Minas de ouro

Quem achava que as expressões mineiras não passavam de ?trem bão?, ?uai?, ?sô? e ?ó p?cê vê? vai surpreender-se com o que deve baixar por aqui a partir de hoje no mais mineiro dos Sescs paulistanos, o Pompéia. Uma porção de artistas do teatro e da música popular e erudita, além de manifestações ao ar livre dos índios da aldeia Xacriabá, de congadeiros e de um colorido cortejo do Bloconeco e Banda Navegante convidam o público a conhecer um pouco mais a fundo o que vem sendo produzido no Estado que, há um bom tempo, deixou de ser saboreado somente pelo queijo fresco, pelo tutu de feijão ou pela vaca atolada, acompanhados das melhores cachaças.A idealização da Mostra Contemporânea de Arte Mineira, que reunirá mais de 300 artistas nesta primeira edição, foi do Grupo 3 de Teatro, fundado por artistas mineiros em 2005, mas desde então estabelecido em São Paulo. O estalo para a produção do evento veio quando Gabriel Paiva, Débora Falabella e Yara de Novaes, integrantes da companhia, realizavam uma pesquisa para o seu terceiro espetáculo, depois de duas bem-sucedidas temporadas com A Serpente (2005) e O Continente Negro (2007). Revisitaram antigos dramaturgos mineiros e também voltaram a atenção para o que estava sendo feito pelos seus parceiros atualmente, não só em Belo Horizonte, como em todo o Estado. Desse jeito, foram esbarrando na música, nas artes plásticas, na dança, no cinema e na literatura. E se deram conta de que a efervescência cultural em Minas já não cabia em um único caldeirão, que estava precisando de uma ajudinha para ser servida, é claro, em porções generosas."A mostra não diz respeito somente à quantidade, mas também à qualidade. Há uma profusão de novos grupos e trabalhos, que acabaram se tornando um ?motivador? para o evento. Queremos compartilhar com o público de São Paulo essa arte atual feita em Minas", diz Paiva. A mostra obteve o apoio da Lei Rouanet, que aprovou a captação de R$ 800 mil, valor integralmente patrocinado pela Fiat, sob apoio do Sesc. Durante os seis dias de evento são esperadas entre 10 e 15 mil pessoas.Para esta primeira edição do projeto, a organização convidou Kiko Ferreira e Guilherme Marques para a curadoria de música e teatro, respectivamente (para março está prevista a segunda edição do programa que vai contemplar artes plásticas, dança, cinema e literatura). Uma das preocupações de Marques foi propor um diálogo entre as tradições e a cena contemporânea ou a "contemporaneização das tradições". Tudo estará lá: dos ritos à origem grega das artes cênicas, passando pelo Festival Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, de onde já saíram excelentes montagens como Por Elise, do Grupo Espanca!, e o espetáculo que agora chega a São Paulo Alguns Leões Falam, da Cia. Clara.Na música, Ferreira procurou reunir o que julga ser uma característica básica da música feita em Minas Gerais: "A síntese de tudo o que acontece no Brasil." "Aqui é possível encontrar cenas distintas, que vão da moda de viola ao samba, passando pela surf music, o pop-rock e a música erudita. É uma pluralidade de sotaques e tendências musicais. Vamos tentar apresentar ao menos algumas dessas correntes que procuram manter diálogo com artistas das mais variadas áreas", conta o curador. O melhor exemplo disso ocorre hoje, no encontro dos músicos Lô Borges, um dos fundadores do Clube da Esquina, com Samuel Rosa, vocalista do Skank, seguidos pela performance intermídia Barrocodelia, com Ricardo Aleixo, Rui Moreira, Chico di Paula e muitos outros.Caetano Veloso sabia do que estava falando quando disse que "em Minas o caldo engrossa, o tempero entranha, o sentimento se verticaliza".

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