Meu bem

Maria Carmen e José Carlos se conheceram em 4 de dezembro de 1948, na festa de aniversário de uma amiga em comum. Além do nome completo da aniversariante, Marilisa Frontin Werneck, eles também se lembram, precisamente, de muitos detalhes daquela noite e dos mais de vinte e três mil dias que se seguiram desde então.Começaram a namorar em 25 de junho de 1949, numa festa junina. Ficaram noivos um ano depois. Casaram-se em 20 de janeiro de 1953.Tiveram três filhos.Trocaram incontáveis beijos.Passaram alguns apertos.Conseguiram realizar o sonho da casa própria com o esforço necessário.Trabalharam duro, se divertiram muito, viajaram, viram os filhos crescerem, tiveram três netos, foram felizes, foram infelizes, foram em frente.Até hoje, José Carlos e Maria Carmen já presenciaram o mandato de 21 presidentes da República e de uma Junta Governativa Provisória. Torceram pelo Brasil em 15 Copas do Mundo e comemoraram cinco vitórias. Testemunharam a Guerra Fria, a descoberta do código genético, a demonstração da teoria do Big Bang, a Guerra do Vietnã, o fenômeno da bossa nova, o assassinato de John Kennedy, a ditadura militar, a anistia, o primeiro transplante de coração, o primeiro voo espacial, a chegada do homem à Lua, o primeiro computador, a criação do microchip, a invenção do DDD, o milésimo gol de Pelé, a morte de John Lennon, a passagem do cometa Halley, o acidente nuclear de Chernobyl, o primeiro celular, a queda do Muro de Berlim, a criação da Microsoft, a revolução da internet, a clonagem de um ser vivo, o 11 de Setembro, a Guerra do Iraque, o Tsunami, a eleição de Obama, e um grande número de revoluções, tufões, terremotos, secas, inundações e erupções vulcânicas. Dançaram ao som de boleros, tangos, jazz, blues, MPB. Foram fãs do Al Jolson, do Agustín Lara, do Cole Porter, do Bing Crosby, do Sinatra, do Gershwin, da Piaf, da Dolores, do Noel, do Antônio Maria, do Tom, do Chico. Rodaram de bonde, de ônibus elétrico, de lotação, de táxi, de trem, de metrô, de Fiat (nunca vão esquecer seu primeiro "Pulguinha" modelo 1946), de DKW, de Dauphine, de Gordini, de Corcel, de Passat e de Del Rey - a famosa "máquina do tempo" que eles têm até hoje. Voaram de Constellation, de Electra, de Boeing, de Airbus. Pagaram suas contas em cruzeiros, cruzeiros novos, cruzados, cruzados novos, cruzados reais e reais. Perderam seus pais, alguns irmãos, muitos amigos, e sua maior tristeza, eles afirmam, é exatamente a falta que fazem "aqueles que saltaram do trem da vida ao longo dessa viagem". A maior alegria continua sendo "o amor em família".Maria Carmen e José Carlos, minha tia e meu tio, construíram juntos uma história imensa, detalhe por detalhe.Segundo eles, o casamento é uma luta permanente por momentos felizes.Simples assim.Hoje, ele tem 82 anos e ela vai completar 80.Um detalhe: há mais de 60 anos, eles só se chamam de "meu bem".Mas esse bem não é só deles.É meu também.

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