Memórias de família na guerra

Em A Mulher do Meio-Dia, Julia Franck inspira-se no próprio passado tortuoso

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

21 Agosto 2008 | 00h00

Os alemães gostam muito de viajar, observa a escritora Julia Franck, ela mesma um bom exemplo dessa afirmativa - desde o início da semana em São Paulo, ela tanto já conversou com leitores na Bienal do Livro como participa amanhã, às 19 horas, de um debate, no Instituto Goethe, ao lado de Milton Hatoum e do também alemão Robert Menasse. "Mas nem sempre a recepção é carinhosa", reconhece a autora, revelando um pesado fardo. "Quando franceses ou ingleses descobrem que somos alemães, não conseguem esconder uma cara feia. É uma forma desagradável de sermos confrontados com nosso passado." A história, de fato, ainda incomoda, especialmente a herança da 2ª Guerra Mundial. Julia Franck, no entanto, não veste essas cicatrizes como estigmas, mesmo carregando uma trajetória familiar nada tranqüila - ela nasceu em Berlim Oriental, em 1970, quando a Alemanha ainda vivia fatiada em dois. Oito anos depois, emigrou com a mãe e quatro irmãs para a Alemanha Ocidental. Durante nove meses, a família viveu em um acampamento para refugiados, até se estabelecer em Schleswig-Holstein, no norte do país. Aos 13 anos, Julia retornou a Berlim, onde ainda vive hoje. Tamanha herança influenciou sua literatura, mas não pelo tortuoso caminho do acerto de contas - ao descrever a vida, a bela escritora alemã (suas feições delicadas fazem lembrar as de uma boneca) revela as contradições que marcam seus personagens e, com isso, permite uma aproximação com os leitores. É o que se percebe em A Mulher do Meio-Dia (tradução de Marcelo Backes, 352 páginas, R$ 40), lançado agora pela Nova Fronteira. A história começa durante o verão de 1945. Uma mulher aguarda o trem em uma estação da Alemanha. Sua intenção é fugir da cidade onde viveu os últimos anos e, quem sabe, construir um futuro melhor, longe do exército soviético que agora domina a região, longe dos escombros e das doloridas lembranças da recém-terminada 2ª Guerra Mundial. Com ela, está o filho de 7 anos. Acontece então o inexplicável: a mulher abandona o menino para nunca mais voltar. Entender o motivo de tal atitude é o ponto de partida da narrativa de Julia, história eleita a melhor do ano passado na Alemanha. "À primeira vista, é condenável um filho ser abandonado pela mãe", explica a autora. "Mas existem alguns motivos realmente fortes que podem, de alguma forma, justificar isso, algo que signifique a garantia da sobrevivência, mesmo a esse alto custo." A concessão é justificável - o pai de Julia foi abandonado pela própria mãe quando criança, em meio ao caos do pós-guerra. Aconteceu logo depois de encerrada a 2ª Guerra, quando muitos alemães que viviam na Europa Oriental rumaram para a região ocidental. "Em uma dessas caravanas, minha avó pediu para meu pai esperar em um banco, pois ela iria fazer compras e voltaria logo. Mas não voltou." O acontecimento, revoltante, está no livro e é utilizado por Julia para mostrar como muitos perderam a razão em meio ao caos pós-guerra. A Mulher do Meio-Dia, aliás, é recheado de detalhes que também são encontrados na trajetória da escritora. Mas Julia garante que o livro não se limita a uma sucessão de fatos reais transformados em ficção. "Eu inventei a história, mas não posso negar que fui fortemente influenciada pela experiência da minha família." De fato, embora não seja comparável à escrita dos modernos autores alemães, cuja procedência (seja a antiga Alemanha Oriental, seja a velha Ocidental) impregna de forma indissociável seu estilo, a obra de Julia Franck carrega o passado como fonte vital de sua existência. É o que se percebe mais facilmente em uma obra anterior, Lagerfeur (Fogueira de Acampamento), cuja trama se passa em um campo de refugiados na Alemanha Ocidental, local onde viveu com a mãe e as quatro irmãs, no fim dos anos 1970. Seria sua obra um ajuste de contas com tal sofrimento? Julia garante que não, mas é impossível dissociar sua ficção da sua realidade, história marcada por constantes necessidades de superação. Instalada com a família no lado ocidental da Alemanha, Julia sofreu com o preconceito típico de cidade pequena, cujos moradores olhavam torto para sua mãe, mulher que teve cinco filhas de diferentes homens. Ela resolveu, então, mudar-se para Berlim com apenas 13 anos. Lá, distribuiu jornais, trabalhou como babá, faxineira, foi garçonete até cursar faculdade e arrumar um emprego como freelancer em um jornal. "Ou seja, ao contrário de muitas amigas, eu não tive privilégios em minha juventude, o que me incentivou a escrever, pois me sentia deslocada na minha geração", comenta Julia que, hoje, vive uma situação diferente - adorada pelos fãs, apontada como um dos grandes nomes da atual literatura européia, ela também é elogiada pelos colegas, como se observa no comentário de Ingo Schulze: "Não se pode obrigar ninguém à felicidade, mas quando se ama poesia e caráter, então deve-se simplesmente ler Julia Franck." Serviço 20.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Pavilhão de Exposições do Anhembi. Avenida Olavo Fontoura, 1.209. Das 10 às 22 horas. Ingressos R$ 10. Aberta só até domingo (dia 24) Hoje Na Bienal OFICINA DE ILUSTRAÇÃO. As crianças podem aprender a desenhar com Marilda Castanho, autora do livro Pula, Gato!. Estande Ática e Scipione. 14 h EVA FURNARI, FERNANDO VILELA, IVAN ZIGG E ÂNGELA LAGO. Os autores contam suas histórias no bate-papo Os Artistas da Palavra - Escrevendo, Ilustrando e Encantando. Salão de Idéias Volkswagen. 11 h JOSÉ MINDLIN.O bibliófilo levanta a questão O Brasil Está Formando Leitores?. Salão de Idéias Volkswagen. 15 h MEMÓRIA DA CIDADE. O jornalista Heródoto Barbeiro e os historiadores Elias Thomé Saliba e Boris Fausto debatem sobre a memória de São Paulo. Estande do Sesc. 16 h MOMENTO APLAUSO.O público poderá conversar com os cineastas Fernando Meirelles e João Batista de Andrade. Estande Literário da Imprensa Oficial. 17 h ZUENIR VENTURA. O jornalista conversa sobre o tema 1968-2008: O Brasil no Meio e, mais tarde, autografa o livro 1968 - O Que Fizemos de Nós, no espaço da Editora Planeta. Salão de Idéias Volkswagen. 17 h. Estande da Editora Planeta. 19 h MÁRCIA CAMARGOS, ALESSANDRA MELEIRO E ADRIANA CARRANCA. Mesa-redonda sobre literatura, cinema e cotidiano no Irã. Salão de Idéias Volkswagen. 19 h

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