Mike Leigh improvisa com alegria

Cineasta conta como fez Simplesmente Feliz para o brilho de Sally Hawkins

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2009 | 00h00

Passaram-se quatro anos entre Vera Drake e o novo filme de Mike Leigh, Simplesmente Feliz, que estreia hoje nos cinemas brasileiros. No ano passado, Sally Hawkins ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim por seu papel como Poppy, a inglesinha simplesmente - e irritantemente - feliz do filme do diretor que atua no registro do drama, por mais humor que tenha Segredos e Mentiras, seu trabalho mais famoso, vencedor da Palma de Ouro em 1996. Mike Leigh não acredita que tenha mudado. Seu cinema continua rigorosamente o mesmo. "Crio a personagem e só depois surge o drama", ele explica. Poppy não é um corpo estranho em sua obra. "Ela é como as personagens de Segredos e Mentiras e Vera Drake. Aliás, não tenho uma personagem especial, pela qual me interesse. Gosto de criar figuras reais com meus atores e atrizes." Veja o trailer do filme de Leigh Ele se surpreende com uma aproximação que os críticos fazem entre Poppy e uma das mais célebres heroínas de Federico Fellini, Cabíria. Interpretada por Giulietta Masina, ela surgiu em Abismo de Um Sonho, ganhou um filme inteiro em As Noites de Cabíria e, mais tarde, foi transformada em personagem de musical por Bob Fosse, em Charity, Meu Amor. Cabíria é uma prostituta insignificante, sempre usada e abusada pelos homens. No limite do desespero, quando pensa até em se matar, ela dá sempre a volta por cima e recomeça. "Não sei de onde as pessoas tiraram essa referência. Conheço o filme de Fellini, claro, Masina é maravilhosa, mas Poppy não tem nem a sua solidão nem o seu sentimento de depressão. Poppy é feliz, malgré tout (ele diz em francês) e isso termina por irritar."Como nasceu a personagem? "Do meu desejo de trabalhar com Sally (Hawkins)", explica o diretor. Sally, por sinal, já integrava o elenco de Vera Drake, de 2004, fazendo Susan. Atraído por seu potencial cômico e dramático, Mike Leigh começou a pensar numa personagem que lhe fosse adequada. Poppy surgiu assim. Professora primária, imatura, saltitante - o diretor usa a expressão bubble, de bolha, o que faz de Poppy uma figura borbulhante -, ela possui um humor sarcástico que usa como ferramenta para enfrentar o mundo. Poppy é revelada na escola, em casa, com os amigos e, só bem mais tarde, o drama aflora em sua vida, por meio da relação com o professor de direção, quando ela resolve frequentar a autoescola, em busca da licença de motorista. O ?teacher?, Scott, é interpretado por Eddie Marsan, outro ator leighiano de carteirinha.É sempre um mistério o processo de criação de um filme de Mike Leigh. Ao contrário da maioria dos diretores, que desenvolve o roteiro e só depois pensa no intérprete, Leigh segue o percurso rigorosamente inverso. Ele escolhe o ator, ou atriz, define o personagem e faz uma espécie de laboratório, criando as situações e até diálogos com o elenco. A improvisação é consolidada no roteiro escrito, que vira bíblia no set de filmagem, raramente sendo trocado (uma palavra que seja). Como se dá esse processo? "É muito complicado, levaria muito tempo para explicar", desconversa o diretor. O conflito entre Poppy e Scott, por exemplo, não estava na origem do filme. Surgiu depois. "Você precisa explorar e desenvolver os personagens. Uma ideia dessas não pode estar no conceito do filme, porque só depois de trabalhar muito os personagens você pode chegar ao drama. É como a vida. Você precisa viver para se comprometer e, eventualmente, errar e acertar."O caso de Simplesmente Feliz ainda parece mais radical porque nunca, como aqui, a história de um filme de Mike Leigh pareceu tão episódica. É como se não houvesse realmente uma história, mas uma sucessão de vinhetas traçando o retrato de Poppy e seu mundo. Por mais que o diretor queira ser reticente, o repórter insiste no ?como?. Leigh explica - "O ponto de partida é essencial. Reúno pessoas talentosas e juntos criamos personagens, situações e diálogos. O universo do filme ganha vida por meio de um processo criativo que não tem uma duração. Em alguns filmes esse processo demora mais. Minha função é guiar a equipe e ir desenhando a narrativa numa linha que me estimule como diretor." O longo período entre Vera Drake e Simplesmente Feliz tem a ver com dificuldades particulares no processo de criação do novo filme? "Não, porque não consigo fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo. Logo depois de Vera Drake desenvolvi um projeto para teatro que me tomou um bom período. Esta peça, inclusive, foi montada no Brasil (A Festa de Abigaiu)." Mike Leigh faz uma ressalva importante - essa descrição ?genérica? do processo pode dar uma idéia equivocada de como ele cria. "O princípio básico é que só eu tenho o conhecimento integral do filme. Cada ator conhece o seu personagem, como na vida, onde cada um conhece o seu script e, às vezes, nem este." Mike Leigh fala muito em vida, compara seu cinema à vida. "É o que me interessa, a realidade. Minha maneira de encarar o cinema é propondo aos atores e aos espectadores que participem de uma jornada de conhecimento comigo." Qual será a próxima jornada, após Poppy? "Estou em pleno processo de um filme que pretendo realizar logo. Não dá para dizer nada porque ainda não sei aonde ele vai levar." Quem é o diretorNascido em 1943, o inglês Mike Leigh é diretor de teatro, cinema e TV. Foi premiado em Cannes, em 1993, por Naked (Nu) e três anos depois recebeu a Palma de Ouro, por Verdades e Mentiras. Em 2004, foi a vez do Leão de Ouro, em Veneza, por Vera Drake.

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