Mesmo morto, cantor ''bebeu'' com amigos

Caixa com restos mortais do artista era a ''estrela'' do sarau Segunda Sem Lei

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

12 de maio de 2009 | 00h00

Curiosa história cerca os restos mortais de Sérgio Sampaio. Morto em 1994, ele foi enterrado num jazigo provisório no Cemitério São João Batista, no Rio. Em três anos, seus ossos foram "desalojados" e a família convocada para ir buscá-los."Li uma nota no jornal dizendo que, se ninguém fosse buscar, iriam para uma vala comum", diz João Moraes, primo do artista. Ele então entrou em contato com Ângela, viúva de Sérgio Sampaio (mãe de seu único filho, João Sampaio), e conseguiram reaver os ossos.João Moraes conta que lhe deram um esquife pequeno, de fibra, com menos de um metro. Ângela tinha de ir trabalhar e lhe confiou os ossos. "Embrulhamos o esquife numa papelaria e eu saí com ele. Atravessei a rua, entrei na Avenida Figueiredo Magalhães Jr. e entrei num boteco do outro lado da rua. Pedi uma caracu e um traçado (pinga com catuaba) para mim e outra para ele", lembra o documentarista.Depois, de táxi pelo Rio, deu-se conta de que não podia ficar andando com aqueles ossos pelo mundo. "Isso não pode virar uma Evita Perón", disse a si mesmo. Tinha no bolso a nota fiscal de posse dos restos mortais de Sérgio Sampaio. "Tenho até hoje." Foi então que voltou para sua casa em Cachoeiro de Itapemirim. Como estava prestes a sair o disco Balaio do Sampaio, em tributo a Sérgio, resolveram então que ele guardaria os ossos. "Pensamos em confiar a uma funerária para guardar, mas eu tive medo. E se pegasse fogo?", conta João. Resolveu então manter Sérgio no armário.João tem um senso de humor apurado, além da irreverência. Resolveu então criar um evento chamado "Segunda Sem Lei", no qual abria a casa para que qualquer um que quisesse entrasse para beber e conversar e tocar violão. "Dependendo do clima, quando ?baixava? o Sérgio na mesa, eu descia a caixa e ele vinha beber com a gente algumas rodadas. As pessoas escreviam na caixa. O (poeta) Chacal escreveu. O (compositor) Sérgio Natureza também." Natureza não sabia no que estava escrevendo. Estava hospedado na casa de João Moraes. Quando ia dormir, enrolado na toalha, João lhe informou que, no armário do quarto, estavam os restos de Sampaio. Natureza se recusou a dormir lá, bandeou-se de toalha e tudo. Essa história vai ser contada no novo documentário de João Moraes, em breve. "Eu achava que poderia parecer um desrespeito, mas depois me toquei que essa picardia era a cara dele."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.