Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Mendes da Rocha, mestre dos espaços abertos

O arquiteto queria que os frequentadores das obras que construiu respirassem livremente, usufruindo do convívio social

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2021 | 15h53

Assim como Vilanova Artigas (1915-1985), Paulo Mendes da Rocha foi um mestre da Escola Paulista de arquitetura, um arquiteto com muitos seguidores no segmento marcado pela técnica construtiva, o uso do concreto armado aparente e o respeito pela estrutura. Em termos comparativos, Mendes da Rocha foi para a arquitetura o que Amilcar de Castro e Sérgio Camargo foram para a escultura – e o arquiteto foi, sem dúvida, o homem que em sua profissão mais acompanhou a evolução da arte moderna e contemporânea no Brasil.

Os grandes vãos, a iluminação zenital da escola Paulista ganham em Mendes da Rocha também um significado político – a exemplo de Artigas, ele e seus discípulos tinham um projeto arquitetônico não só estético como político para o Brasil, o que lhe custou a cassação do direito de lecionar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) e também seus direitos políticos, em 1969, durante o regime militar.

Libertário, o arquiteto queria que os frequentadores das obras que construiu (ou restaurou) respirassem livremente, usufruindo do convívio social – e uma prova inconteste disso é, por exemplo, o prédio do Sesc 24 de Maio (2017), construído no lugar onde antes existiu a loja de departamentos Mesbla. Da praça no térreo, que convida quem passa pelo centro a entrar naquele espaço, ao topo, na Praça do Sol, onde uma gigantesca piscina serve de contraponto à aridez da metrópole, tudo foi pensado como um exemplo a ser seguido na reurbanização do centro de São Paulo – não para uma elite, mas para todos.

Mendes da Rocha tinha pavor de espaços fechados. Seu Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (Mube), inaugurado em 1995, é o exemplo mais radical de um pensamento arquitetônico voltado para a livre circulação – funcional, seguindo os preceitos da moderna escola germânica (Bauhaus) e integrado ao ambiente (o museu subterrâneo tem salas de exposição e auditório integrados no andar inferior e um jardim no topo que dá para a rua). Cabe lembrar que as grades que o cercam não são de responsabilidade do arquiteto, adepto da ideia de que se deve até modificar a topografia de um projeto se for para facilitar a vida dos usuários.

A Pinacoteca do Estado, um prédio projetado no começo do século 20 por Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi, era um labirinto escuro quando Paulo Mendes da Rocha foi chamado para assinar sua restauração com outros dois arquitetos. A solução encontrada para iluminar o prédio, originalmente uma construção marcada pelo ecletismo italiano, foi montar um gigantesco telhado transparente sobre os vazios internos, cobertos por claraboias planas, confeccionadas em perfis de aço e vidros laminados. Ele também assinou o projeto do Museu da Língua Portuguesa, instalado no prédio da Estação da Luz, bem em frente ao edifício da Pinacoteca.

Em São Paulo, seu primeiro projeto foi o do ginásio do Clube Paulistano, em 1958, para o qual desenhou uma poltrona que virou um clássico do design internacional, uma estrutura em aço que usa capas de tecido ou couro incorporadas a ela como saias.

Paulo Mendes da Rocha deixa irrealizados vários projetos – não por culpa sua, mas por administradores que talvez não estivessem sintonizados com o visionário arquiteto. Um deles é o Aquário de Santos, que seria integrado à água do mar. Outro é o novo prédio da Pinacoteca Benedito Calixto na mesma cidade, um belo edifício que seria construído no terreno ao lado da centenária casa onde hoje ela funciona. A Prefeitura de Santos prestaria uma bela homenagem ao arquiteto se concretizasse esses projetos.

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