Milton Nascimento embala Parsons

Coreógrafo americano traz ao Brasil duas contundentes obras feitas a partir de músicas especialmente compostas por Bituca

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2008 | 00h00

Milton Nascimento ficou sem palavras quando viu David Parsons dançando na sua frente. Após terem se encontrado pela primeira vez em 1989 durante o Carlton Festival, Parsons foi até a casa de Milton para, juntos, ensaiarem uma parceria. ''Ele fez umas coisas tão bonitas que a gente ficou até doido. Só faltou voar'', relembra Milton. Parsons pediu ao músico que solfejasse algumas notas para acompanhar o piano e a bateria do sobrinho e do segundo filho adotivo de Milton, que também estavam lá na ocasião. E deu um belíssimo show na sala da casa do carioca de alma mineira.Mal sabia Milton que aquilo ali seria o esboço sonoro de duas das coreografias que o considerado gênio da dança americana vem apresentar amanhã e quarta no Teatro Municipal de São Paulo. As músicas que compõem a coreografia Nascimento Novo foram especialmente pensadas para a companhia Parsons Dance - e Milton só teve o gostinho da obra semi-acabada durante o processo de criação. Ainda assim, não economizou nos elogios: ''Eu sou fã não-sei-que-número do David. Não dá para acreditar que ele existe.''Os dez bailarinos da companhia fundada por David em 1987 respondem à altura com movimentos ágeis, que enchem de vida as batidas sincopadas e a voz potente de um dos nossos maiores intérpretes. O mérito, sem dúvida, é do coreógrafo, que já entendeu muito do espírito brasileiro. ''Freqüentei algumas vezes as escolas de samba no Rio, como a Mangueira. Absorvi aquela energia e traduzi em linguagem corporal'', conta Parsons. O americano já esteve duas vezes na Amazônia e pretende, em breve, visitar o Pantanal. ''É muito importante essa vivência como artista - observar a natureza, ter contato com outras culturas. Isso me alimenta.''Quem assiste a alguns trechos de Nascimento Novo no YouTube pode até duvidar que a coreografia tenha sido feita por um americano ou afirmar que aqueles bailarinos são brasileiros, tamanha compreensão rítmica. Parsons lembra que Milton se dispôs a compor as músicas sem receber qualquer cachê. ''Eu disse para ele que não tinha como pagar pelo trabalho, ao que ele me respondeu: ''Eu quero te presentear''''.Já Nascimento, que encerra a seqüência das seis coreografias que Parsons traz desta vez ao Brasil, compila alguns dos maiores sucessos de Milton, entre os quais, o percussivo repertório do álbum Tambores de Minas. E não pense que é só o público brasileiro que responde esfuziante ao ouvir e assistir os movimentos que dão contorno à música do compositor nascido em Três Pontas. Segundo Parsons, os americanos e os europeus enlouquecem ao sentir os ''Nascimentos''.As músicas de Bituca embalam as coreografias de abertura e encerramento do espetáculo, que ainda terá como delicioso recheio Miles Davis em Kind of Blue, coreografia de 2001, Dave Matthews Band em In The End, de 2005, George Harrison em My Sweet Lord, de 2000, e Robert Fripp em Caught, de 1982. Como bem prega o coreógrafo, ''tudo gira em torno da paixão'': seu ecletismo musical apenas propõe um desafio ainda maior para os bailarinos de sua companhia, que devem se expressar com ainda mais fôlego, sem perder a linha coreógrafica de qualidade sobre a qual David Parsons afirmou o seu nome.Quando perguntado se ainda sente vontade de voltar a dançar, o americano é enfático: ''Não mesmo. E não vamos nos alongar nesse assunto.'' Conhece e admira o trabalho de companhias brasileiras como a de Deborah Colker, Grupo Corpo e Balé Folclórico da Bahia. ''Eu conheci Deborah antes mesmo de ela pensar em ter uma companhia. Ela é batalhadora e uma coreógrafa muito interessante.'' Por duas culturas, em especial, Parsons admite sentir uma grande admiração e respeito: Itália e Brasil. ''Não sei bem por que, mas tem algo a ver com a conectividade entre as pessoas. E isso é muito importante.''Serviço Parsons Dance Company. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, centro, 3222-8698. Amanhã e 4.ª, 21 h. R$ 40 a R$ 150

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.