Miss Kittin parou com o champanhe

Cantora francesa, famosa por suas letras ácidas sobre a vida glamourosa nas pistas de dança, só quer falar sobre metafísica

Marcus Vinícius Brasil, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

O nome continua carregado de frivolidade, mas Miss Kittin garante que sua personalidade mudou. A francesa, que surgiu para a música eletrônica como uma garota inconseqüente que ligava apenas para tomar champanhe com amigos famosos na área VIP (passatempo imortalizado na música Frank Sinatra), diz estar madura, e quer falar mais sobre temas existencialistas que sobre hedonismo barato. Ela se apresenta hoje na festa D-Edge Concept ao lado de seu parceiro de longa data, o produtor Michel Amato, ou simplesmente Hacker. Foi com ele que ela compôs seus primeiros sucessos no começo desta década, reciclando a eletrônica pop que a banda alemã Kraftwerk experimentara nos anos 70."Quero cantar sobre a vida, morte e temas em que pensamos muito quando estamos ficando velhos. Não sou a rebelde que costumava ser; há maneiras melhores de usar minha cabeça", diz a cantora.Ambos sobem ao palco para fazer um set ao vivo, em que apresentarão antigos sucessos (espere ouvir Réquiem for a Hit) e faixas de um novo álbum da dupla, a ser lançado no começo de 2009. "Somos apenas eu e Hacker sobre o palco. Utilizaremos vídeos, além de faixas inéditas que representam uma combinação de nosso gosto por melodias sintéticas e batidas contemporâneas."Mesmo que faça uma pose mais sóbria, Miss Kittin dificilmente conseguirá se livrar das lembranças da época em que ditava as regras do chamado "electroclash". O gênero propunha uma mistura depravada de estilos musicais nas pistas de dança - do rock à disco music -, além da idolatria a um tipo decadente de glamour. Entre os artistas que fizeram essa sonoridade despontar estavam o DJ Hell - dono da gravadora Gigolo Records - e a dupla Fischerspooner (que se apresentou na Bienal deste ano).Ainda que o rótulo tenha sido a ponte para o estrelato internacional da cantora, ela diz que não gosta de ser associada àquele movimento, que hoje considera superficial."Nossas influências vinham de gravadoras como a Warp e bandas como a Drexciya (ambos nomes relacionados à música experimental) - gente que nunca foi associada ao electroclash. Mas hoje percebo que fizemos tudo aquilo cedo demais, o que nos fez pioneiros. E isso me deixa muito honrada. Não percebíamos o que estava acontecendo na época e não ligávamos para a relação que estava sendo feita entre a música e o mundo da moda. Pessoalmente, prefiro quando a música vem primeiro."Para o próximo álbum, ainda sem nome ou data de lançamento definitivos, ela adianta que deve seguir o caminho mais introspectivo de seu último lançamento, BatBox. "Hacker me pediu para que eu falasse sobre meus sentimentos e emoções sem utilizar tantas imagens e simbolismos. Não é fácil transmitir pensamentos de maneira tão crua, mas estou confiante."Além da dupla francesa, a D-Edge Concept trará ainda uma porção de artistas internacionais e nacionais. O DJ parisiense Gilbert Cohen, do projeto Chateau Flight, dividirá as cabines com alguns figurões da eletrônica brasileira. Entre eles estão os produtores Gui Boratto e Dada Attack, os DJs Zegon - integrante do projeto NASA - e Mau Mau, além da banda Stop Play Moon. O produtor Maurice Fulton, um dos nomes associados ao retorno da disco music, estava escalado para se apresentar no evento, mas cancelou sua vinda e foi substituído pelo DJ Phoreski.

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