Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

No ano passado escrevi que o cinema brasileiro, por mais que ainda se tenha preconceito contra ele, tem sido "variado e inquieto", claro que me referindo ao período que vem desde a retomada em 1994. Como exemplos de 2007, dei O Cheiro do Ralo, Tropa de Elite, Mutum e O Passado, além de documentários como Santiago e Jogo de Cena. Nenhum deles é uma obra-prima, nem ao menos uma grande obra, embora o último - o documentário de Eduardo Coutinho - se aproxime bastante disso. O mesmo se pode dizer neste 2008, exceto pela ausência de um documentário desse porte. Meu Nome Não É Johnny, de Mauro Lima, Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, Estômago, de Marcos Jorge, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, e o multinacional Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, bastam como prova. Mas já não está na hora de uma reflexão que permita vislumbrar filmes de nível mais alto?Sim, trata-se de histórias urbanas de cunho tragicômico, lírico-nostálgico, social-afirmativo ou apocalíptico, todas com bom apuro de produção, atuação e cinematografia. Apesar de ter faltado também um bom filme não-urbano, como foi Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), estamos certamente diante de uma safra vigorosa. Atores como Selton Mello, João Miguel e Sandra Corveloni fazem trabalho primoroso, sustentando boa parte de seus filmes com seu talento, e a sensibilidade de Laís Bodanzky também não iria longe se não fosse a de Cássia Kiss e Stepan Nercessian. Mesmo com problemas sérios, o filme de Meirelles ("uma parábola que mal deseja ser uma história", na definição da New Yorker) tampouco pode ser ignorado. No entanto, são poucos produtos bons nessa atividade crescente - e nenhum rompe a barreira da correção.O problema me parece ser que, por baixo da diversidade de temas e gêneros, há ainda alguns travos comuns. O maior deles é certa demagogia sentimental. Do ponto de vista técnico, Linha de Passe é o mais bem realizado dos filmes do ano, mas também o que mais faz concessão a esse traço da cultura brasileira, a consciência culpada, que sempre acena com um final feliz para nossa fratura social desde que haja solidariedade entre as classes... Os outros filmes mal fazem referência a isso, mas também sentem vontade enorme de acomodar o espectador, de comovê-lo ou entretê-lo em vez de convencê-lo. O cinema brasileiro ainda se divide exatamente entre filmes que fazem um discurso sobre as mazelas e filmes que as encobrem com ação e humor - ou então absorvem acriticamente uma linguagem de TV para ter escala comercial.Realismo social e comédias personalistas, para resumir, dão o tom. Dilemas individuais num contexto histórico, o que sempre foi hegemônico no universo das narrativas, continuam raros. Não se filma, por exemplo, o drama de pessoas de classe média de um modo que seja crítico sem ser ideológico; é como se só nos interessassem a tragédia coletiva ou o escape subjetivo. Alice, a série de TV da HBO, apesar também dos muitos problemas (como as situações forçadas e os diálogos redundantes), pelo menos apontou para outro campo temático, com a história de uma jovem goiana que se transforma ao viver dores e amores em São Paulo. Ir além do binômio entre o cinema da culpa e o cinema da desculpa talvez seja a abertura para ver Brasil e humanidade de forma mais complexa.CADERNOS DO CINEMANão que o cinema mundial esteja muito melhor, que ainda se veja um Cidadão Kane, Um Corpo Que Cai, A Malvada, Morangos Silvestres, Rastros de Ódio, A Grande Ilusão, A Doce Vida, 2001, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão... Sim, estou citando meus dez filmes preferidos.Em 2008, depois da safra do Oscar, com Desejo e Reparação, Onde os Fracos não Têm Vez e Sangue Negro, tivemos até aqui pouco brilho. O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel, foi certamente o mais criativo, principalmente na primeira metade em que vemos tudo pelos olhos do paciente. Woody Allen fez Vicky Cristina Barcelona, roubado por Penélope Cruz, e os irmãos Coen fizeram também Queime Depois de Ler, que tem alguma coisa de Fargo e de comédias mais leves, mas que não é nem tão inventivo nem tão engraçado. Rebobine, Por Favor, de Charles Gondry, também tem passagens divertidas em meio ao besteirol, além da ótima cena final, mas não tem um décimo da beleza e da atualidade de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Já Mamma Mia!, com Meryl Streep, é mais um caso de filme desdenhado pela crítica e adorado pelo público, por seu alto-astral e belo visual ao som de Abba. Ainda não vi Gomorra e outros filmes elogiados; verei.Como no mundo dos livros e dos CDs, reedições estão em alta: o ano viu saírem DVDs de filmes há muito abandonados no Brasil, como O Conformista, de Bertolucci, Era uma Vez em Tóquio e Pai e Filha, do genial Ozu, e mais Mizoguchi, Glauber e outros clássicos, chatos ou não.ZAPPINGA HBO também fez a melhor série que consegui acompanhar no ano, John Adams, com atores como Paul Giamatti e Laura Linney. Vi episódios bons de Dexter e The Office. Vi também um ou dois capítulos por semana de A Fugitiva, a não ser quando viajando, e mais uma vez a novela - que não funcionou bem nas partes romântica e cômica - só "pegou" quando a vilã passou a ficar cada vez mais vilã... Apesar da boa atuação de Patrícia Pillar, Cauã Reymond merecia mais elogios; por ser famoso como bonitão, os críticos não têm coragem de declará-lo um ator muito promissor que, nas mãos de um bom cineasta, poderia fazer um grande personagem trágico, um Romeu moderno. Ah, o melhor programa da Globo se chama Som Brasil, graças aos arranjos e jovens intérpretes.O MUNDO É UM PALCOComo aos concertos, pude ir a poucas peças neste ano; ao contrário deles, dei azar com elas. Entre outras, fui ver três textos importantes por respeitadas equipes: A Moratória, de Jorge Andrade, pelo grupo Tapa; Senhora dos Afogados, direção de Antunes Filho; e Hamlet, com Wagner Moura. Desigualdade de interpretações e equívoco nos conceitos foram as marcas.A ARTE DE VERAlgumas exposições científicas, como sobre genoma e Einstein, e algumas históricas, como a do período Edo na Pinacoteca e a da Bossa Nova na Oca, animaram o ano. Retrospectivas de Duchamp no MAM e de Beatriz Milhazes na Estação Pinacoteca deram prazer e debate. No Louvre, me encantei com a mostra sobre a Babilônia e, milhares de anos mais nova, a linda sala Athanor do pintor alemão Anselm Kiefer.Bom mesmo foi rever a obra de Iberê Camargo no museu que leva seu nome, criado pelo arquiteto português Álvaro Siza às margens do Guaíba. E, por falar em arquitetura, a primeira coisa que fiz ao chegar a Pequim foi visitar as belas criações de Herzog & De Meuron, Rem Koolhaas e Norman Foster. Recentemente, por sinal, lamentei no blog a morte de Jorn Utzon, cuja Ópera de Sidney abriu caminho para essas ousadias e é uma prova de que as curvas não são exclusividades de Niemeyer, pois nos anos 50 seduziram não só Utzon e seu ídolo Alvar Aalto, mas também Eero Saarinen e Frank Lloyd Wright.POR QUE NÃO ME UFANO (1)Madonna estourou nos anos 80 e hoje continua endeusada da mesma forma ou até mais. Ela canta mal, sua dança parece Jane Fonda em versão erótica e as mudanças de estilo não encobrem sua frouxa musicalidade. Pode ver que se fala mais da musculatura da sua coxa, de como ela "não parece que tem 50 anos", do que das canções que interpreta. Mas entendo seu sucesso: ela embarcou em todas as ondas sem perder sua identidade. Enquanto o mais talentoso Michael Jackson naufragou pateticamente, ela se reinventou, assumiu as mais diversas personas - da suburbana romântica à atriz chique, da performer clubber à mãe latina - e foi sempre muito profissional, cercada de gente competente, em especial na hora de fazer os videoclipes (acho excelente aquele Human Nature). Não ficou parada nos anos 80. Acima de tudo, sua mistura de sangue italiano com pragmatismo americano pega uma veia da sensibilidade atual.POR QUE NÃO ME UFANO (2)Recebo email com o assunto "Osesp entre as melhores do mundo na Gramophone". Abro o link da revista, vejo a lista de 20 orquestras e... a Osesp não está entre elas. Aparece num box, ao lado da Filarmônica da China e da Royal Liverpool, como "up-and-coming", ou seja, uma emergente a se provar.POR QUE NÃO ME UFANO (3)Por que em vez de terem prendido Caroline Pivetta da Mota, que pichou mureta da tal "Bienal do Vazio", a polícia não age contra os pivetes que assaltam os cidadãos à luz do dia? Ou melhor, se for para punir o ataque ao patrimônio público, por que não prendem a diretoria da Fundação Bienal, que cometeu atentado a um evento que sempre se gabou de ser o terceiro maior das artes plásticas contemporâneas? Aforismos sem juízoQuem não reconhece virtude no adversário está pronto para ser derrotado por si mesmo.''Não se filma drama de classe média, como se só interessassem a tragédia coletiva ou o escape subjetivo''''Madonna canta mal, mas desde os anos 80 embarcou em todasas ondas sem perder a identidade''

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