil? Puppo! Quem fez um festival do cinema marginal e colocou em foco figuras que estavam para escanteio há muito? Puppo. Pois ele me ligou no início desta semana para comunicar que, a partir do dia 10 e até o dia 25 deste mês, eu, você, todos nós, poderemos ver a filmografia completa de José Mojica Marins no Centro Cultural Banco do Brasil. Serão exibidos 25 filmes, haverá duas palestras e será lançado um livro de quase 200 páginas, fartamente ilustrado como se dizia. Atentem para os títulos! Querem coisa melhor? Como Consolar Viúvas, Inferno Carnal, A Mulher Que Põe a Pomba no Ar, A Virgem e o Machão, Sexo e Sangue na Trilha do Terror, Delírios de Um Anormal, 48 Horas de Sexo Alucinante. Uma filmografia que tem de tudo, vai e volta, avança e recua. Vamos saber realmente quem é Mojica Marins, o cineasta que veio para nos deixar perplexos com seu imaginário brega, seu kitsch sem limites, seu humor desnaturado, seu sarcasmo. Se Renan e os senadores fazem o que fazem, por que não existir, aceitar, concordar com Mojica? Cinema fantástico, surreal, dadaísta, visionário, sexo, horror, religião, mitologia, morte, vida, alma. Vamos ver, preciso ligar para o Jô, chamar o Zé Celso, passar as noites no CCBB.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.