Mensagem para você

Na terça-feira da semana passada, 150 milhões de pessoas ficaram sem acesso ao Gmail do Google durante 100 minutos. Ao me deparar com a tela congelada e uma lista de mensagens não abertas, telefonei para um dos meus editores no Estado e comuniquei a "emergência". Ao fim da conversa, expliquei que ele teria de recorrer a um telefonema para confirmar uma reportagem. Mais ou menos como quem está com sede e pede a alguém para ir até um poço recolher água potável.

Lúcia Guimarães, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

O meu tom dramático não foi excepcional. Na New Yorker, Ken Auletta, autor de do novo livro Googled: The End of The World As We Know It (Googlados: O Fim do Mundo Como o Conhecemos), foi ouvido por um colega durante o crash e reclamou por se sentir preso, de volta ao século 20.

Recebi recentemente vários e-mails de parabéns por ter decidido salvar árvores e agora aceito minhas contas de eletricidade, aquecimento e telefone por e-mail. Nenhuma das companhias que vão deixar de enviar contas pelo correio disse nada sobre perdoar multas caso o usuário sofra uma regressão involuntária para o século 20.

O crash do Gmail, apesar de breve, não foi o primeiro, não será o último e está mantendo ocupados os jornalistas especializados em tecnologia, por suas repercussões sobre uma conveniência do século 21 - cloud computing. A ideia de que companhias e indivíduos não precisam comprar softwares caros de vocês sabem quem e podem viver no maravilhoso mundo abstrato onde acessam tudo o que precisam online, seja na ilha de Manhattan ou na ilha de Tonga.

Mas digressiono.

A súbita privação do e-mail me lembrou de outro livro que está para ser lançado: The Tyranny of E-Mail (A Tirania do E-Mail). O autor é John Freeman, o jovem editor da edição americana da revista literária Granta. Um trecho do livro de Freeman foi publicado no Wall Street Journal. Termina com a instrução: "não enviar". Duvido que Freeman fale português ou tenha lido um artigo da vossa colunista, A Virtude de Não Enviar. Não há escassez de gente formada no século 20 escrevendo sobre as vicissitudes do 21. Mas, ao me deparar com um companheiro de resistência, telefonei para a redação nova-iorquina da Granta. O telefone dá ocupado há quatro dias. Aí, já estamos falando da primeira metade do século 20. Mandar um e-mail seria capitular. Decidi enviar um cartão. Escolhi o que traz um cartum da New Yorker. Três homens das cavernas estão sentados em torno de uma fogueira, um deles vê que o outro será atingido por uma pedrada e comenta, casualmente: "You?ve got mail." O slogan celebrizado pela AOL e título de uma comédia romântica com Meg Ryan e Tom Hanks deixou, para muitos, de despertar o entusiasmo do contato humano e começa a confirmar a cena do cartum.

Uma reportagem recente do New York Times ilustrou como o ritual do café da manhã das famílias está sendo suprimido por causa da corrida para checar e-mail, Twitter e Facebook. Desconfio de apocalipses tanto quanto desconfio da atitude robótica diante de qualquer tecnologia.

Não sei se o livro A Tirania do E-Mail, de John Freeman, será mais um manifesto moralista sobre a civilização ameaçada. Mas gostei de uma parte do texto que li e compartilho com potenciais aflitos por mal-estar eletrônico.

O verdadeiro progresso, lembra Freeman, é decidir qual a inovação que lhe facilita a vida. Ninguém contesta a extraordinária inovação permitida pelo e-mail. Como ninguém contesta o fato de que a internet derrubou a barreira entre vida profissional e vida pessoal de uma forma que o ócio, assim como o sono, uma necessidade biológica, sofreu o maior assalto desde o século 19.

Quando entrevistei Philip Roth para este jornal, ele contou que não se comunica por e-mail com amigos. Não só porque ele escreve cartas, mas porque não quer tomar o trem-bala e aderir à forma de comunicação que vai consumir as horas dedicadas a escrever alguns dos melhores romances deste século e do passado.

A velocidade da internet não é, por si só, uma virtude. Nós vivemos no mundo físico e o mundo físico tem limitações. A troca furiosa de e-mails aumenta o número de erros cometidos por funcionários de empresas e multiplica os mal-entendidos nas relações pessoais.

A vida é curta. O óbvio tornou-se uma advertência necessária, já que o e-mail passou a consumir de maneira insalubre a nossa existência finita.

O contexto é importante para a vida. O ecossistema virtual não é substituto para o conjunto de referências ambientais físicas que formam a nossa percepção do mundo e informam as nossas decisões. "Precisamos separar a ideia de progresso da ideia de velocidade", diz Freeman, "e separar a ideia de velocidade da ideia de eficiência."

Como toda inovação que provoca extremos, imagino que o e-mail vai encontrar um lugar mais saudável na interação humana. Um roteirista na minha vizinhança me disse que vai a Los Angeles discutir o piloto de um programa de TV. "Você sabe", ele suspirou. "Ninguém mais responde a e-mails. Tenho mesmo de pegar o avião."

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