Mistérios do bardo William: 445 anos?

As dúvidas que rondam Shakespeare, como a data certa de seu nascimento

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

Nenhum outro artista foi tão inspirador para a literatura, teatro, cinema e dança nos últimos séculos como o dramaturgo inglês William Shakespeare. Segundo especialistas, seus personagens praticamente inventaram a personalidade humana como hoje é conhecida. "Antes que Hamlet nos ensinasse, o ser humano era muito mais simples, mas também menos interessante", afirma um shakespeariano de carteirinha, o professor americano Harold Bloom. Mesmo assim, pouco se sabe sobre a vida de William Shakespeare, a começar pela data do nascimento: convencionou-se como 23 de abril de 1564, ou seja, há 445 anos. Há quem defenda, no entanto, que o bardo veio ao mundo no dia anterior, em Stratford on Avon. Houve até quem duvidasse de sua existência. O certo é que a obra a ele atribuída é um dos patrimônios da humanidade.Para festejar a data, o Globe SP (centro de formação de atores inspirado no legendário Globe Theatre de Londres, construção em madeira à beira do Rio Tâmisa, onde primeiro foram encenadas as peças de Shakespeare) elaborou uma maratona cultural, que ocupará todo o dia de hoje, entre 9 e 23 horas. Serão palestras, workshops, performances, projeção de filmes e entrevistas, atividades que necessitam de inscrições prévias para a participação. E as editoras Agir e Nova Aguilar lançam novas edições com toda a obra shakespeariana.Uma programação que, mesmo vasta, não esgotará um assunto que não parece ter fim: exprimir o amplo espectro de observação e representação da trama do mundo, que Shakespeare foi um dos únicos a captar, na história do teatro mundial. Suas obras que permaneceram ao longo dos tempos consistem de 38 peças teatrais, 154 sonetos, 2 poemas de narrativa longa, e várias outras poesias.O inglês supera os demais dramaturgos porque sua imaginação era mais rica que a de todos de sua época e cobria uma gama mais vasta de experiências. Suas peças são, ao mesmo tempo, as mais naturalistas e as mais poéticas já escritas.Para o crítico literário Harold Bloom, Shakespeare foi um "deus mortal" e sua obra, o reflexo perfeito do contorno da alma humana. "Por meio de Hamlet, ele nos tornou mais céticos nas relações com os outros, pois aprendemos a duvidar da nitidez no mundo afetivo." Bloom acrescenta ainda que "nossa capacidade de rir de nós mesmos tão facilmente quanto rimos dos outros se deve muito a Falstaff". Finalmente, a Cleópatra de Shakespeare ensinou-nos "como eros é complexo e como é impossível dissociar o papel de estar amando da realidade de amar".Eram personagens dotados de uma vida interior até então inexistente na literatura mundial. Tão marcantes que estabeleceram o marco zero para a obra de escritores e pensadores tão distintos como Kierkegaard, Emerson, Nietzsche, Freud, Ibsen, Strindberg, Pirandello e Beckett.Arthur Miller, por exemplo, notável dramaturgo americano, confessava que, quando jovem, copiava integralmente todas as falas das peças de Shakespeare. Apesar de árdua, a tarefa permitia-lhe notar a precisão do texto e de como as falas se encaixavam perfeitamente.Na opinião de Bloom, as primeiras histórias de Shakespeare deviam muito a Christopher Marlowe, dramaturgo que o precedeu, mas não teve o mesmo reconhecimento da posteridade. Forte presença que perdurou até o sangrento Tito Andrônico, de 1549. "Assim que Shakespeare se livra da influência do autor de Tamburlaine, seus personagens começam a deixar de ser os desenhos animados bidimensionais de Marlowe, como Ricardo III, e tornam-se os heróis emocionalmente complexos que encontramos em sua obra madura."Para ele, Rei Lear, Macbeth e Antônio e Cleópatra, que foram escritos em um impulso criativo que abrangeu apenas 14 meses (1605-1606), "concluem a grande fase da preocupação de Shakespeare com o íntimo do ser humano". Antônio e Cleópatra, por exemplo, cuja primeira montagem no Brasil só ocorreu em 2006, é considerado um dos melhores trabalhos da fase amadurecida do bardo. Afinal, se Romeu e Julieta trata do amor entre adolescentes que não têm nada a perder e entregam a vida por um amor, Antônio e Cleópatra trata de uma paixão imensa, madura e da relação de poder.Apesar de ter se casado e ter sido pai de três crianças, Shakespeare tem uma biografia ainda coberta de névoa. Durante vários anos, duvidou-se de sua existência, pois seria um pseudônimo de Francis Bacon. A dúvida só foi resolvida em 1996, quando o cientista Andrew Morton determinou a autoria e autenticidade de manuscritos.A ciência também colaborou para confirmar como autêntica a máscara mortuária do bardo, tida por alguns como apócrifa - o trabalho, realizado por uma universidade alemã, garantiu ainda que sua morte foi causada por um tumor maligno no olho esquerdo, a 23 de abril de 1616.Recentemente, Stanley Wells, presidente da The Shakespeare Birthplace Trust, confirmou a descoberta de um retrato considerado autêntico do dramaturgo, pintado há 300 anos. Aos poucos, o enigma é desvendado. SHAKESPEARE APAIXONADOSSAMIR YAZBEK"Shakespeare não fazia concessões ao seu público, tampouco escrevia para ser decifrado pela posteridade. Sua estratégia, ainda hoje capaz de persuadir, era elevar o espectador até as alturas do que ele queria dizer. Então se mostrava um explorador do humano, um demiurgo que adentrou no que a princípio, em sua obra, parecia um lago raso, mas que aos poucos se revelou um oceano infinito. Dessa profundidade beberam todos os grandes dramaturgos que vieram depois dele."MÁRIO VIANA"Shakespeare construiu uma ponte sólida entre a tragédia grega e o drama moderno, transitou com intimidade pela comédia e em momento algum, não importasse o gênero, esqueceu que escrevia sobre o Homem. Escrevia também com um olho no público e nem por isso fez peças menores. Se até hoje, eu assisto à cena final de Romeu e Julieta torcendo para ela acordar ou para o frei chegar logo, é porque a verdade daquele texto sobrevive ao tempo. Shakespeare nos ensinou a escrever com verdade."MÁRIO PRATA"Toda peça que foi escrita depois dele, ele já havia escrito. Exemplo? Toda história de amor atual está contida em Romeu e Julieta."JOSÉ EDUARDO AGUALUSA"Na literatura, como na natureza, nada se ganha e nada se perde, tudo se transforma. Em Shakespeare está tudo o que nós, escritores, continuamos a utilizar nos dias de hoje, apenas embaralhamos as cartas e voltamos a dar. Os sentimentos profundos que movem a humanidade - o amor e o ciúme, a paixão pelo poder, as intrigas da corte -, a certeza de que as grandes histórias de amor continuam a ser as impossíveis, etc. Ainda que depois de Shakespeare não tivesse surgido mais nada, o essencial sobre a natureza humana já teria sido dito."SÉRGIO ROVERI"Creio que Shakespeare nos ensinou que todas aquelas forças que movem o ser humano, como o desejo, a paixão, a luta pelo poder, a inveja e a cobiça, são muito mais poderosas do que qualquer convenção de época. Elas acompanham o homem desde sempre, esteja ele a bordo de uma velha caravela tentando encontrar o caminho das Índias, esteja ele em uma nave espacial que busca alcançar Marte. Por ter tido a certeza disso, ele esmiuçou o sentimento humano de uma forma absolutamente poética e também muito cruel. Com o tempo, percebemos que o legado que Shakespeare deixou para o teatro moderno é o próprio homem, somos nós mesmos esse legado. Sem ele, talvez não soubéssemos hoje como nos localizar e muito menos nos retratar nos palcos."FLÁVIO MARINHO"O extraordinário em Shakespeare é que ele consegue ser, ao mesmo tempo, o maior poeta dramático de todos os tempos e um grande criador de tramas populares. Ou seja, ele insufla um sopro poético a narrativas acessíveis, dando-lhes uma dimensão insuspeitada. Talvez por isso seja tão revisitado até hoje - sempre com muita repercussão. Às vezes, negativa, é verdade. Mas nunca deixa de repercutir."MARIA ADELAIDE AMARAL"O que faríamos sem Shakespeare, santo Deus? Sobreviveríamos, naturalmente. porém muito mais pobres. Começando pelo idioma inglês. Que grande pensador, que profundo conhecedor da alma humana, que grande poeta!"3ServiçoMaratona Cultural Shakespeare. Globe-SP. Rua Capitão Prudente, 173, Pinheiros. Hoje, das 9 às 23 horas. Grátis. Progração: www.globe.art.br

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