Memórias de um inventor de deusas

Famoso no mundo por descobrir supermodelos, John Casablancas lança autobiografia cheia de polêmica, aventura e glamour

Patrícia Villalba, RIO, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Observador do mundo da moda ou não, quando o leitor for fisgado por Vida Modelo (Editora Agir), a incrível história do criador de John Casablancas, vai ter a impressão de que em poucas vezes o "inventor das supermodelos" se levantou da cama para viver um dia trivial. "Se você é repórter de guerra, a probabilidade de levar uma bala é maior se você for repórter de moda. Pois bem, se eu fosse repórter de moda, levaria bala no meio de um desfile", diverte-se ele, em entrevista ao Estado na sala de seu apartamento no Leblon, no Rio."Catalão que por acaso nasceu em Nova York", Casablancas conta no livro como ficou famoso ao lançar algumas dúzias das mais belas e ruidosas deusas da moda e publicidade através da agência Elite - Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Naomi Campbell e Gisele Bündchen, aquelas que não se levantavam da cama "por menos de US$ 10 mil". Suas memórias saem ao mesmo tempo em que ele volta aos concursos de beleza e ao agenciamento de beldades (leia ao lado). Numa nova tentativa de impor um padrão de beleza ao mesmo tempo elegante e saudável e num desafio à ditadura da esquisitice, ele diz que ainda é capaz de descobrir "uma nova Gisele" - conceito que parece ser um mito, depois de tantos anos de reinado da modelo brasileira. Entre memórias divertidas de seus tempos de garoto, entre internatos e férias na Riviera Francesa, até suas aventuras de empreendedor, como vendedor de refrigerante na Bahia dos anos 60 e representante de vibradores, Casablancas não parece ter-se esquivado de nenhum assunto nas conversas que manteve com sua ghost-writer, a jornalista Ana Maria Bahiana, para compor o livro. Entre os assuntos mais polêmicos, está até mesmo o escândalo envolvendo seu sócio na Elite, Gerald Marie, acusado por uma reportagem da BBC de assediar sexualmente as modelos, em 1999. E, ah, Gisele Bündchen. Como um Dr. Frankenstein abandonado, Casablancas não mede palavras para dar a sua versão sobre o rompimento dos dois, pouco antes de ela despontar como a modelo mais requisitada do mundo. Sobre ela, ele escreve: "Como modelo, é linda, sabe se movimentar como ninguém, há muitos anos é, indiscutivelmente, a melhor do mundo. Contudo, como pessoa, não se aproxima nem um pouco da figura mítica, da deusa que a imprensa não cansa de pintar."Ao Estado, ele admite, "é mesmo dor-de-cotovelo". Nesta entrevista, ele fala sobre essa mágoa, ainda, sobre a volta aos concursos e, claro, a beleza feminina.Você escreveu o livro com uma ghost-writer. Como foi o trabalho?O processo de seleção da ghost durou um ano e meio, foi uma coisa... Uma experiência catastrófica, que começou com a escolha da ghost e terminou com o livro que não chegou ontem (os exemplares do livro não ficaram prontos a tempo da festa de lançamento no Rio, na semana passada). Vinham aqui ou fashion victims ou pessoas que queriam escrever sobre os bastidores da moda. E houve também aqueles que não entendiam nada de moda. Todos ficavam interessadíssimos, mas saíam e não voltavam mais. Depois de mais de um ano, me separei da primeira editora. Na nova, a Ediouro, me mandaram a Ana Maria Bahiana. Gravamos centenas de horas, o texto original deve ter tido umas mil páginas. O livro representa 25% das anedotas que eu contei para ela. Fomos cortando, cortando, cortando. Adorei o estilo dela, que pegou meu estilo de fala, de pensar, e colocou numa linguagem clara, fácil de ler.Condensada, a história dá a impressão de que nenhum dia na sua vida foi comum. Muita coisa, para 67 anos...Minha esposa (Aline) estava rindo ontem, porque todo mundo dizia na editora que isso - de um livro não chegar para o lançamento - nunca tinha acontecido. A Aline dizia: "Se podia acontecer com alguém, só poderia ser com o John." Eu acho que eu provoquei muitas dessas coisas que aconteceram comigo. Se você é repórter de guerra, a probabilidade de levar uma bala é maior do que se você for repórter de moda. Pois bem, se eu fosse repórter de moda, levaria bala no meio de um desfile. Nos anos 90, os concursos da Elite lançaram não só moças bonitas, mas modelos de personalidade. Hoje, entretanto, não vemos que os reality shows que buscam modelos consigam feito semelhante. O que o faz pensar que, no contexto atual, seja possível lançar um concurso como esses com o impacto de antes? Eu sou como o Obama: "Yes, we can". A mesma coisa com a moda. Quando eu cheguei à moda, curiosamente, o mundo das modelos parecia o que é hoje, todas branquelas, magras, sem bumbum... Não tinha morenas, eu impus morenas. Não tinha mulheres com formas no corpo, como a Cindy Crawford, que eu impus também. Quebrei todos os tabus, impus uma mulher que eu achava interessante. Há leis de estética e aerodinâmica que fazem com que uma mulher alta e magra leve melhor o vestido horrível feito pelo estilista sem talento. Dentro da geração nova de modelos, havia mulheres com personalidade além da presença fotográfica, como Linda Evangelista e Claudia Schiffer. Todas elas construíram um perfil fantástico e há mais oportunidade para isso. Uma Paris Hilton, por exemplo, é ícone de moda, o que nunca poderia ter acontecido antes. Quero mostrar que não é o tempo que não permite que surjam novas supermodelos, mas um gerenciamento ruim da carreira delas.Mas ser modelo é algo que se aprende? A gente vê cada coisa nesses reality shows...Ridículas. Eles querem cabides. Acho que as pessoas gostam de pessoas reais, de uma pessoa que, de certa maneira, é um sonho, mas é um sonho real, não um sonho inventado - cabelos exagerados, maquiagem exagerada, essas coisas meio doentes. As coisas que vendem na moda são saudáveis, naturais. Há uma percepção no mundo da moda de que ser diferente é estar na moda. Não acho isso. John Galliano ou Viviane Westwood cometem exageros? Tudo bem, são gênios. Agora, se você é um fabricante de prêt-à-porter brasileiro, não exagere.Quem são as mulheres bonitas de hoje?Aqui no Brasil, acho a Grazzi Massafera realmente espetacular. Como modelo, a Ana Beatriz Barros é espetacular, a Adriana Lima, a Alessandra Ambrósio. Dentro das que são muito fashion, gosto muito da Carol Trentini e a Ana Cláudia Michels. E o que explica todo o frisson em torno das mulheres melancia, jaca...Aqui no Brasil, vocês têm uma tradição de ser um pouco obsessivos com o bumbum. Essas mulheres são um exagero dessa tendência. Mas eu, pessoalmente, acho a coisa menos sexy que existe. Eu aceito tudo, acho que todos têm direito aos seus gostos pessoais, mas para mim, não me estimula em nada. Deixo para os outros.Você detalha no livro a sua versão sobre o rompimento de contrato entre a Elite e Gisele Bündchen, alegando que foi traído por ela. Não teve receio de parecer dor-de-cotovelo?Não parece dor-de-cotovelo, é uma dor-de-cotovelo assumida. Por causa, digamos, de um capricho egoísta muito dinheiro, muito prestígio, muito prazer. Não somente naquele momento, mas durante anos, quando o sucesso de Gisele, que eu construí com meu trabalho, era lembrado constantemente, sem que ela desse o devido crédito disso à Elite. A parte difícil da carreira não é quando você já chegou ao topo. Ser número um do mundo é a parte difícil. Ela manteve seu sucesso muito bem mas, como eu saí do negócio, não teve concorrência de outras modelos. Eu sei que falando da Gisele vai me trazer muita inimizade. Aqui, ela não é uma pessoa, é uma deusa. Mas por outro lado, vou poder contar a minha história. As pessoas vão saber que eu a achei, eu que a levei a ser top. Isso ela não pode me roubar, mesmo se as pessoas acharem agora que é só dor-de-cotovelo. ServiçoVida Modelo. De John Casablancas. 416 pág. Livraria da Vila. Alameda Lorena, 1.731, 3062-1063. Hoje, 19h Ele volta à caçaMuitas vezes no pódio e em alguns momentos beijando a lona, John Casablancas está de volta a campo, atrás da próxima Linda Evangelista, da nova Ana Beatriz Barros e, quem sabe, da substituta de Gisele Bündchen.De agência nova, a Joy Joy Model Management, de Milão, ele lança um novo concurso, mas com um diferencial. Desta vez, nada de olheiros profissionais. Quem vai indicar as moças mais bonitas do seu pedaço serão os profissionais dos salões de beleza. Segundo as regras do Beleza Mundial, manicures e cabeleireiros - e somente eles - poderão fazer a inscrição das aspirantes. A idéia surgiu da parceria entre Casablancas e os patrocinadores do concurso - a Mundial Beauty Care, os calçados Tanara e os esmaltes Impala. "Vamos transformar as manicures em fadas-madrinhas e, em vez de carinha, elas têm alicates, esmaltes e tesouras nas mãos", brinca o idealizador cuja empreitada movimenta R$ 5 milhões. A estimativa é que hajam no País mais de 150 mil profissionais aptos a serem "olheiros".As candidatas devem ter mais de 15 anos e serão selecionadas em 13 capitais, de abril a junho de 2009. As 20 finalistas receberão um treinamento especial. A final será em agosto. As três primeiras colocadas assinam um contrato de 2 anos com a Joy. A vencedora também terá um contrato internacional de 3 meses com a Joy, em Milão. Mais detalhes no site.

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