Memória em tempo de amnésia

Sesc promove encontro para discutir os efeitos do excesso de informação na era da informática

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2024 | 00h00

Já dizia o historiador francês Pierre Nora que a distância entre memória e história é a de um oceano. A história, como reconstrução da memória, é e sempre será, segundo Nora, problemática e incompleta. É uma posição dividida por outros intelectuais, entre eles o filósofo, também francês, Paul Ricoeur (1913-2005). Claro que nem todos dividem a mesma posição. Outros pensadores, como o historiador americano Patrick Geary, consideram tênue a linha que separa memória e história. A memória, coletiva ou histórica, serve sempre a algo ou alguém, propósito político que não pode ser ignorado, segundo Geary. A partir de quarta-feira, intelectuais brasileiros entram na discussão durante os três dias (26, 27 e 28) do seminário internacional Memória e Cultura, promovido pelo Sesc Vila Mariana, evento programado para levantar aspectos da memória relacionados à arquitetura, patrimônio cultural, organização de acervos, arquivos históricos e criação artística.A organização do Sesc convidou profissionais de diversas áreas e vários países (Brasil, França, Colômbia e Argentina, entre eles) para discutir como o excesso de produção de informações no mundo contemporâneo tem provocado, paradoxalmente, amnésia social ou feito da memória um espetáculo. Se a história e a arqueologia ajudam a dar sentido ao passado, elas também podem ser usadas de forma arbitrária para construir falsos monumentos, catedrais transitórias sobre a areia do tempo. As construções e estruturas concretas das cidades, afinal, sempre interagiram com histórias menos tangíveis, memórias e experiências subjetivas expurgadas da história social dos lugares. Como enfrentar essa tensão entre história e memória, encontrar o que os franceses, parafraseando Flaubert, chamam de ''''juste mémoire'''', de que também fala Ricoeur em sua obra? Existirá, de fato, essa ''''juste mémoire''''?O seminário, evidentemente, não se propõe a dar respostas filosóficas ou prolongar discussões sobre o conceito metafísico bergsoniano de memória, nem mesmo explorar idéias de pensadores como Benjamin ou Halbwachs. A discussão é mais terrena: o que se pretende preservar, afinal? Por que, por exemplo, a história de uma entidade como o Sesc, que tem prestado 60 anos de relevantes serviços à cultura nacional, está sob ameaça de ser alterada por decisão legal (a de dispensar as contribuições de micro e pequenas empresas destinadas a preservar entidades privadas de serviço social)? Pode ser que nenhum dos participantes ouse mexer nesse vespeiro, mas não o diretor regional do Sesc, Danilo Santos de Miranda, que vê na atitude dos políticos que aprovaram a lei uma forma de apropriação indébita de um patrimônio construído com imaginação e vontade, uma ação político-partidária ''''para abarcar o capital social e cultural'''' da entidade. Em outras palavras: o governo, ao esvaziar o Sesc, se apropriaria de uma história que não é a sua, mas da entidade, desde as ousadias arquitetônicas de um Sesc Pompéia, projeto de Lina Bo Bardi (1914-1992), a uma programação cultural com a qual poucas instituições governamentais podem rivalizar.O seminário faz parte de um projeto maior chamado Sesc Memória, que, desde 2005, tem reunido material para registrar a história dos 60 anos de experiências acumuladas pela entidade. O primeiro seminário foi realizado no ano passado e o resultado das discussões sai em livro em outubro, segundo Santos de Miranda. Mas falta ainda muita história para contar, entre elas a das unidades móveis de orientação social, que nos anos 1960, em plena ditadura, percorriam o interior num serviço pioneiro de integração, ajudando a criar a metodologia que hoje faz o Sesc funcionar.Da mesma forma que o seminário não vai discutir Bergson, também não coloca em pauta a ameaça de extinção do Sesc. Santos de Miranda, a respeito dos temas pautados para o encontro, diz que a explosão informativa tem provocado uma febre de preservação da memória, alertando que ''''esse exagero pode provocar até distúrbios de ordem psicológica bem diferentes dos causados pelo enciclopedismo de séculos passados''''. O computador, depósito da memória moderna, ajuda, mas não é tudo.Com ele concorda o arquiteto e ex-secretário estadual e municipal de Planejamento, Jorge Wilheim, que abre o ciclo de conferências do dia 27, às 9h, falando sobre patrimônio cultural e memória. A respeito de memória eletrônica, Wilheim lembra que ''''dado não é informação'''', acrescentando que, mesmo juntando dados e chegando à informação, ainda assim não se tem conhecimento. ''''E, o mais importante: mesmo tendo conhecimento, não se chega automaticamente à sabedoria''''. É longo o caminho. Para Wilheim, estamos submergindo em dados. Em sua palestra, o arquiteto vai abordar os efeitos da aceleração sobre o homem contemporâneo, vítima da falta de tempo para reflexão e do excesso de informação. Como é arquiteto, vai explicar também a diferença entre lugar e espaço. Lugares, diz ele, são escolhidos, dependem de razões subjetivas. Já os espaços, por razões históricas ou estéticas, passam a ser dignos de preservação, subindo ao patamar patrimonial.A discussão remete a Walter Benjamin, para quem o historiador deveria ser uma figura voltada à transmissão do que a história oficial não recorda ou do que não foi narrado, por fidelidade aos que não têm voz na sociedade. Sobre isso deverá se ocupar a filósofa francesa Jeanne Marie Gagnebin, professora titular de Filosofia da PUC-SP, que abre o seminário na quarta, dia 26, com uma conferência sobre amnésia social e espetacularização da memória. Gagnebin é grande especialista na obra de Benjamin, um dos primeiros pensadores modernos a analisar Proust de forma não exclusivamente literária, mas como narrador histórico de uma cidade (Paris) em plena transição do arcaísmo para a modernidade.Outra grande presença no seminário do Sesc é a da professora de literatura e curadora do acervo de Mário de Andrade, Telê Ancona Lopes, que vai falar sobre a organização do material histórico pertencente ao escritor (biblioteca, coleção de arte e obra literária). Toda memória é elusiva, mas, no caso do autor de Macunaíma, sua vida foi dedicada à construção de um rígido monumento memorialístico. Telê revela que Mário guardava tudo, o que, se facilita o trabalho dos pesquisadores, também dificulta a catalogação. ''''Quando trabalho com o manuscrito, busco, por exemplo, os laços que ele tem com a vida de Mário e traço rotas para ajudar os leitores futuros que irão consultar esse arquivo'''', diz ela sobre a obra do idealizador da Semana de 22.Para o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, que fala sobre narrativas orais como fonte de criação, no dia 28, às 14 h, a memória, no entanto, não pode ser entendida exclusivamente como documento. ''''Memória não é o simples resgate'''', diz ele, lembrando que os depoimentos de remanescentes de organizações operárias do início do século passado na elaboração de sua peça Bella Ciao (1982) ou o escasso material biográfico sobre o comediante Vasquez, para a peça O Rei do Riso (1985), passaram por uma exaustiva pesquisa histórica não para salvar do limbo histórias pessoais, mas valores. ''''É um trabalho projetado para o futuro'''', resume. O seminário do Sesc, além dos entrevistados, tem uma lista imensa de convidados, entre eles o diretor do Museo del Cine da Argentina, David Blaustein, o escritor Sébastien Roy, a crítica Mariângela Alves de Lima, do Estado, e o cineasta Sylvio Back. O Sesc Vila Mariana fica na Rua Pelotas, 141. As inscrições para o seminário vão de R$ 25 (comerciários) a R$ 50.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.