Mestre Vitalino se instala no céu

É no Museu da Chácara do Céu, no Rio, que estão expostas 50 esculturas do artista pernambucano

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Em 1950, o colecionador Raymundo Castro Maya adquiriu obras de Mestre Vitalino (1909- 1963), o artista popular pernambucano hoje conhecido nacionalmente. À época, no entanto, não era assim. Castro Maya mandou intermediários a Alto do Moura, em Caruaru, por reconhecer nessas peças a qualidade que o Brasil viria a atestar mais tarde. Até o fim de novembro, o público carioca poderá ver no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa, no Rio, parte dessa coleção.O museu foi residência de Castro Maya - um dos fundadores do MAM carioca, em 58 - e hoje tem o segundo conjunto mais representativo de Vitalino das instituições do Rio (perde para o Museu do Pontal, dedicado exclusivamente à arte popular), segundo a curadora da exposição Peças de Novidade: O Mundo de Mestre Vitalino, Anna Paola Baptista.A mostra celebra o centenário de nascimento de Vitalino. São 50 esculturas de barro, das 72 que Castro Maya comprou. Tudo leva a crer que o colecionador tenha se interessado pelos bonecos do pernambucano por tê-los visto, no Rio, em 47, na 1ª Exposição de Cerâmica Pernambucana. A arte de Vitalino se tornou icônica. Passados 46 anos de sua morte, é impossível não ver figuras como as dele em feiras de artesanato Nordeste afora. São imagens de sertanejos que tiram leite da vaca e saem para a roça com a enxada. Retirantes com trouxas na cabeça, em fila ordenada por altura. Muitos cavalos, bois e bodes. "É um trabalho rústico e também sofisticado", diz Anna Paola.O cenário rural em que Vitalino Pereira dos Santos nasceu e viveu toda a vida (só chegou a conhecer Rio, São Paulo e Brasília nos anos 60, quando recebeu homenagens) está bem representado em suas "peças de novidade" (denominação do próprio para as obras), assim como sua experiência em Caruaru - foi na feira na cidade que ele foi "descoberto". As representações do dentista, do barbeiro, do costureiro e do parque de diversões entram neste outro recorte feito pela curadora. Numa terceira parte, algumas figuras transgressoras: os cangaceiros, o ladrão de galinha. Vitalino aprendeu a moldar o barro menino, com as sobras que sua mãe, que fazia utensílios domésticos para vender na feira, lhe dava para brincar. Quem puder levar lupa sairá ganhando, pois é impressionante a riqueza de detalhes. A onça morde o homem e o sangue escorre em tinta vermelha. Na roupa por que passa a agulha da máquina de costura, veem-se até os pequenos pontinhos deixados por ela.O museu fica na Rua Murtinho Nobre, 93. A exposição está aberta diariamente, exceto às terças, das 12 às 17 h.

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