Memória e ficção no fim de tarde

Prosa irônica, terna e divertida articula-se em coletânea de textos de Aurélio Buarque de Holanda

Moacir Amâncio, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

Se o verdadeiro memorialista é quem consegue dar alcance universal - além do tempo e do espaço - aos fatos que ele julga fazer parte da sua biografia, Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) pode ser considerado um deles, a partir da edição de Melhores Contos, feita por Luciano Rosa. O autor dominava o gênero dentro dos modelos escolhidos: cenas de infância, personagens recortados num fundo às vezes diluído, às vezes bastante concreto, com que ele vai desvendando para o leitor um mundo antigo, quando as pessoas se reuniam aos domingos para ouvir a leitura de um romance. São marcas que doem, divertem ou comovem a memória e cobram uma atitude do escritor, que os recriava em sensíveis exercícios de imaginação com os quais flagra os momentos privilegiados das personagens, seja no sofrimento, seja na ilusão, seja na pequena tragédia da roça ou da cidadezinha alagoana, seja no ambiente farsesco da então Capital Federal (isso nunca muda). Há ficcionistas que escrevem sobre a experiência alheia. Buarque de Holanda prefere, ou é obrigado a falar do que viu e viveu. E com isso marca a sua contribuição com a devida nota pessoal que se requer de todo escritor digno do nome. Será inútil buscar nele originalidade temática, formal, etc. O que é preciso lembrar: cada autor deve ser lido a partir dele mesmo e não de pressupostos alheios à obra que entrega ao público. Diante disso, só resta ao leitor acomodar-se numa poltrona ou rede (de preferência num alpendre) e se deixar levar pelo ritmo envolvente da prosa de Mestre Aurélio. Uma prosa de fim de tarde, melancólica, irônica, terna, divertida. A vivacidade dessa prosa garante a permanência de um passado que se quer fazer conhecido e deve ser conhecido. Seus contos nordestinos integram toda uma literatura, das mais ricas deste país, e permitem uma leitura em conjunto com a obra de José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Osman Lins, Hermilo Borba Filho, etc. Quem nunca leu um conto sequer do autor não sentirá falta, mas ao descobrir este volume, perceberá que Buarque de Holanda não pode ficar ausente dessa paisagem. Deve-se aqui ressaltar a importância da coleção dirigida pela escritora Edla van Steen, que cumpre o papel de manter viva a presença de autores significativos. Os clássicos são resultado também de projetos no campo sociocultural. Um clássico não se faz sozinho. A nota pessoal de Mestre Aurélio começa com um episódio infantil, a confissão. Normalmente falam de primeira comunhão, aqui o autor foi ao ponto. O grande momento antecede a solenidade, a celebração, dá-se na consciência, antes e depois do diálogo com a figura invisível do padre, oculto por uma treliça. Ali começa a se forjar o futuro adulto, ali despontam as primeiras dúvidas sobre o absoluto das verdades que começam a se desfazer no momento em que são enunciadas. Não será difícil encontrar relações entre esse conto e outros dois, que cabem melhor no cenário francamente urbano. Um deles é Dr. Amâncio, Revolucionário. Outro, O Escritor Alberto Barros. O contista fala dos equívocos da comédia literária. No primeiro, o tema é a impossibilidade de controlar o efeito do texto publicado, que o personagem-título enfrenta. Narrativa leve, uma piada que, no entanto, guarda algo bastante complexo. O tal dr. Amâncio pretende escrever algo que provocará grande impacto, deixará o mundo de ponta-cabeça. Sente-se um subversivo. No entanto, após a publicação, é cumprimentado pela polícia e condenado pelos supostos membros da oposição política. Já com Alberto Barros o o que está no primeiro plano é a questão da dignidade, ou melhor, da indignidade do seu comportamento de puxa-saco descarado. A prática literária não passa de instrumento para conseguir seus objetivos. Um pulha. Ainda na parte nordestina há uma "crônica", Feira de Cabeças, que em linhas simples, sem grande ênfase, fala sobre a exposição das cabeças decepadas do bando de Lampião, que os policiais apresentavam como prova da destruição dos cangaceiros. É a brutalidade dos policiais em diálogo com a brutalidade dos cangaceiros - nada há de romântico nessa história. A violência também está no centro de Zé Bala, mas desta vez há lugar para ironia. A tragédia da personagem-título resume-se a isto: Zé Bala não consegue provar que cometeu crime de morte, porque não tem nenhuma credibilidade. Quer dizer, é tão inútil que não pode servir nem de suspeito para feito de tanta ignorância. Entrecho pronto para uma adaptação televisiva ou cinematográfica. Ao contrário do que parece, o volume não é um mosaico aleatório. Os enfoques são filtrados por uma sensibilidade que organiza seu mundo, se não para lhe conferir um sentido, pelo menos para expressar uma perplexidade renovada. O organizador adverte que o volume não contém "os melhores contos" do autor, mas todos os contos escritos por ele. Os textos aparecem divididos em "contos" propriamente ditos, Retratos e Quadros. Há uma linha que dessa maneira separa ficção e memória. No entanto, o resultado final apaga essa linha. Como se percebe no decorrer da leitura, memória e ficção se fundem e produzem outra coisa: literatura. Moacir Amâncio é autor de Ata (poemas reunidos, Record), entre outros livros, jornalista e professor de língua e literatura hebraicas da USP Melhores Contos Aurélio Buarque de Holanda Global 216 págs., R$ 32

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