Mesrine, díptico sobre gângster deu prêmio de ator para Cassel

E ele integra com o diretor Richet a delegação francesa que chega ao Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

15 de junho de 2009 | 00h00

Pode até parecer arrogância, mas Vincent Cassel não exagera ao parafrasear Gustave Flaubert, que dizia que sua criação literária, Madame Bovary, era ele. Cassel também diz a um grupo de jornalistas reunido num hotel de Paris, no mês de janeiro, para os Rencontres du Cinéma Francais, que ninguém mais poderia fazer Mesrine. O gângster que virou o inimigo número 1 da França é um papel que lhe cabe como uma luva. Perfeito. Por isso mesmo não surpreende que, naquela noite, Vincent Cassel tenha recebido o César, o Oscar da França, por sua criação como Mesrine. O díptico de Jean-François Richet, êxito de público e crítica em seu país de origem, é um dos filmes que terão pré-estreia no evento Panorama do Cinema Francês, que começa amanhã em São Paulo. O ator e o diretor integram a delegação francesa que a Unifrance está trazendo ao Brasil para promover o cinema francês.Cassel já havia contado que Mesrine era, inicialmente, um projeto para ser realizado por Barbet Schroder. Só que o diretor de documentários como Idi Amin Dada e ficções como O Reverso da Fortuna estava construindo uma cinebiografia que mitificava o gângster morto pela polícia em 1979. Embora interessado em tornar seu personagem verdadeiro, Cassel não concordava com o enfoque. A mudança de diretor - Jean-François Richet entrou em cena - retardou o projeto. O roteiro foi reescrito, a produção, (re)planejada. Cassel, nessa altura, estava comprometido com outros projetos, mas ele sabia que Mesrine, o filme, iria esperá-lo. Quem mais poderia criar o personagem? Ele ri, e não é arrogância. "Mesrine sou eu!"Jacques Mesrine foi um personagem público muito conhecido na França. Nunca houve criminoso mais midiático. Sua história era amplamente conhecida e, ao mesmo tempo, levanta questões que permanecem sem resposta 30 anos depois - a morte (assassinato?) numa emboscada da polícia, as ligações com a direita francesa, pós-Guerra da Argélia, o papel dos imigrantes. Como foi feita a pesquisa? "Quando comecei a trabalhar com o roteirista Abdel Raouf Dafri, já havíamos lido tudo sobre Mesrine", conta o diretor. "Os livros de seus amigos, das companheiras, os relatos policiais, os testemunhos. Confrontamos todas as versões em busca do que tinham em comum, fosse a favor ou contra Mesrine. Chegamos a uma espécie de veracidade sobre o que não poderia faltar no filme."Como resumir 20 anos de uma vida tão intensa? "É preciso ser modesto, o que o próprio Mesrine, decididamente, não era. Para narrar, como ficção, 20 anos da vida dele, precisaria de uns 20 filmes, um para cada ano. Trabalhando com um díptico, duas vezes duas horas, foi preciso se concentrar na essência. Que momentos definem a vida desse homem? A cena da entrevista para Paris Match é um bom exemplo. A entrevista ocorreu, as questões foram aquelas, mas as fotos foram feitas separadamente. Teria de ter outra cena. Concentrei tudo numa só." O filme trata de violência e poder. Os norte-americanos fizeram grandes filmes de gângsteres. Hollywood foi alguma espécie de influência? "Não quis fazer o meu O Poderoso Chefão, se é a isso que você se refere, mas existem lições de eficiência dramática de Hollywood que eu não seria louco de ignorar."

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