Michael Bublé rejuvenesce o centenário jazz

Cantor canadense fala ao Estado sobre primeira turnê pelo Brasil, que, por conta da grande procura, terá um show extra

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

18 de novembro de 2008 | 00h00

Michael Bublé, o "Frank Sinatra canadense", ou ainda "o Harry Connick Jr. de Vancouver", canta em São Paulo a partir desta noite em show de preços proibitivos, entre R$ 300 e R$ 1,1 mil - tão proibitivos que ele tem gastado metade de suas entrevistas explicando que não é um mercenário, que os preços altos se devem ao custo de trazer uma big band consigo e à nova conjuntura internacional."Todo mundo está sendo afetado, os shows, os filmes. Ficou mais caro excursionar, produzir, e isso se reflete nos preços. Não se trata de ganhar muito dinheiro, não estou ganhando mais do que em anos passados", disse o cantor, falando ao Estado por telefone, dias atrás.Paradoxalmente, embora sempre associado à herança de Sinatra, Bublé não é o tipo de sujeito que seria aceito sem relutância no Rat Pack (o grupo de rebeldes liderado por Sinatra e que tinha ainda Dean Martin, Sammy Davis Jr., Pete Lawford e Joey Bishop). Isso porque Bublé não gosta de encrenca, é um cara do bem que não hostiliza paparazzi e adora imitar personagens de cartum em talk shows.Bublé tem a incrível capacidade de tornar pop o que era jazz ortodoxo e tornar jazz macio o que era pop. É o que fez agora com uma balada de Eric Clapton, Wonderful Tonight, na qual divide os vocais com o brasileiro Ivan Lins. Está no seu novo disco, Call me Irresponsible - no qual também reinterpreta Leonard Cohen (I?m Your Man), Harold Arlen (I?ve Got the World on a String), Billy Paul (Me and Mrs. Jones), Henry Mancini (It Had Better be Tonight) e divide vocais com o Boyz II Men em Comin? Home Baby."Não é demagogia, pode perguntar por aí. Em todo lugar que chego, se alguém me pergunta, eu digo: essa música, Wonderful Tonight, é uma das minhas favoritas. É uma gravação perfeita", explica o cantor. "Mas, quando pensei em gravar Wonderful Tonight, tive a idéia de fazer diferente, de gravar com um compasso de bossa nova. Na minha cabeça, pensava quão bonito ficaria. Eu já era fã de Ivan Lins, adoro Começar de Novo. Ivan tem aquela voz bonita, um timing perfeito, é tão envolvente. Aprendi muito ouvindo suas canções. Então, houve um dia em que ele estava gravando e alguém no estúdio parecia conhecê-lo. Pedi que me apresentassem a ele e assim tudo começou. Ele é um grande sujeito."Bublé até decorou umas frases em português para cantar a versão híbrida de Wonderful Tonight. Mas ele não tem a expectativa de que Ivan Lins venha a dar uma canja em seu show. "Não há nada acertado, então acho difícil."A primeira vez que o Brasil (e o mundo) ouviu falar de Michael Bublé foi em 2004, quando a Warner lançou aqui Come Fly With me, no qual Bublé expressava sua paixão por standards sinatrianos, em músicas como My Funny Valentine (Lorenz Hart e Richard Rodgers). O álbum vendeu mais de 3 milhões de cópias mundo afora.Nele, o jovem canadense mediava também as relações entre o jazz e o pop, cantando Bee Gees (How Can You Mend a Broken Heart) e Freddie Mercury (Crazy Little Thing Called Love) e Van Morrison (Moondance). "Não importa se é George Gershwin ou Michael Jackson. Uma grande canção é sempre uma grande canção", ele vaticinava.Desde então, ele ganhou o planeta e fez shows em quase 50 países. Mas continua mostrando humildade. "Tenho grande sorte de poder cantar pelo mundo todo. Minha diversão preferida é cantar, é estar no palco", afirma. Os colegas de geração, como Madeleine Peyroux, Norah Jones e Jamie Cullum, sempre se referem a Bublé com reverência."Acho que Michael Bublé canta melhor que eu", afirmou Jamie Cullum. "Ele é tecnicamente muito melhor, tem a voz mais macia, bem colocada. Meu canto é mais ardido, imperfeito", considerou o canadense, um sujeito que mantém sua carreira num nível bem pessoal - até se lembrou da primeira entrevista que deu ao Estado.Ambos são amigos, e Bublé minimiza o elogio. "Jamie é pianista, faz sua interpretação com base nessa sua capacidade. Eu sou intérprete, mas nós dois nos interessamos pelo mesmo tipo de repertório. Não se trata de dizer que um é melhor ou pior que o outro. Somos apenas diferentes."O cantor sempre conta a história da forma como chegou a esse repertório jazzístico: quando tinha uns 14 anos, o avô, Santaga, o apresentou a uma grande coleção de discos. O velho tornou-se seu mentor e conselheiro.Amigo pessoal de Tony Bennett, ele ouviu do mestre um grande conselho, certa vez. Bublé contou a Bennett que, numa determinada interpretação, tinha "roubado" algo do estilo do cantor. Bennett respondeu o seguinte, rindo: "Se você rouba algo de apenas um, você é apenas um ladrão. Mas se você rouba de todos, pode chamar a isso de pesquisa.""As músicas que eu ouvi são as que todo mundo da minha idade ouviu: Prince, Beastie Boys, Michael Jackson. Ouvi também Elvis e as grandes cantoras, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan", revelou. Também teceu rasgados elogios a uma conterrânea, a cantora k.d. lang. ServiçoMichael Bublé. Via Funchal (3.143 lug.). R. Funchal, 65, V. Olímpia, 3188-4148. De hoje a 5.ª, 21h30. R$ 300/R$ 1.100

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.