Acervo Estadão
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Melancolia é analisada através do tempo e o humor por três teorias

Nos livros, o retrato da tristeza e do riso

Elias Thomé Saliba, ESPECIAL PARA O ESTADO

09 de junho de 2017 | 19h53

Poucos conhecem a história de Gonella, um bufão divertidíssimo que, no final do século 14, alegrava todo o povo de Ferrara, especialmente o príncipe. Quando este último é atacado de melancolia e de febre persistente, o bufão - frustrado pela incapacidade de sua arte cômica curar o príncipe - resolve recorrer a um método que começava a ser utilizado naquela época: o banho surpresa, o susto, a cura pelo medo extremo. O bufão empurra, então, o monarca no rio e apesar da boa intenção, é condenado à morte por lesa-majestade. Mas, como o príncipe sente-se melhor e adora o bufão e sua arte do riso, resolve pregar-lhe uma peça: no cadafalso, com o capuz do condenado, em vez do corte no pescoço, o condenado recebe um balde de água fria. Todos sabem da brincadeira, menos o bufão, cujo susto é tão grande e inesperado que lhe provoca a morte. 

Esta é uma, entre tantas histórias analisadas por Jean Starobinski, em A Tinta da Melancolia, Uma História Cultural da Tristeza. Historiador suíço, com formação em medicina e transitando com maestria em territórios da filosofia, da literatura e das artes plásticas, Starobinski escreveu uma das mais completas histórias desse fenômeno, que começou na Grécia antiga, no quadro da medicina humoral, que associava a melancolia à bílis negra, prescrevendo tratamentos revulsivos, purgativos, laxantes e, no limite, a sangria. À teoria dos humores, a cultura medieval acrescentou o toque astrológico, associando a melancolia a Saturno, astro da inteligência e da contemplação, mas também da perda e da renúncia. Foi no final do século 16 e começos do 17, que o mal começou a ser diretamente relacionado a um estado muito complexo do corpo e do espírito e a melancolia humoral transmutou-se numa melancolia nervosa. Fazendo um uso de inumeráveis fontes literárias, Starobinski mostra como essa medicalização da melancolia acompanhou uma autêntica mutação na natureza humana, geralmente designada como ascensão do individualismo e descoberta do mundo interior. A primeira grande doença civilizatória da Europa parecia prenunciar o deserto moral no qual desembocaria o individualismo liberal. Nasce a esfera pública, mas o riso espontâneo começa a regredir exatamente na época de surgimento do espetáculo da comédia. O século 20 dá o toque final à medicalização da melancolia, transmutando-a nas mais diversas modalidades de patologias depressivas.

Mas o livro passa longe dessa história um tanto linear e surpreende, ao mostrar que a experiência da melancolia é inerente ao ato da criação e corresponde, na cultura ocidental, ao longo processo de subjetivação na literatura e nas artes: sair de dentro de si, para o melancólico de todas as épocas, é expressar-se, é transformar a impossibilidade de viver em possibilidade de dizer. Lá estão, portanto, em páginas iluminadoras, Montaigne e Schiller, Goethe e Baudelaire - mas, também, Giorgio de Chirico e uma brilhante análise do Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh.

 

A história do bufão Gonella representa um momento de transição, no qual a melancolia é sutilmente associada ao universo humorístico - mas também uma inusitada ponte para os argumentos do humorista português Ricardo Araújo Pereira, em A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, título que é uma evidente paródia de Platão e Um Ornitorrinco Entram num Bar: a filosofia explicada com humor, de Cathcarth e Klein. Mais do que um manual com receitas de como fazer o melhor humor, Pereira, um dos criadores do famoso grupo cômico Gato Fedorento, realiza a proeza de juntar as célebres teorias do humor com as técnicas mais utilizadas pelos humoristas: contraste, imitação, exagero, inversão, repetição e deslocamento - tudo exemplificado com o que de melhor o universo da galhofa produziu. Se Starobinski aponta que uma das saídas mais sublimes do universo melancólico é a experiência do espelho humorístico - aquela que permite ao comediante produzir seu duplo irônico ao reconhecer suas próprias caretas e piruetas -, Pereira mostra que o humor, neste caso, vira uma segunda natureza das pessoas.

 

Todos os grandes humoristas, a rigor, seriam melancólicos porque talvez mais sensíveis e com mais dificuldade em lidar com a aspereza do mundo. A saída pelo riso é um estratagema que lhes permite assistir à vida a partir de um desdobramento momentâneo da personalidade, refúgio para observar as suas próprias desgraças como se elas acontecessem a uma representação de si mesmas, enquanto permanecem a uma distância cuidadosa das coisas - demasiado duras para serem experimentadas diretamente. 

O humor do bufão, ou do comediante, é aquela espécie de filtro que se interpõe entre as durezas da vida e o coração. Estratégia para reagir ao sofrimento, o humor não altera o mundo, apenas torna-o momentaneamente amigável - o momento do riso - mesmo que, para isso, tenha que dobrar, torcer ou virar do avesso todo o universo. Segundo Pereira, é uma atitude de valor equivalente à da criança que, depois de levar uma palmada, diz, com lágrimas nos olhos: “Não doeu nada”. Não é muito, mas é o que há de mais sublime na arte do humorista. O que faz lembrar outro bufão triste - Buster Keaton - que, no momento da sua morte, imóvel, e rodeado por amigos, os quais, na dúvida se estava vivo ou morto, sugerem: “Toque nos pés dele. As pessoas quando morrem estão com os pés frios”. Foi aí que Keaton abriu os olhos e disse: “A Joana d’Arc não”. Foram as últimas palavras do melancólico bufão.

* ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE 'RAÍZES DO RISO'

LIVROS

A DOENÇA

Autor: Ricardo Araújo Pereira 

Editora: Tinta da China-Brasil (120 págs.,R$ 38)

A TINTA DA MELANCOLIA 

Autor: Jean Starobinski

Trad.: Rosa Freire d’Aguiar. 

Editora: Cia. das Letras, (568 págs.,R$ 74,90)

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