Metalinguagem no verão europeu

Vale a pena ver hoje o português Aquele Querido Mês de Agosto, que passou em Cannes em maio, e é um filme sobre um filme

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2008 | 00h00

Miguel Gomes é o autor de um filme português brilhante. Chama-se Aquele Querido Mês de Agosto e integrou a programação da mostra Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes, em maio. Não havia muita gente na coletiva realizada a seguir. Estávamos dois brasileiros, o repórter do Estado e o crítico e diretor Eduardo Valente, que já conhecia (e apreciava) o realizador. Para o repórter, foi uma descoberta. Miguel Gomes começou dizendo que fez o filme que conseguiu, não o que gostaria de ter feito. Problemas não lhe faltaram. Ele começou por não ter o ator certo; depois, mais grave, foi a falta de dinheiro. O produtor lhe apresentou um ultimato. Ou faziam o filme de qualquer jeito ou esperavam para reunir toda a verba da produção. Isso poderia significar mais alguns anos, pois Miguel já trabalhava há dois no projeto. Ele preferiu filmar. Veja especial sobre a 32.ª MostraA maneira mais fácil de definir o filme que o espectador vai ver é apontando para o caminho da metalinguagem. Mês de Agosto é um filme sobre um filme - o que Gomes queria ter feito e o que fez. A equipe técnica participa das discussões. O som é um problema freqüente, afinal, Mês de Agosto é um filme, senão exatamente sobre os bailes populares que se realizam na Beira, região de Portugal, em pleno verão, pelo menos um filme que se beneficia desses eventos, situando neles a história de um tio e seus dois sobrinhos. Vira uma história de família, uma história de amor - de amores possíveis e contrariados -, e claro a história do filme que Gomes está realizando.Podem-se fazer muitas pontes entre Aquele Querido Mês de Agosto e outros filmes em cartaz em São Paulo, seja no circuito comercial ou na Mostra. Um deles é o francês Quero Ser Cantor, com Gerard Depardieu na pele de um cantor de bailes populares. Miguel Gomes também ama essas manifestações, as quais se acostumou desde que, garoto, freqüentava a casa do avô, na Beira.Os bailes populares portugueses resgatam um tipo de música brega, que no Brasil se chamaria de dor-de-cotovelo. Gomes diz que é uma música melodramática e ele ama o melodrama, porque é "surreal". Querem um exemplo? Uma música fala deste marido que freqüenta o bordel, aonde vê surgir a própria mulher, que se cansou de esperar por ele e virou, ela própria, prostituta. Como Gomes acrescenta - os bailes populares e a música do povo estão passando por um processo de transformação, acossados pela modernidade, pós-MTV. Aqui, pode-se relacionar seu filme com outros dois desta 32ª Mostra - o francês Vida Moderna, de Raymond Depardon, e o chinês 24 Hour City, de Jia Zhang-ke. A proximidade maior é com 24 Hour, pois Miguel Gomes mistura documentário e ficção, trabalhando nas bordas de ambos, mas há um retrato acurado da mentalidade interiorana - perfis de camponeses - como no filme de Depardon.Cada filme é um filme, mas o espectador que vai assistindo a muitos deles na Mostra começa a fazer suas ilações sobre o panorama do cinema mundial que está vendo. A presença francesa está forte, não apenas com o filme de Depardon, mas também com dois dramas familiares assinados por novos autores - Horas de Verão, de Olivier Assayas, e Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin. Num certo sentido, o ano está sendo raro, pois é o primeiro, entre muitos, em que não existe nenhum filme de Manoel de Oliveira na programação. Mas o cinema português está bem representado - por Miguel Gomes, jovem (mas não estreante) como Assayas e Desplechin. O tempo passa e as cinematografias, como os mundos - ou sociedades -, que espelham também se transformam. ServiçoCinemateca - Sala Petrobras - Hoje, às 16h30Unibanco Arteplex 4 - Quarte, às 17h50

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