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Miguel Rio Branco
Miguel Rio Branco

Miguel Rio Branco une o poético e o brutal

Exposição que será aberta amanhã (8), no Instituto Moreira Salles, é um resumo da carreira do fotógrafo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

07 de dezembro de 2020 | 05h00

Isolamento social não é um termo novo no dicionário do fotógrafo Miguel Rio Branco. Há mais de meio século ele vem registrando como vivem os proscritos das grandes cidades, enxotados do mundo como cães sarnentos. Uma de suas séries mais conhecidas, Maldicidade, aliás, aborda esse isolamento involuntário em várias regiões do globo – Brasil, Cuba, EUA, Japão, Peru. Ela integra agora a mostra Palavras Cruzadas, Sonhadas, Rasgadas, Roubadas, Usadas, Sangradas, que o Instituto Moreira Salles (IMS) abre nesta terça-feira (8) sem vernissage, respeitando as orientações e o protocolo das autoridades governamentais de São Paulo neste perigoso retorno à fase amarela da pandemia do coronavírus.

No dia da abertura, 8, às 18h, está programada uma live com Miguel Rio Branco, Thyago Nogueira, coordenador da área de fotografia contemporânea do IMS e um dos curadores da mostra, e a crítica de arte Luisa Duarte, autora de um texto do livro que será lançado para acompanhar a exposição. O evento, gratuito, será transmitido ao vivo no canal de YouTube do IMS: .youtube.com/imoreirasalles.

Inicialmente projetada como uma retrospectiva do pintor, que iria ocupar dois andares do IMS na avenida Paulista, a exposição teve seu tamanho reduzido. Mesmo assim, a mostra reúne duas centenas de fotos de Miguel Rio Branco e uma instalação, Out of Nowhere, criada para a Bienal de Havana de 1994 e remontada no IMS em nova versão. Nela, imagens registradas numa academia de boxe da Lapa integram um puzzle associativo em que entram até páginas de um jornal nova-iorquino (Police Gazette) dos anos 1920, quando começou a Depressão americana – fragmentos ligados por um grande tecido negro e refletidos em espelhos antigos, bisotados.

O próprio título da instalação, Out of Nowhere, faz referência a uma canção clássica da Depressão, composta em 1931 por Johnny Green com letra de Edward Heyman, imortalizada por Bing Crosby – curioso que, em 1969, o próprio Green assinou a trilha do filme A Noite dos Desesperados, ambientado na mesma época, que usa, inclusive, o mesmo tema para acompanhar uma maratona de dança dos excluídos da sociedade americana. Na instalação de Miguel Rio Branco, aliás, há muito de montagem cinematográfica, no sentido de cruzar tempos e lugares distintos num mesmo espaço – nessa fotocollage se misturam imagens de uma série com as prostitutas do antigo Pelourinho, na Bahia, além da mencionada série de boxe num imenso repertório em que passado e presente se cruzam como num filme de Alain Resnais.

O cinema é a grande referência de Miguel Rio Branco, que nele começou ao lado do diretor de fotografia carioca Affonso Beato (colaborador de Almodóvar) num filme dirigido por Arnaldo Jabor (Pindorama). Out of Nowehere, que se configura como um atlas à maneira de Aby Warburg, como observou a crítica e curadora Lígia Canongia, imagens e épocas se entrecruzam numa disposição formal adotada em outros segmentos da mostra, que reúne mais de 200 trabalhos produzidos desde os anos 1970, quando Rio Branco começou suas experiências com a fotografia, até agora. Essas obras tratam de temas como a solidão, o expurgo social, a sexualidade, a violência e a dor.

Miguel Rio Branco concedeu uma entrevista por telefone em que fala de sua relação “obsessiva” com o cinema. “Eu não sou um purista ortodoxo como Cartier-Bresson”, diz o fotógrafo, que trabalhou nos anos 1980 na agência Magnum, fundada pelo francês. “Sou mais Rauschenberg”, conclui, referindo-se às ritualísticas justaposições de imagens que esboçam narrativas sobre o mundo à maneira de Christer Stromholm, uma de suas grandes referências ao lado de Robert Frank e Bill Brandt, que o impressionaram no começo de sua carreira de meio século.

Imersão. A exposição Palavras Cruzadas, Sonhadas, Rasgadas, Roubadas, Usadas, Sangradas é resultado de uma imersão no arquivo do fotógrafo Miguel Rio Branco desde que, vivendo em Nova York no anos 1970, realizou uma série de fotografias ao redor do bairro boêmio East Village e da rua Bowery, onde conviveu ao lado de artistas como Antonio Dias (1944-2018), Hélio Oiticica (1937-1980) e Rubens Gerchman (1942-2008).

Essa proximidade, natural para quem começou a carreira como pintor, foi importante para um profissional que registrava justamente os contrastes sociais das metrópoles e a exclusão dos marginais, temas caros também a Antonio Dias, Oiticica e Gerchman, três renovadores da arte brasileira nos anos 1970. Foi como fotógrafo documental que Rio Branco, filho de diplomata que viveu em vários países e contextos culturais distintos, chamou a atenção de Charlie Harbutt (1935-2015), que viria a ser presidente da agência Magnum em 1979.

Nesse ano, Rio Branco registrou uma série com prostitutas em casas arruinadas. Nela, a pintura descascada das paredes era uma metáfora incômoda das vidas minúsculas se desintegrando – parte da série está na mostra do IMS. Nos anos 1980, quando fazia parte do time da Magnum, suas fotos eram documentais e um tanto agressivas, frutos de sua necessidade de se rebelar contra as injustiças sociais – ele continua rebelde, vociferando contra governos como os de Bolsonaro e Trump, embora sua exposição trate de questões mais formais.

“Miguel queria uma exposição que, antes, refletisse sobre a linguagem, a sintaxe da construção das imagens”, argumenta o curador Thyago Nogueira, justificando o foco numa montagem que destaca a narrativa poética do fotógrafo e reúne uma sequência de fotos que se combinam em looping, sem princípio nem fim, envolvendo o espectador com sua construção rítmica típica de uma peça jazzística. “Miguel não é só um bom fotógrafo, ele é um excelente editor de imagens, faz um trabalho de reorganizar os acordes”, diz Nogueira.

“Na parede, as fotos da série Maldicidade são outra coisa, mas a questão é a mesma, a da catástrofe das grandes cidades, já condenadas”, observa Miguel, que trocou a metrópole por um sítio em Araras, na região serrana do Rio. “A gente está destruindo a nossa casa, nossa terra”, completa. “Algo está errado num mundo em que só poucos se dão bem, onde metade da população americana vota num psicopata como Trump”.

Aos 74 anos, Miguel Rio Branco lamenta que estejamos vivendo num faroeste tupiniquim em que o xerife é Bolsonaro. A fotografia, já disse em ocasiões anteriores, muitas vezes oprime ou asfixia a realidade. Mais que voltar à foto documental, o que lhe interessa é o mistério que essas imagens escondem por trás do drama humano. Por vezes, elas são mal compreendidas até em países com sólida tradição cultural – e ele cita a recente exposição do Le Bal parisiense, onde exibiu fotos feitas nos anos 1970 e 1980 – prostitutas do Pelourinho e em Carnaíba, na zona de garimpo do Recôncavo Baiano. Bastou um debate na televisão francesa para que uma campanha contra as fotos começasse, pedindo a retirada de imagens da mostra.

Dos anos 1990 em diante, o artista trocou a câmera de 35 mm por filmes de médio formato, produzindo imagens que relacionam o eu lírico do fotógrafo e o mundo – e acentuam o conflito entre história e acaso. Na última sala da mostra, de forma mais pictórica e elusiva, o jogo estrutural da obra do fotógrafo se torna ainda mais complexo, convidando o visitante a desvios polifônicos por meio das cores saturadas que se tonaram a marca poética de Miguel do Rio Branco. 

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