Dmitry Kostyukov/The New York Times
Dmitry Kostyukov/The New York Times

Milionário vai rifar quadro de Picasso

Pequena pintura ‘Natureza Morta’ vai ser sorteada no próximo dia 30, em Paris

John Leicester, ASSOCIATED PRESS

17 de março de 2020 | 07h00

MÔNACO - David Nahmad, multimilionário e colecionador de obras de arte, não se lembra exatamente por que comprou a Natureza Morta, uma pintura a óleo simples e encantadora que Pablo Picasso pintou em 1921. Como Nahmad possui cerca de 300 obras do gênio espanhol, sua falta de memória talvez seja compreensível. Com uma coleção dessas, que Nahmad diz ser o maior acervo de Picasso do mundo em mãos particulares, os detalhes às vezes se perdem.



“Compramos muitos Picasso, não me lembro do motivo específico de cada um”, disse Nahmad em uma entrevista exclusiva e incomum para a Associated Press, em sua luxuosa casa em Mônaco. “É o menor quadro que tenho”. Mas não por muito tempo.

Alguém com muita sorte de algum lugar do mundo em breve se juntará a Nahmad no privilegiado clube dos proprietários de obras do pintor de Málaga, quando Natureza Morta será sorteada em uma rifa beneficente, no final deste mês.

Os bilhetes, vendidos online, custam 100 euros (cerca de R$ 530). O vencedor de um sorteio semelhante em 2013 foi um jovem de 25 anos da Pensilvânia que trabalhava com instalação de sistemas de incêndio.

Nahmad, um dos mercadores de arte mais influentes do mundo, receberá 1 milhão de euros pela pintura, que, segundo ele, vale “pelo menos duas ou três vezes mais”.

“Essa rifa não teria sido bem-sucedida se não fosse o nome de Picasso. Tentaram propor outros nomes, mas não funcionou, porque queriam um nome que agradasse a todos. Tinha que ser Picasso. Picasso é o nome mágico”, disse ele.



Na vasta coleção de arte moderna e impressionista de Nahmad existem outras pinturas mais valiosas e reconhecidas. Acumulado ao longo de décadas, o conjunto de suas obras, de acordo com a Forbes, seria avaliado em US$ 3 bilhões. Nahmad não fala em números.

“Acho que as pessoas não se importam com o número de obras, mas, sim, com a qualidade delas”, disse.

Mas a possibilidade de se despedir de Natureza Morta o fez apreciar a pequena obra, que mostra um diário e um copo de absinto em uma mesa de madeira, além da assinatura “Picasso”. O artista tinha acabado de ser pai de Paulo, com sua primeira mulher, a russa Olga Khokhlova, e quando terminou a pintura, em junho de 1921, estava prestes a completar 40 anos de idade.

“Acho que é uma pintura extremamente elegante”, disse Nahmad. “E o fato de ser pequena faz com que não seja pretensiosa. É uma pequena joia”.

O sorteio será realizado em Paris no dia 30 de março. Os organizadores, Péri Cochin, produtora de televisão, e Arabelle Reille, historiadora de arte, esperam vender 200 mil cotas e arrecadar milhões, dinheiro com o qual levarão água para aldeias de Camarões, Madagáscar e Marrocos.

Eles decidiram pagar pelo quadro de Nahmad, em vez de pedir uma doação, porque com isso esperam incentivar outros colecionadores ou proprietários de galerias a abrirem mão de seus Picasso em futuras rifas.

“Primeiro David disse: ‘Não acho que eu tenha um quadro por 1 milhão de euros. Tenho pinturas muito bonitas, que valem muito mais que isso. Mas sabe de uma coisa? Vamos pegar o catálogo da minha coleção e tentar encontrar juntos’”, lembrou Reille.

“Por 1 milhão de euros, geralmente você consegue comprar um desenho bonito, uma gravura bonita. É extremamente raro encontrar uma pintura, mas nós encontramos esta”. 

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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