Mistérios da falta de comunicação

Lya Luft retorna à ficção com O Silêncio dos Amantes, conjunto de 20 contos que tratam da palavra essencial, a que não foi dita

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

10 de abril de 2008 | 00h00

O silêncio nem sempre acalma, acomoda, pacifica. Em suas entranhas, existe, muitas vezes, um poder corrosivo que destrói até a mais inquebrantável das relações. Interessada na incomunicabilidade que muitas vezes surpreende pessoas que se amam, a escritora Lya Luft produziu um punhado de contos que, reunidos, formam o volume O Silêncio dos Amantes, que a editora Record lança neste fim de semana (160 páginas, R$ 28).Tratava-se, originalmente, de um romance, que não se sustentou como tal e, fragmentado, resultou em 20 contos, costurados por uma mesma dor: a incompreensão que subitamente nasce em relações aparentemente bem estabelecidas. ''Conto também sobre o amparo que certas pessoas necessitam e que, por um motivo ou outro, não recebem no tempo certo'', explica Lya, que conversou com Estado por telefone, de Porto Alegre.Nesse caminho, trilham histórias como a do rapaz incompreendido pelos pais e que desaparece misteriosamente (voando, reza uma lenda); ou do menino que não se sente encaixado no mundo por ser anão. Histórias cujo destino não seria trágico se uma frase, aquela esperada, fosse dita. Contos que Lya (grande fenômeno editorial com Perdas & Ganhos, que freqüentou a lista dos mais vendidos por 80 semanas) narra com seu tradicional cuidado com a palavra e que marcam sua volta à ficção desde O Ponto Cego, de 1999.Por que você demorou para voltar à ficção?Na verdade, esse livro teve um destino estranho. Eu até escrevi rápido, mas antes era para ser um livro de ensaios na linha de Rio do Meio e Perdas e Ganhos, sobre incomunicabilidade humana. Depois, apareceram alguns personagens e cheguei a escrever 50, 60 páginas com a idéia de um romance, já com esse título. Mas, se não me apaixono pelo livro, fico infeliz. Até que, ao acordar certo dia, descobri que o romance tinha se fragmentado em contos e, em cinco ou seis meses, conclui o trabalho. Gosto muito de escrever e produzi justamente o que queria. Todos têm uma linha bem firme que os une: a incomunicabilidade.O que te motivou a escrevê-los?Eu me considero sobretudo uma ficcionista. Para Não Dizer Adeus é um pequeno romance e o próprio Rio do Meio tem muitas histórias ali, escondidas. Mas eu me permito dar esses pequenos passeios pela crônica, poesia, ensaios. Mas sou sempre eu mesma, me expressando e várias maneiras. Não planejo minha obra, nem faço projetos anteriores.As histórias continuam como uma biografia de suas inquietações e assombramentos, como você disse certa vez?Sim, não é minha vida, que é bem simples - tive uma infância feliz, tranqüila. Não tive uma mãe alcoólica, nem um filho anão (risos). São assuntos que me incomodam, me fascinam, a questão da incomunicabilidade: a palavra que você não disse quando devia ter falado e a palavra que você disse quando devia ter-se calado. A grande dificuldade dos relacionamentos humanos se baseia em grande parte na incomunicabilidade, da forma que você vê o outro e como isso pode provocar o preconceito. Daí vem a origem de meus personagens: o anão, a autodestruição da mãe alcoólica, o marido suicida. Quanto conhecemos do outro com quem convivemos? Boa parte da arte universal surgiu a partir dessa questão sobre quem é o outro.Há algum conto no qual você tenha utilizado a própria experiência?Talvez O Jardim das Visões. Desde muito pequena, sempre fui muito interessada em observar as pessoas, minhas tias, por exemplo. Eu gostava de criar amigos imaginários - foram muitos e até criei várias famílias deles. Mas, volto a lembrar que o conto não trata da minha vida.Essa inquietação é percebida ao longo de sua obra: a busca por uma resposta que nunca vem...E, por não entender isso, acabo escrevendo. Sempre a questão das relações humanas, o drama da existência, que tanto pode ser fascinante como cruel. Escrevi uma coluna sobre o mal de Alzheimer, o mistério de uma pessoa que entra em um outro mundo onde você não a acompanha mais. É algo trágico, inexorável. Minha mãe morreu desse mal depois de muitos anos. Por isso que a vida é bela e cruel.O medo da incomunicabilidade atinge principalmente os escritores?Nunca pensei nisso. A literatura é um território muito feliz para mim. Nunca pensei em ser compreendida, pois a arte não pode ser compreendida, mas perseguida. Ela deve desencadear em qualquer tipo de leitor a sua possibilidade de emoção e de criação do pensamento. Não me preocupo em ser lida ou mesmo compreendida.E o que você me diz da incomunicabilidade no silêncio?Ninguém nunca se comunica perfeitamente, tampouco é inteiramente compreendido. É o que torna a vida interessante.Mas não é uma fonte de tristezas?Não, porque o mistério torna o outro interessante. Veja os relacionamentos amorosos e familiares, que nos são mais próximos. Se você conhece tudo sobre o outro, a vida se tornaria um tédio completo. Nem renderia boas histórias para a literatura. Trato bem disso em uma das histórias, O Que a Gente Não Disse, sobre a mulher que se surpreende quando o marido se suicida: ela acreditava conhecer tudo sobre ele, mas não sabia do essencial. Não vejo, portanto, apenas crueldade e tristeza no silêncio, mas também momentos engraçados, ternos. O que pretendo sempre é, ao narrar essas histórias, mesmo as mais difíceis, fazer com muita poesia.A infância também é um período que provoca surpresas?Sim. Tenho apenas um livro autobiográfico, Mar de Dentro, em que relato as memórias que tenho da minha infância entre os 2 e os 12 anos. Tudo está guardado ali, como uma raiz: a visão de mundo que tenho daquela época é muito mágica, que me carrega até hoje. Não sou alienada, veja bem. Afinal, em tudo está envolvido o mistério. Eu me lembro da minha mãe, nos muitos anos que teve Alzheimer, enveredou para aquele outro mundo. Assim, a melhor maneira de lidar com ela não era questioná-la sobre seus esquecimentos, mas participar do mesmo jogo. Com isso, percebi que o horroroso pode ser também fascinante. Afinal, quem era essa outra pessoa que estava dentro do corpo que, um dia, foi minha mãe?E planos para o próximo livro?Estou já rascunhando algo, no qual vou tratar sobre os mitos, medos e inverdades que nos limitam, que nos dominam, e acabam também nos cegando e impedindo nossa felicidade. Mas, como já disse antes, não faço planos. Talvez seja para 2009, quem sabe 2010.TrechoSem que eu soubesse, as coisas não ditas haviam crescido como cogumelos venenosos nas paredes do silêncio, enquanto ele ficava acordado na cama, fitando o teto, com o branco dos olhos reluzindo na penumbra. Se eu o interrogava, o que você tem amor? ele respondia que não era nada, estava pensando no trabalho. A gente sabia que era mentira, ele sabia que eu sabia, mas nenhum de nós rompeu aquele acordo sem palavras. Nunca imaginei o mal que o roía. Era impossível qualquer coisa tornar a morte algo melhor do que tudo que tínhamos. Isso era o que eu achava. Ele também falava pouco no passado, a infância numa cidadezinha do interior, o monte de irmãos, os pais morrendo cedo, ele responsável pelos menores. Haveria ali, com uma raiz venenosa, alguma coisa tão triste que o levava a querer morrer?Antes nunca pensei nisso. A gente não comentava nada que nos perturbasse. Eu era uma pessoa muito prática, para mim importava o presente. Vivia ocupada sendo feliz, tentando fazê-lo feliz, organizando família, parindo filhos, levando as crianças para a escola, indo às reuniões de pais. Estava distraída sendo fútil, sendo alegre, sendo realizada com meu marido amado e meus filhos saudáveis, gastando pouco em roupas minhas, botando termômetro quando um deles estava com febre, fazendo bolo nas tardes de sábado. (O Que a Gente Não Disse)

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